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Vale do Pati, a trilha da Chapada Diamantina (parte 3)

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Casa de seu Wilson e dona Maria//Foto d’As Sementeiras

por Luciana Teruel

O trajeto da igrejinha até a casa de seu Wilson foi o mais difícil e de maior aventura de toda a trilha. Já eram 16 horas quando saímos e precisávamos chegar antes de escurecer, por isso, a guia escolheu um caminho mais curto… literalmente pelas cachoeiras. Muita descida, pedras úmidas e soltas, árvores para se segurar e pular, pequenas escaladas. Seguimos pelas águas do Rio Funis, passando por algumas cachoeiras. Algumas vezes adentramos na mata alta e era impossível prestar atenção naquela diversidade verde à nossa frente e, ao mesmo tempo, nas pedras no chão. Nos perdíamos em sensações e informações visuais.

Se antes vimos a Chapada por cima, agora estávamos lá embaixo, com os imensos Gerais do Vieira nos abraçando. Nos distanciamos das cachoeiras e seguimos uma estrada aberta até a casa de seu Wilson. Quando chegamos ali, a noite já estava caindo. E como é inesquecível o céu estrelado do Pati! A casa de seu Wilson é ainda mais simples e menor que a igrejinha. Conta com apenas a casa da família de seu Wilson e uma outra anexa, com quartos compartilhados, 2 banheiros e uma cozinha bem simples. A diária só pra dormir custa R$ 35,00 por pessoa, mas o que a maioria faz é pagar pensão completa com alojamento, jantar e café da manhã que sai R$ 75,00 por pessoa. Além disso, a comida de dona Maria, esposa de seu Wilson, é a mais famosa de todo Vale do Pati.

3°dia: Casa de seu Wilson e dona Maria até a Prefeitura

Quem faz trilha sabe que sinônimo de descer muito é subir muito e foi assim que começamos nosso terceiro dia, subindo absurdamente muito. O objetivo era chegar em outra grande atração da Chapada, a gruta do Morro do Castelo. Quando chegamos ali não acreditamos no que estávamos vendo. A entrada dela, por si só, nos levou imediatamente a uma cena de filme: era enorme e não sabíamos se olhávamos curiosos para dentro, onde estava tudo escuro, ou para o mar verde com suas elevações rochosas do lado de fora. Depois de muito contemplar, como Júlio Verne, adentramos ao desconhecido mal enxergando um ao outro e com uma pequena lanterna guiando a todos. Foram minutos do tempo daqui, mas uma eternidade na ampulheta da imaginação até alcançarmos novamente a luz. E foi realmente como transpassar um portal e encontrar um vale escondido da humanidade, ou melhor dizendo, protegido da humanidade. As formas, cores, texturas, cheiro, a vida que pulsava ali mexeu demais com cada um de nós. Certamente estávamos tomados de perplexidade e sensações distintas, cada um transportado ao mundo de sua quimera. Mas ainda tinha um… depois. E foi quando presenciamos uma natureza descomunal. Estávamos no coração da Chapada Diamantina, com o visual mais incrível do Pati. Éramos grãos numa imensa sementeira e ficamos ali sentindo o vento, escutando nossa voz interior e contemplando com o coração.

Mas, apesar da vontade de viver ali, seguimos silenciosamente a trilha, tranquila e encantadora, até a Prefeitura, sentindo algo germinar dentro de nós. Pra fechar nosso penúltimo dia imersos no Pati, depois de deixar nossas coisas na última morada, fomos nos banhar no Poço da Árvore, bela piscina natural e cachoeira no meio da mata. Ao regressar, ficamos fascinados com o céu mais lindo que já vi na vida sobre as falésias do morro dos Dedos . Ele e o Morro do Castelo se erguiam sobre as nossas cabeças.

Dos três refúgios, a Prefeitura é o que está um pouco mais completo. Tem quartos menores e duplos, banheiros com água quente, vendinha e uma cozinha bem equipada. A diária custa R$ 25,00 e o jantar R$ 35,00, por pessoa. Antes de cairmos na cama, sentamos na frente da casa para tomar uma cachaça com canela e ouvir deliciosas histórias sobre os moradores do Vale.

4° dia: Prefeitura até o Vale do Capão

No último dia daquele sonho, levantamos as 5 horas da manhã para conseguir chegar ao Vale do Capão antes de anoitecer, passando pelo Vale do Calixto. Olhando pra trás, me lembrei da canção: “dos cegos do Castelo me despeço e vou a pé até encontrar um caminho, o lugar pro que eu sou”. Então, seguimos, e não é que lavamos a alma?

(continua)