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Previsões astrológicas

atualizado 6 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Quem é que tem coragem de admitir em público que acompanha previsões astrológicas? Eu, por exemplo, (só) dou crédito para o Quiroga. Ao menos antes de me tornar um jornalista aposentado, eu passava quase todos os dias na Câmara de Vereadores da Citi (a minha obsessão de cidade natal), para consultar a edição mais atual de jornaleco de Família do cavalinho. Ops! Eu quis dizer… que eu passava? Isso, eu passava, eu lia eu rezava.

Dentro da chamada “casa do povo” citadina, havia (e creio que ainda há) uma cabine de vidro que oferece existência à recepção. Ainda posso ver uma cena: de uma fresta surge um sorriso sempre bem apessoado pra afagar os visitantes; do outro lado da repartição transparente, duas ou três servidoras de narizes amigáveis. Entre elas, se posicionava a liderança e a experiência de Dona Ivoninha – curiosamente, é a mesma pessoa que foi minha professora na quarta série. Transporto-me então para aquele retrato remoto:

– Dona Ivoninha, posso ler o jornal?

– Claro, fio, pode ler.

Dona Ivoninha sempre usava o mesmo recurso verbal. Sim, eu também fazia a vez do meu jogo de palavras. Quando não falava, minha ex-professora de Estudos Sociais sugeria um aceno positivo com a cabeça. Claro, fio. A sua interlocução sempre ressurgia em meu imaginário como uma mensagem pessoal e amiga:

– Claro, fio, pode ler.

Valia-me de uma rotina. De segunda à sexta-feira, variavelmente entre as 12 e 13 horas, eu propagava a minha condição citadina de leitor de jornal – muito antes de eu pensar em ser um velho ranzinza – nas dependências da “casa do povo” local. Quem não me conhece (eu imagino), deve pensar que eu era (ou que ainda sou) um “desocupado social” ou quem sabe o quê ou mas qual, fio? Se bem que… na casa do povoda Citi, os desocupados sociais também são eternamente bem-vindos!

Assegurava-me: o povo citadino, sempre muito bem servido este povo citadino. Na legislatura de 19 lá vai bolinha, inclusive; quero crer ainda que a Câmara da Citi foi e é, por excelência, a “casa do povo”, e estará sempre aberta para a comunidade em geral! Este jeito de falar, aliás, é mais que um “lugar comum” no universo dos discursos de políticos tradicionais, que eu reconhecia nas páginas de um jornal.

Aliás, agora mesmo me vejo em direção a um jornaleco, o diário conservador que não fica em cima do muro. Minhas mãos então pinicam de ansiedade para tocar o caderno de Política, o de Esportes e, é claro, o de Cultura.

Em segundos estou com o jornal na altura do nariz, compenetrado nas últimas fofocas de Brasília; numa passagem rápida, cuido também das manchetes sobre futebol; por fim, vou pro pouco sisudo Caderno B. Disfarço que estou lendo uma resenha crítica.

Só recobro a normalidade da mente, quando termino de ler a pré-visão de meu signo.