voltar

Encontro cor de chuva fina

Deixar comentário

por Nina Alencar Zur

Naquele dia, a claridade não entrou cedo no quarto, como de costume. Santiago acordou assustado com o despertador – pi-pi-pi-pi-pi-pi!!!! – e pulou da cama como se estivesse atrasado. Normalmente acordava antes do celular, com os primeiros raios de sol que atravessassem a persiana. Subiu a cortina e confirmou um céu cor de chumbo cobrindo a rua, formando com o asfalto uma coisa só. Eram oito horas da manhã.

Juliana também acordou às oito naquela segunda-feira. Dias nublados não a angustiavam. Na verdade, até gostava deles e do ar melancólico que uma quase chuva trazia à cidade de São Paulo. Atravessou a marginal de táxi, observando o encontro do Tietê com o céu, os dois formando uma coisa só. No engarrafamento, as motos passavam em fúria – bi-bi-bi-bi-bi-bi!!!! – e deixavam um rastro de fumaça para trás. Baixou a janela e respirou daquele ar úmido, com cara de nojo. “Como fede”, comentou com o taxista.

Santiago entrou no ônibus com duas sacolas carregadas. Não mais havia lugar para sentar. Resmungou em voz baixa, pensando que devia ter saído de casa mais cedo. Uma senhora, sentada, cutucou de leve a sua costela e se ofereceu para segurar as sacolas. Ele aceitou, um pouco tímido, e passou o resto da viagem a observá-la. Vista daquele ângulo, ela ficava com uma careca enorme. Pensou na sua mãe, que também pegava ônibus todos os dias, sem reclamar, até o fim da vida. Imaginou um desconhecido reparando nos sinais de sua idade e desviou o olhar da careca.

Juliana entrou no banco olhando para o relógio. Estava atrasada. Pensou que, em dia de pagar conta, era melhor que saísse meia hora mais cedo. A fila do caixa já estava quilométrica. Todos um pouco quietos, como num ritual conformado de início da semana. Seus saltos estalaram no chão – tec-tec-tec-tec-tec-tec!!!! – atraindo olhares. Seguiu de cabeça baixa e parou atrás de um senhor de seus setenta e cinco anos, talvez um pouco mais. Achou um absurdo não terem cedido um caixa para ele e comentou isso em voz alta, para ver se alguém o fazia. Sempre detestou, em São Paulo, a falta de cordialidade das pessoas. Pensou no seu pai, que dizia serem melhores os corações do interior.

Os dois se esbarraram no elevador do edifício comercial. Santiago com os olhos bem abertos, sentindo que dormira uma eternidade; Juliana com cara de sono, aos bocejos, tirando uma remela do canto do olho. Trocaram um bom dia tímido. Ele apertou o onze e perguntou para qual andar ela ia. “Para o mesmo”, ela disse. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Juliana se olhando no espelho. Sete, oito, nove, dez. Santiago cantarolando baixinho. Onze. Ele segurou a porta e ela agradeceu, chegando à conclusão de que ainda havia cavalheiros em Sampa, apesar de só conhecer um ou dois. Perguntou se ele era de lá. “Mais da quebrada impossível”, ele respondeu. Achou esquisita aquela pergunta, mas só deu uma risada discreta. Ela também achou a pergunta esquisita, mas perdia totalmente o senso do ridículo quando ficava curiosa. Emendou com um “eu também” e apressou o passo, envergonhada. Os saltos estalando no chão – tec-tec-tec-tec-tec-tec!!!! – e mais um bom dia.

Santiago bateu na porta de número mil cento e quatro – toc-toc-toc-toc-toc-toc!!! – e foi recebido por um homem da metade de seu tamanho. “Sou o eletricista”, disse. O homem olhou para as sacolas que carregava, cheias de fios e ferramentas. Pediu para que esperasse ali mesmo e saiu com a cara fechada. Santiago apoiou um dos braços na lateral da porta e recostou a cabeça. Fazia tempo que não via um recepcionista tão presunçoso. O homem voltou e o mandou entrar. “Deixe suas coisas aí mesmo e leve o estritamente necessário para o trabalho, por favor.”

Juliana entrou no consultório e foi direto para a mesa da secretária. Pediu para que ela confirmasse as consultas do dia e, enquanto a moça folheava a agenda – flap-flap-flap-flap-flap-flap!!!! – ela corria para o banheiro. Fazia tempo que não ficava com tanta vontade de mijar. Recomposta, vestiu o jaleco e parou na porta de acesso à recepção. Apoiou um dos braços na lateral e recostou a cabeça. Segunda-feira e já não estava conseguindo parar em pé. A secretária perguntou se ela tinha se alimentado direito. “Ando comendo muito mais do que devo, Marli. Por favor, me avise quando o primeiro paciente chegar, e peça para que ele deixe as coisas com você e leve apenas os exames para a consulta.”

Meio dia e meia. Brecha para o almoço. Já chovia na terra da garoa. Santiago com uma capa de chuva daquelas praticamente descartáveis, Juliana com o guarda-chuva importado. Por pouco não pegaram o mesmo elevador, mas se encontraram no térreo. Trocaram sorrisos amarelos e seguiram. Ela retardou o passo para que eles não continuassem caminhando lado a lado. A rua já estava semi alagada. Outra coisa que detestava em São Paulo era a eterna má administração da cidade. Santiago só pulava as poças e pensava na comida.

“Merda, rasgou”. Juliana se aproximou e ofereceu um lugar debaixo do seu guarda-chuva. Comentou que aquelas capas de um real não serviam para nada e que era melhor gastar um pouco mais se não gostasse de tomar banho de chuva. Os dois riram. Caminhavam devagar, se ajeitando dentro do pequeno círculo, prestando atenção na sincronia dos passos. Ela achou ótimo ter deixado os saltos no consultório. Ficaram quietos por um tempo, ouvindo o barulho da chuva – ploc-ploc-ploc-ploc-ploc-ploc!!! – e entendendo as mãos de um na cintura do outro. Na esquina, Santiago agradeceu e disse que ia comer por ali mesmo. “Eu também” – ela disse, se achando uma idiota por usar de novo aquelas duas palavras – “adoro um prato feito”. Os dois riram. Juliana pensou que Marli ia achar graça daquela história. Santiago só pensava na comida. Foram juntos ao bar e os corações batiam – tum-tum-tum-tum-tum-tum!!! – no ritmo da chuva. “Até que eu gosto de Sampa assim, toda cinza”, ele disse. “Eu também”.