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Uma rotina de classe trabalhadora

atualizado 19 janeiro 2015 Deixar comentário
Um amanhecer das imediações da hidroviária nortchense

por Jose Mochila

Uma espécie terreno-diabólica me acordou numa madrugada desta semana, por volta das duas da manhã, quem sabe, como ocorre em muitas residências de cidades úmidas, margeadas por águas, matos e campos ou margeadas por rios, lagos, lagunas (!) ou infiltradas por canais fluviais. Falo de abomináveis pernilongos, da mesma praga que supostamente surge movida pelo cheiro das pessoas, conforme um renomado (nem tão renomado assim) estudo de uma obscura universidade de nome impronunciável do Reino Unido, por sua vez (uma pasma surpresa para muitos) uma escola superior (quem sabe?) secretamente financiada por uma empresa multinacional fabricantes de inseticidas, famosa anunciante, inclusive, de meios de comunicação, logicamente, uma informação não considerada pela “reportagem de últimos dias” editada por estagiários de um dito representativo portal brasileiro de notícias na Internet. Falo tudo isso, porque, por um tempo ganhou significação esta notícia inusitada, e que só leitores exclusivos de postagens de Redes Sociais e periodistas como eu costumamos dar valor. Se vocês não sabem… Obviamente, tomo banho todas as noites. E, para quem não leu a reportagem sobre abomináveis pernilongos, o portal brasileiro de notícias veiculou que as tais pragas surgem atraídas pelo cheio das vítimas. Importa dizer, mesmo de banho tomado, os pernilongos – descritos no manjado clipping de estagiários – apareceram e estragaram com uma de minhas madrugadas de sono. Com o sono detonado por um zum zum pernilonguírico, não dormi mais. Se bem que eu tentei, juro que eu tentei. Quando percebi o relógio, eram seis da manhã de um meio de semana. Súbito, me notei acordado nas imediações da hidroviária nortchense. No popular, madruguei. Foi quando, insone, testemunhei o fluxo de operários que atuam no estaleiro produtor de plataforma para extração de petróleo bruto no oceano, outrora dito polo naval localizado às margens da Lagoa dos Patos. Há um do lado de cá, recém-instalado. Se me informei bem, há mais de dois ou dois do lado de lá, neste caso, há um bom tempo sob a interferência geográfica da vizinha cidade de Rio Grande. Enquanto uns desembarcam da lancha, outros chegam para pegar outra condução aquática num itinerário inverso. Logo, deduzi dois turnos de trabalho (embora eu acredite que sejam três, porque a legislação trabalhista não permite um número elevado de horas de labuta). Observo, enquanto uns chegam para o trabalho, outros operários estão saindo. Ônibus cedidos pela “firma”, no dizer de operários, deixam um tanto de gente na hidroviária, e logo já pegam outro tanto em local e hora determinados. O estaleiro de São José do Nortchê fica a dois ou três quilômetros de seu epicentro urbano. Fiquei da esquina registrando, de soslaio, esta rotina de classe trabalhadora. Lembro-me de testemunhos de desocupados que dão existências à parede de um bar/lanchonete antes mesmo do astro rei baixar da escuridão do universo. Desde cedo há personagens zanzando pelas imediações da hidroviária local. Inclusive, alguns deles atuam na cidade como pedintes profissionais. Vagas “sobrando” no estaleiro, e os camaradas ali, atravessando a nossa entrevista com um pedido descarado de amigo, tem uma moedinha aí? Instado, brinquei com um deles no instante de minha volta para casa: “camarada, por acaso não foi pra você que eu dei meia latinha de cerveja outro dia num final de tarde?”. Ele riu para mim, sem álibi. Saiu de banda, o malandro. Pensei, perdi o sono, mas ganhei outro retrato para a coleção de nossos diários. O que deve nos ajudar – voltei-me para o fluxo – a entender um pouco da realidade destes trabalhadores nortchenses, rio-grandinos e de radicados nestas duas cidades, gente que bate o ponto cedo e promove, entre os outros, um alô de boa vizinhança; presumi: cada um ciente de sua respectiva história e condição de vida.

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À dita boca pequena

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A dita boca pequena, em São José do Nortchê

por Jose Mochila

Em nosso doce cenário de mundo de 25 mil habitantes, todos os caminhos levam seus residentes ao encontro das ruas Álvaro Costa e Marechal Floriano. Mais especificamente, me reporto da chamada boca pequena local, encostado numa parede externa de um boteco movimentado. Não sabem desta, minhas caras e meus baratos? A boca pequena corresponde ao ponto de encontro de fabrico de sapos, cobras e lagartos, por línguas bem grandes e genuínas. As novidades emanam desta garganta como as novidades de todas as bocas pequenas do estado, do país, do mundo e de engrenagens semelhantes. O fenômeno é geral, crônico, bruto. Quer saber das novidades? diria um amigo jornalista, vá até a boca pequena mais próxima e descubra pessoalmente. Desta, é possível saber desde a previsão do tempo ao último enterro, do último caso extraconjugal até a lista atualizada de agiotas citadinos. De minha residência até a boca pequena de que falo, é um pulinho. Não custa chegar até este espaço sacrossanto. Sete minutos em passos largos ou 15 cotas de 60 segundos no um-dois, três-quatro. O percurso que me leva à hidroviária é uma gota caindo num deserto.

Na verdade, eu estava voltando da hidroviária, não estava exatamente indo. O relato é da volta. Quando encostei as vertebras numa parede… Uma saída rápida de meu casulo, e pá. Curiosamente, minhas saídas para as calçadas e ruas de São José do Nortchê tem sido raras ou meramente pontuais. Tchêêê, me vi munido de dois encartes debaixo do braço direito. Ou melhor, eram dois encartes e o jornal mensal do município. “Travessia da Laguna dos Patos”, “Gastronomia”, “Patrimônio Histórico”, “Festa [da] Nossa Senhora dos Navegantes”, lia um dos textos ilustrados. Peguei-os na hidroviária. Me disseram: quer guia turístico, informações úteis? “Sei onde tem!”. Curioso é admitir porque eu não tivera esta ideia antes, já que estou há alguns dias no Nortchê. (Nortchê é como os nortchenses chamam a própria cidade.)

As inúmeras passadas batidas na hidroviária sem que eu notasse o posto de atendimento ao turista foi demais, um cochilo imperdoável. A propósito, ouçam esta: “(…) O povoado teve início em 1725, quando João Magalhães comandando 30 lagunenses estabeleceu o 1º posto de vigilância do nosso Estado, onde hoje é a cidade”. Perceberam o tom heroicizante do texto? Mais um trecho promocional: “(…) A partir de 1750, os casais de açorianos se estabeleceram no Estreito (atual 2º distrito). Em 25 de outubro de 1831 ocorreu a emancipação do Município e a criação de São José do Nor…”. Fina flor dos jardins de Marcel Proust, vossas digníssimas senhorias notaram o contorno de Carta de Caminha neste informe? Tchêêê, o nosso cenário de mundo existe desde muito. O texto que eu lia segue solene, com um típico estilo de crônica histórica dos escaninhos ibérico-navais de 1500 e lá vai cacetada.

Alô alô, boca pequena local!? Estou na área, providenciais informantes de plantão!