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Irmãos da farofa e o feijão

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Depois de um contato com a língua nativa, um estrangeiro no Brasil deve provar a culinária nacional

por Elizabeth Suarique, a Bete

Depois do choque da língua, o segundo contato cultural começa no estômago. Faminto, o estrangeiro ta ai, inocente de preconceito e cheio de fome, pronto para experimentar. No entanto, acontece que algumas comidas não têm referencia nenhuma nosso paladar. A farofa foi uma delas, uma farinha grossa, às vezes misturada com azeite de dendê ou banana e frutos secos.  A primeira vez fica grudenta na boca e você precisa engolir alguma outra coisa húmida pra não engasgar-se, ai o brasileiro que senta a seu lado e que o acha um cara esquisito, reconhece-o como um gringo ingênuo e sugere você passar a farofa sobre o feijão pra ficar mais gostoso. Desse jeito as culturas entram literalmente no seu corpo e na sua experiência.

Todos os dias o brasileiro de tudo canto come arroz com feijão. Eu já vi um brasileiro triste procurando nos restaurantes de Buenos Aires o cheirinho do feijão preto, de grão menor, de tempero apimentado e com o sabor da calabresa.  É ai quando ele sofre de saudade nas cidades do Rio de Prata ou pior ainda na Europa onde não têm o feijão como um prato principal. A comida é uma das primeiras saudades que o estrangeiro experimenta nas viagens, não é a família, os amigos, o clima, não, é a comida mesma que, na verdade, traz consigo a lembrança do tempero da mamãe, a paisagem dos cultivos nas geografias da sua terra, os amigos que você fez de cantos com climas e comidas diferentes. Nos últimos meses a politica foi um modo de enxergar as diferenças internas da população brasileira, eu já conheci cara que não gosta do futebol, que nem sabe dançar o samba, que não tem lido o Machado de Assis, mas ainda não conheci alguém que rejeite da sua refeição o grão pretinho e gostoso. E mais uma coisa, essa farinha branquinha é herança legitima da mandioca que os indígenas domesticaram e os africanos atemperaram. Então, isso me faz matutar na minha cuca de estrangeira como apesar dos conflitos raciais, políticos e musicais, a comida é uma síntese da composição cultural do Brasil. Olhe para o prato, as cores não tem a ver com a origem. Embora, um colega pode explicar para mim com absoluta certeza que a raça aqui no Brasil é questão de cor na pele.

Além disso, essa mistura do feijão e a farofa ainda nova para alguns dos nossos paladares são marca de indo-americanidade. Embora o brasileiro esteja convencido que pouca coisa tem em comum com os povos ancestrais do continente pelo extermínio impecável dos indígenas, segundo uma pequena pesquisa, o feijão tem sua origem na mesoamerica e a mandioca é alimento principal dos povos indígenas da Amazônia, o tempero da farofa foi o aporte africano. Então o meu primeiro encontro transcultural do Brasil foi no prato mesmo.