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Fim de romance

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por Daniel Baz dos Santos

Estava escrito.
A carne se repete
em comidas em trapos de boca
amadurece o estereótipo da dor
Estava escrito.
O outono quebrará sua promessa
e todas as nossas roupas
não poderão significar nada
A carne se repete
em mensagens anônimas
doses de castiçais pelo olho manso
nenhum de nós fará o último gesto de neve
que aceite a memória.
Estava escrito.
Não poderemos morrer com esta cor
nossos sonhos desejaram cedo demais
as relíquias enterradas da palavra.
Estava escrito.
teremos de testemunhar o fogo
banindo seu grito
de nossos fantasmas suarentos.
______
Texto publicado originalmente em Invitro.

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Fantasmas a a a solta?

atualizado 21 dezembro 2015 Deixar comentário

por Jose Mochila

– Já falei que os fantasmas estão a a a solta?

É o que eu tenho exprimido com tinta preta em papel fora de moda ou espremido com a ajuda dos dedos das mãos até a última gota do tão fadado bagaço da laranja.

É. Não sei se a afirmação/admissão pode suscitar gestos de incompreensão ou caricaturas de espanto na testa oleosa da pessoa que me lê agora. Se não me entendem, paciência:

– Já falei que os fantasmas estão a a a solta?

A dicção pontuada continua a mesma das últimas aparições, que se abrem nas paredes vizinhas como se, de fato, paredes de concreto ou de madeira pinos – que nos isolam temporariamente do mundo – fossem portais ou painéis iluminados para nos iludir como crianças. Abrem-se de pontos invisíveis da atmosfera miúda. Abrem-se de janelas e portas redondas e distantes. Abrem-se de qualquer vazio supersticioso. Abrem-se da ausência de qualquer tipo de explicação científica.

Pois, agora mesmo vejo uma figura ali! Vejo-a sentada em cima de minha diminuta estante de livros esquecidos. Olhar de dissimulação. Vejam só, a figura folheia ou finge interesse num encarte de apostila de vestibular, (imagino) na tentativa de que eu vá lhe chamar a atenção com um olhar bajulador ou ditatorial. Pasmem! Não vejo nada além de um contorno de pessoa com cara de tacho apagado. Momento para fingir existência, plena descarga de energia mental.

Uma madrugada de uma data sem importância, um intervalo para um café. Na volta, a figura da estante de livros esquecidos continua entretida com o encarte de apostila de vestibular. Eu finjo que não a vejo novamente. Com o canto dos olhos, percebo que ela também finge que não me vê novamente.

Até certo sentido, evito sua aparição. Tento. Novamente. Na verdade, me distraía com a reorganização de papéis. Efeito de sentido. Passo a perceber outra figura no canto oposto do quarto! Por sua vez, esta também aparenta certo olhar de malcriação. De distintivo, apenas um bocejo descontraído no rosto.

Ainda pude notar duas outras no ar, como se pela estreiteza do moinho de água não rolasse apertado um tempo perdido. “Cada uma no resguardo de seu respectivo canto, ok?”

Recapitulo. À minha direita, estava uma representação do encarte de vestibular, dependurada numa estante de livros esquecidos; à esquerda, uma imagem de um bocejo descontraído.

Por filosofia, eu mirava o teto dos próprios sentidos, sem saber então da direção dos sentidos – se é que a direção dos sentidos se contenta com apenas duas imagens aparentemente distintas.

Da porta do quarto, pela extremidade que dava passagem à uma cozinha, ganhou vida um estrondo de bateria de escola de samba… Drown… Drown… O ruído de batuques comercializados de um iminente carnaval que eu não quero prestigiar. Um sono me apagaria no início da última consideração, na hora exata da queda não exata de minha consciência pessoal.