voltar

Cap. 53. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

O céu pairava escuro por cima de nossas cabeças. Meia hora depois de um trânsito pela Ruta 8, Julinho e eu entramos ansiosos em J. P. Varela. Penetramos na atmosfera de uma notável falta de claridade. Se conforme a minha miopia declarada, se de acordo com a realidade propriamente dita. Bem escuro este retrato pós 21 horas (horário de Brasília).

O “1º olhar em movimento” de J. P. Varela

Com os corpos ainda encharcados pelas águas da rasa Playa del Olimar e com uma fome do cão (como se diz em cantos e recantos brasileiros), pisamos no universo simbólico de J. P. Varela.  El fuca blanco, nossa querida máquina do tempo, entrou triunfante nesta cidade. Julinho e eu de modo bem semelhante; eu quero apostar ainda que o nosso veículo então respirava com fôlego tipo um pretenso corcel mítico, incansável e fiel aos seus designíos de pronta personificação humana.  Se chegamos ilesos neste ponto da história contada? Percebemos os nossos narizes, olhos e bocas bem abertos em J. P. Varela, por extenso, José Pedro Varela, uma pequena cidade do norte do Departamento de Lavalleja, região sudeste da Republica Oriental del Uruguai. J. P. Varela, tá ligado Julinho? Súbita pergunta retórica dirigida ao parceiro de Aventura no Cone Sul. Eu devo confessar muito a propósito: nem o parceiro de viagem, nem eu então sabíamos do significado ou da tradução de J. P. Va…? Varela, segundo consta, foi um sociólogo, educador, político e, vejam só, jornalista uruguaio. Varela foi um ente querido. Oh, sim! Faz tempo? Varela foi em vida – pode ser mesmo uma verdade –  um defensor da educação secular no Uruguai do século 19. A propósito, “falamos diretamente de Jota Pê Varela”, eu fui logo improvisando uma locução de rádio dentro de El fuca em movimento. “Uma cidade pacata, Julito ao lado é aqui a nossa testemunha viajante. Se não tiver mais de três mil habitantes, é muito.” (Na real, o número oficial aponta entre 5 mil e 6 mil habitantes.) Enquanto Julinho manobrava a nossa máquina do tempo em busca de um epicentro urbano, eu prosseguia com a caricatura de repórter de rádio mal remunerado: “E quando você, caro ouvinte desta frequência sonora, chegar a Varela, não esqueça de reforçar o olhar de aparição com uma vela emprestada da avó, um farolete ou uma lanterna qualquer. Aqui é escuro pacas.”

(continua)

voltar

Cap. 48. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
O surgimento de um visual de causar impressão

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A passagem pela cidade que evoca a Idade de Cristo não duraria mais do que 30 minutos se não fossemos surpreendidos com um retrato de causar impressão. Na saída de Treinta y Tres, Julinho e eu seríamos tomados pela contemplação de quem encontra um oásis num deserto. Se me recordo bem, este relato de viagem ocorreu nos primeiros quilômetros da Ruta 8, rodovia que nos levaria ao próximo destino programado, a cidade vizinha de J. P. Varela; havíamos acabado de colocar a nossa máquina do tempo numa estrada que, em linha pretensamente reta, culmina na por enquanto longínqua capital Montevideo.  El fuca blanco? Bem, o nosso notável zunia bonito a esta altura do percurso, potente. Na sua condução, el condutor podia ser notado com a cara de quem começava a sentir cansaço por causa da temperatura do ar.  Rapaz? Vamos fritar! Esbocei uma correspondência com a manifestação do parceiro. Aliás, a partir deste momento, passei a ter a preocupação de sempre manter el condutor despertado, sem que minhas puxadas de assunto  lhe tirarem a atenção de trânsito. Meu parceiro? Julinho logo se animou com o surgimento de uma reserva ambiental, cravada numa das bandas da Ruta 8. Um excesso de aroma verde muito bem-vindo tomou de imediato o interior do veículo. Por quatro ou cinco minutos, fomos agraciados com ar fresco e dada umidade, numa extensão de sombra de árvores altas de procedência para nós desconhecida. Até que um estado de gozo maior fez-se existência num clarão de mundo surgido por entre dezenas de troncos, que se tornaram escassos com o “andar de nossa figurada carruagem”.  Avistamos uma bela imagem, quando nos notamos trafegando por cima de uma ponte de concreto com estruturas metálicas e passeios de madeira devidamente instalados nas laterais. À esquerda. Deu pra perceber o que numa primeira vista pensamos ser uma fotografia de desenho rebuscado. Muita gente no meio de tal paisagem. De fato, o quadro se mexia vibrante aos nossos olhos. Na hora, Julinho olhou pra mim; na hora, olhei para Julinho. E ae Julito? E ae, Renato? A resposta surgiu telepática. “Booora tomar um banho naquele riacho?!”

(continua)

voltar

Cap. 46. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Uma parada em Treinta y Três

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Marcava 20 horas quando estacionamos El fuca blanco numa rua praticamente desabitada nas imediações de um epicentro urbano. Incrivelmente, ainda fazia sol. Fraco, mas fazia. Enfim, em Treinta y Tres. Além de um alívio suspirado, deixei escapar as primeiras impressões em tal intervalo de trânsito. Uma cidade maior do que Vergara, pudemos confirmar num primeiro olhar de testemunho. Cidade maior e mais bonita – acho que ouvi Julinho se manifestar ao lado. Aliás, Treinta y Tres parecia uma cidade com contornos mais modernos do que os daquela correspondente à nossa última parada. Sem querer carregar nas cores e reflexos, havíamos acabado de suscitar uma bela imagem com grandes árvores de troncos robustos enraizados desde possível longa data num espaço em que prédios públicos e privados (bancos, por exemplo), casarões antigos e residências menores seguem um padrão de época. A propósito, no chamado espaço público urbano livre de edificações, onde tradicionalmente é propiciada convivência e/ou recreação para seus usuários, pode-se notar, visível e majestoso, um símbolo recorrente ou que vai se repetir em quase todas as praças centrais das cidades uruguaias pelas quais vamos percorrer ou visitar a bordo de nosso veículo de mecânica duvidosa: um retrato do herói nacional General Artigas; por extenso, José Gervasio Artigas. Nascido em Montevidéu, em 19 de junho de 1764, Artigas morreria na – pra nós – obscura Ibiray, em 23 de setembro de 1850. Político e militar, Artigas é bastante popular no Uruguai. É, na verdade, mais General Artigas do que José Gervasio Artigas. Uma representação de grande herói, senão o maior entre os uruguaios, eu posso apostar. Segundo consta, Artigas lutou bravamente pela independência de seu país. Oficial ou não, a história uruguaia e o imaginário nativo o pintam em cores bastante vivas. General Artigas deve ter sido mesmo “o cara” em vida. Ao menos, o exército luso-português, militares espanhóis e ingleses não teriam sido páreos diante da sua figura não documentada de sangue frio general. Salve, General Artigas! – me lembro de ter reverenciado com emoção inverossímil a sua imagem de digníssimo cravada no pico de um monumento de concreto de cinco, seis, quiçá, dez metros de altura.

(continua)

voltar

Cap. 44. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Um momento de passagem pela Ruta 18

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A ciudad de Trinta y Tres estava logo à nossa frente… só que não. De Vergara até aquele município, projetamos exatos 55 quilômetros. Martelei a informação na cabeça por alguns minutos, até me perder introspectivo numa paisagem de fim de tarde de domingo, um olhar que se despedia num lento por do sol, quase na diagonal de um infinito em linha reta de um asfalto liso, escuro e bem cuidado, ou o que nos restava de Ruta 18 iniciada em Río Branco. Observei bem no toco de mapa preso ao porta-luvas de nossa máquina do tempo, tal rodovia terminaria em nossa próxima parada programada. De lá, outra ruta, outra direção, outra perspectiva. Perspectiva que não estava ao nosso alcance de momento. De fato, o instante era outro. Mesmo que com ares de recorrência. Raul Seixas, a inspiração terapêutica de outrora, voltou mais maluco beleza do que nunca em nosso repertório de fãs confessos do imortal baiano. “Eeeeeeeeu… Soltei a cobra / E ela foi direto / Foi pro meio das aranha / Prá mostrar como é / Que é certo”. Meu parceiro de viagem parecia mesmo encarnar uma espécie de Raulzito de chuveiro. Julinho, cada vez mais cômico do que trágico nesta história contada? A voz de intérprete de el condutor, voz de mico de programa de televisão comercial, não ajudava muito. Uma pose. Mas como o nosso palco e auditório eram fabulados, a desinibição nele e em mim se fez quase total. Fazendo a segunda voz, se me lembro bem, passei a me sentir um notório cover de um Chitãozinho roqueiro, junto a um bizarro Xororó que chorava catando ou que cantava chorando preso ao banco ao lado. Pensando bem, pode-se se tratar de mais um caso crônico ou de internamento.  Fuga e diversão numa interpretação anunciada. E foi. Ao menos para dois ditos tripulantes. Numa fração de segundos… “Cobra com aranha / É que dá pé / Aranha com aranha / Sempre deu jacaré…”. “É o rock das aranha / É o rock das aranha…”. Um som que correu solto, pretenso e poeticamente sincronizado com o ronco do recém-reformado motor de El fuca blanco.

(continua)

voltar

Cap. 41. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário
Numa brisa que parecia flutuar na atmosfera

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

A impressão era de que já estávamos na estrada há dias, semanas, meses. Mas era apenas o primeiro dia de viagem, a primeira cena de hora do recreio para sentir ar fresco, tomar um refri e comer um lanche. Foi o que fizemos quando passamos por uma sombra de notáveis eucaliptos fincados num terreno próximo a um conjunto de casas populares numa das bandas periféricas de Vergara, onde estacionamos a nossa máquina do tempo. Que viagem, hein!, deixei escapar um suspiro ainda dentro de El fuca blanco. Ao lado, o parceiro já se movimentava para curtir uma brisa que parecia flutuar no ambiente. Em segundos, Julinho estava fora do carro, com o pescoço envergado e consumindo um pouco de água mineral. Glogue… Glogue… Geladinha…? O parceiro fez que sim para minha pergunta retórica, balançando a cabeça positivamente num movimento consagrado de gargalo. Se fazia muito calor naquele final de tarde de domingo que parecia não acabar nunca? Ao tirar a tampa da caixa de isopor, peguei uma segunda garrafa… De fato, pude sentir a garrafa bem geladinha entre as mãos. O gelo comprado numa vendinha de beira de estrada em Río Branco estava sendo bastante útil. Além de saciar a sede de piloto e de copiloto, a água – bem geladinha – serviu para que pudéssemos nos refrescar numa dada atmosfera de micro-ondas ambulante. Atmosfera de micro-ondas ambulante? Podes crer, quente pacas, dentro do veículo… E para não fazer papel de ingrato com o dito cujo, nosso reconhecido resistente protagonista, oferecemos a ele um pouco da H²O. Uma, duas, três pingadinhas santificadas por sobre a lataria avariada de El fuca, que diante de nossos olhos parasitas sorriu como uma criança amamentada. Aliás, o gelo havia funcionado além da conta. Olhando bem no interior da caixa de isopor, vendo bem mesmo no interior da caixa de isopor, eu pude perceber algo não esperado, quase uma… Parceiro, já viu o que aconteceu dentro da caixa de isopor? Julinho, que parecia não mais tirar a garrafa de água da boca tal a sede que lhe atravessava o organismo, me olhou como se ao mesmo tempo pudesse me dizer ou dizer em alto e bom som: o que que aconteceu, Renato?

 (continua)

voltar

Cap. 38. Un viaje al Uruguay – a bordo de um fusca

atualizado 9 agosto 2015 Deixar comentário

por Re Nato, colaboração de Aléxis Góis

Incluído num final de tarde que parecia não acabar nunca. A essa altura da história contada ainda faz sol em Vergara, como se o sol residisse no alto do município ou como se o chamado astro rei fervesse borbulhante a poucos metros do baixo teto de nossa máquina do tempo. Quero acreditar, nunca antes na história de crônicas de viagens percorridas a bordo de um fusca em território uruguaio o sol bateu tão forte e insistente ao longo de um único dia, o de 1º de janeiro de 2014. El fuca blanco e sua mecânica

O centro de Vergara

duvidosa merecem reconhecimento. O veículo resistia heroicamente a um expressivo calor de domingo, tal um protagonista no cumprimento de uma missão, a quem o brilho particular oferece vida e extensão a dois potenciais parasitas. De fato, Julinho e eu estávamos numa boa; no comando ou mesmo de carona, vivendo ou apreciando com os próprios olhos um ambiente fora do alcance de nossos repertórios. Tudo era novidade pra gente, e o município onde exibíamos os nossos respectivos narizes dava vazão a múltiplos pontos de vista. Vergara e sua a aparente pobreza econômica. Vergara e seus motociclistas que desfilam sem capacetes e equipamentos de segurança. Vergara: da ausência de policiais militares. Vergara: a de um aparente sossego. Vergara: de canais fluviais, demarcadores de terrenos residenciais; de esgotos a céu aberto; da falta do que fazer em uma data de feriado. (Vergara, que nesta passagem sequer fazia alusão à alcunha de “capital do arroz”.) Vergara: de um entorno agrário. Vergara: de um centro diminuto, mas histórico. Vergara: de onde passamos a acreditar que pretensamente fazíamos memória para contar aos nossos herdeiros consanguíneos. Vergara: de uma arquitetura distinta e urbanismo exótico. Vergara e um mundinho poético que sua realidade social exala: de um retrato de fundo, possivelmente herdado da cultura açoriana, de assentamentos estabelecidos pelos portugueses num longínquo século 18; de uma extensão territorial que compreende o sul do atual estado brasileiro do Rio Grande do Sul e a antiga Colônia do Sacramento, hoje Uruguai. Vergara; de um posto de gasolina ou novamente a do presente narrado, onde ou de onde avistamos um sujeito dentro de uma camionete para uma tentativa de um primeiro contato.

(continua)

voltar

A poucos quilômetros de Vergara – cap 35

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
Num trecho destacado da Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

O veículo parou por completo. Ou foi Julinho que tirou o pé do acelerador? Não deu pra processar direito a junção dos fatos que antecederam aquele tlac… tlac… tlac… De concreto, aqui deve ficar claro para quem nos acompanha: o fim momentâneo de uma reprodução caricata e musical de “Mamãe eu não queria…”. Com El fuca blanco estacionado numa das margens da Ruta 18, a somzeira libertária de Raul Seixas fora cessada. Descemos então para verificar o que tinha provocado o “estranho barulho” em nossa máquina do tempo. Digo, apenas eu desci do veículo. Me joguei imediatamente no chão de um acostamento estreito na tentativa de identificar o por quê ou uma dada explicação para um ruído vindo de algum ponto específico de El fuca. Tlac… tlac…? De onde surgiu este barulho, Julinho? Na posição de mecânico deitado sem maca de rodinhas, me pus de costas pro chão com os olhos bem abertos. O que aconteceu…? evoquei mais uma fala de correspondência. Primeiro, inspecionei a lataria na parte dianteira do carro… Nada! – disse em voz alta como se correspondesse a uma prestação de contas a el condutor. Tente ver na parte de trás, o parceiro disse prontamente de sua posição de piloto. Na parte traseira… nada também! Tive a impressão de que o barulho tinha surgido do meu lado, no do copiloto. E agora, José? evoquei o desabafo de lugar comum da poesia brasileira. Dentro do carro, com a porta entreaberta, passei a tecer hipóteses que ia além da citação indireta de Carlos Drummond de Andrade. A poucos quilômetros de Vergara, algo como vinte quilômetros e poucos de distância de onde estávamos… Deve ter sido…? Neste ponto da narrativa, Julinho aciona o motor do veículo. Tromtromtomtomdaum… A meu pedido, El fuca blanco ficou ligado e, ao mesmo tempo, paralisado. Refiz pacientemente o percurso da inspeção. Se demorei pra contornar o veículo…? Foram cerca de quinze minutos de muita atenção para eu gritar lá de trás… Achei…! O problema? Um pedacinho de metal que se desprendera do para-choque traseiro em estado de decomposição.

(continua)

voltar

O fim de uma monotonia? – cap 33

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
O retrovisor de uma chamada “Máquina do tempo”

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Aquela tentação de quem busca uma adrenalina, sacam? Quem já pulou o muro da escola na infância ou colou numa prova do ensino médio ou bebeu até cair na época da universidade sabe bem do que falo. A propósito, quero falar do espírito de aventura de Julio César Bregagnoli Martins, el condutor; trato ainda da quarta marcha manualmente engatada e de um pé firme no acelerador. Ansioso para que cheguemos logo em Vergara, Julinho? El condutor apenas riu, riu parecendo não ter me ouvido direito. Parecia que o parceiro de saga me olhava como se mirasse pro nada. Admitamos, mesmo que em tom de provocação não intencionada: el condutor olhou pro nada refletido no retrovisor do veículo e… riu. Deve ter rido do pedaço de mapa que restava entre minhas mãos ou da minha cara suada de tédio com o dito sucesso mecânico de nossa máquina do tempo; El fuca blanco, até este momento da história contada, emitia sinais de estrondosa perfeição mecânica. Parecia empolgado mesmo, el condutor? Pra variar, notamos Julinho empolgado. O projeto de escudeiro do século 21 parecia rir de qualquer coisa. Juro, caros leitores caronistas de plantão, até tentei decifrar aquele riso permanente de curinga do Batman no rosto enigmático do parceiro de viagem. Mecânica de El fuca, asfalto, sinalização e… riso quase perfeitos? Aliás, travar conversa dentro de um antigo fusca em movimento é pedir pra falar alto sempre. Quêêê…? O parceiro, de novo, fez que não me ouviu. O ruído do carro era demais. Quê cê falou…? Julinho tentou ser gentil. Eu, bem, eu desisti de me fazer entendido. Em parte, o barulho não deixou… Era a adrenalina da quarta marcha…? Como a precisar um ponto de vista, eu quase gritei com modos de amigo extravagante: “que asfalto bom da porra, hem!”. Asfalto bom da porra, reproduziu Julinho, num instante em que seríamos surpreendidos com um ruído estranho vindo de algum ponto específico da lataria avariada de nosso veículo.  Se a cara de Julinho estalou de surpresa nesta passagem, a minha ficou (ou deve ter ficado) roxa de interrogação: o fim de uma monotonia?

 (continua)

voltar

Ruta 26, passagem para Ruta 18 – cap 30

atualizado 14 maio 2018 Deixar comentário
Um retrato de passagem da Ruta 26 à Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Após breve passagem pela ciudad de Río Branco, trafegávamos pela Ruta 26, em direção à Ruta 18; Julinho seguia concentrado com o vibrante volante de El fuca blanco. Este narrador, numa confortável posição de copiloto, postado numa poltrona paralela a do parceiro de viagem, passeava com os olhos por cima do ombro de el condutor. Um cenário de mundo se abriu em grande escala no nosso visual. Ao nosso alcance, uma paisagem sem precedentes de vivência humana. Uma região de solo, em geral, fértil ou bastante utilizado para a agropecuária e atividades agrícolas começa a surgir pincelada de um conjunto de silos que suscitaram um retrato bucólico com uma moldura cinematográfica. Tratemos de um horizonte facilmente admirável, marcado por temperaturas amenas e chuvas com poucas variações ao longo do ano. Variações que iremos vivenciar com certo suspense, drama ou apreensão nos próximos quilômetros narrados. Julinho e eu contemplávamos uma parcela do que convencionalmente é chamado de Pampa, Pampas, Campos do Sul, Campos Sulinos e Campanha Gaúcha, termos referenciais ou descritivos de uma região pastoril de planícies com relevos (coxilhas), geografia típica do sul da América do Sul. Um bioma que, do início de nosso percurso em solo uruguaio, se estende à metade meridional do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, o Uruguai e as províncias argentinas de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Córdoba, Entre Ríos e Corrientes. Em outras palavras, nos colocamos diante de um bioma caracterizado por uma vegetação composta por gramíneas, plantas rasteiras e algumas árvores e arbustos encontrados próximos a cursos d’água, que não são abundantes. Um bioma tristemente ameaçado pela força predadora do homem e por sua inconsequente arrogância genérica, diríamos, em tom pretensamente ensaístico. Uma imagem evocada por dois autointitulados corações andarilhos no interior de uma máquina do tempo e de sua propalada mecânica duvidosa a aludir ou a testemunhar a qualquer momento e sem necessidade de precisão informativa espécies de plantas vasculares, com destaque para as gramíneas (capim-mimoso); centenas de espécies de aves (pica-paus, caturritas e anus-pretos etc.); uma centena de mamíferos terrestres (guaraxains, veados e tatus etc.) vinculados a um clima subtropical, traduzido de um olhar estrangeiro e confessadamente deslumbrante.

 (continua)

voltar

Imagem aumentada da santa realidade – cap 29

atualizado 13 maio 2018 Deixar comentário
El condutor, em momento de exibição

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

A uma aproximada distância de mil metros de uma aduana e um medo não escondido de ver El fuca blanco e sua mecânica duvidosa barrados por uma blitz policial. Vão nos parar prematuramente, Dom Julio? Vão nos impedir de relatar a existência de um mundo mágico e pretensamente desconhecido por parte de nosso seleto público? Uma fatalidade de percurso, só que não… Não desta vez. O retrato frisado de espectros de fiscais presos ao meu horizonte não passou de uma imagem aumentada da santa realidade. Ao menos desta vez, não. Uhul, então ouvi um chiado cômico e inesperado de uma criança desmamada; Julinho não escondeu a empolgação de falso adulto depois da passagem pela aduana. Aliás, aparentemente, não vimos fiscalização alguma na aduana. O que eu havia considerado como espectro de fiscalização rodoviária, na real, correspondia a um grupo de pessoas que caprichosamente cruzaram o nosso caminho; pudemos vê-los de perto, tomando chimarrão e ar fresco em baixo de uma sombra de árvore ao lado da aduana, junto a duas motocicletas estacionadas. Lisos, leves e sorridentes, cruzamos pelo dito entreposto. Até pareceu que estávamos entrando naquele exato instante em solo uruguaio, marcados por um suspense de apelo dramático na despedida do perímetro urbano de Río Branco; como já ocorrera antes, a tensão da vez pareceu ser mais minha do que um sentimento compartilhado com el condutor, que ao meu lado não escondia o prazer por poder pisar fundo no acelerador de El fuca. “Pé na jaaaaca, Julinho”, caprichei na dicção. Com um protótipo de óculos Ray-Ban, importado da fortíssima e tradicional indústria paraguaia, o condutor da nossa máquina do tempo não perdeu a oportunidade de exibição: ajeitou a armação no rosto como se tivesse diante de um grande auditório, engoliu um pigarro mal ensaiado e engrenou uma paráfrase com uma peça cinematográfica de sucesso comercial. “De La poderosa motocicleta… para El poderoso El fuca blanco”. Primeira marcha, um movimento azeitado; segunda marcha, idem; terceira marcha… Neste ponto da viagem, a sensação era de que efetivamente havíamos começado a saga no país vizinho, teleguiados por um horizonte inédito que surgia à nossa frente.

(continua)