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Dona Petronília ensina

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por Luiz Augusto Rocha

Encontrei dona Petronília no posto de gasolina onde eu bebia umas latas de cerveja. Exatamente o que estava procurando, buscando no lixo, no chão, entre as mesas e as cadeiras: latas vazias de cerveja. Ela conseguiu encher duas sacolas em alguns minutos e eu a interrompi para conversarmos um pouco.

Aos 76 anos, viúva, mãe de cinco filhos (sendo um de criação, segundo ela enfatizou), mineira de pai e mãe, vivendo há 40 anos em Rondônia e sem o marido há 14 anos.

Dona Petronília recebe um salário mínimo de pensão do falecido, mas, como tem uma doença de pele e precisa pagar o aluguel, as contas não fecham. “Eu junto latinhas, as pessoas juntam para mim também. Esses dias eu consegui 70 quilos rapidinho, 40 dias. O caminhão foi lá em casa buscar, porque eles só buscam mais de 50 quilos”.

Perguntei sobre sua rotina, o que ela faz normalmente, se passava os dias buscando as latas de alumínio. Dona Petronília disse que pega latinhas mais de final de semana, que as pessoas que juntam entregam no domingo. “Já me falaram para não catar durante o dia, que é melhor à noite. Eu não vou sair de noite, correr perigo, eu sou velha e não tenho vergonha de trabalhar assim”.

Durante a semana, ela vai ao culto na igreja na terça, ajuda no templo duas vezes por semana, às quartas frequenta o grupo de orações e vai à escola dominical pela manhã e à noite ao culto novamente. Às vezes, ela visita três das filhas que moram na cidade.

“Elas não vêm na minha casa, não. Ninguém deles vem na minha casa, meu filho saiu de casa com 18 anos e nunca mais quis saber nem de mim nem do pai dele. Minhas filhas têm a vida delas, são casadas, trabalham. É assim mesmo, fazer o que? Eu que vou de vez em quando na casa delas”.

“Não, eu me enganei, tem um neto que me visita, o Frank, ele é pastor lá em Jaru e toda vez que pode ele vem aqui na minha casa, ao menos um pouquinho, mas, vem! Ele é um menino muito bom, ele ajuda muita gente, sabe, ele é pastor”.

Dona Petronília disse que os outros netos também não vão na casa dela. Se ela quiser vê-los, tem que ir “lá”, mas, quando precisam fazer alguma coisa e não têm com quem deixar as crianças, ela que cuida dos bisnetos. “É uma distração, criança é uma bênção. Sei que eles têm a vida deles muito corrida, não dá tempo de ir me ver, então, eu acho bom quando eu posso cuidar dos meninos”.

Ainda impressionado com o trabalho de dona Petronília, perguntei se pelo menos as filhas ajudavam financeiramente e ela respondeu que não. “Minha ajuda é das latinhas, melhorou agora que eu comprei um amassador, paguei 65 reais e mandei pregar na parede lá em casa, facilita bastante, sabe, tenho medo de me cortar, tenho uma doença de pele e gasto muito com remédio, é muito exame também”.

Dona Petronília foi-se indo embora, mas, antes me disse que era muito feliz, que ainda tinha força pra trabalhar, que trabalhou na roça a vida inteira, mas, que não tinha “papel” pra comprovar, “por isso que eu só recebo a pensão do meu marido e o dinheiro das latinhas”.

Tinha que ir logo porque estava se atrasando para o culto, “onde a gente aprende muita coisa, muita coisa boa”. Dona Petronília saiu quando já começava a chover e ao longe vi abrindo uma lixeira e tirando mais uma lata. Dona Petronília me fez aprender muita coisa, muita coisa boa.

Ah, dona Petronília recebe R$2,20 pelo Kg de latinha.