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Dolores

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por Nina Alencar Zur

Meu nome é Dolores. Pelo menos foi Dolores o nome que me escolheu. Plural de dor em espanhol. Nasci mirrada, quase sem respirar, há vinte e oito anos recém-completos. Acho que foi uma forma estúpida da vida me dizer, desde o princípio, que eu não acharia jeito fácil de me entender com as coisas. Aliás, só encontro recados nos eventos estúpidos, como se eles é que fossem realmente importantes na minha história. Fiz-me aos improvisos. Tive uma infância difícil, cresci sem método. O meu corpo não obedecia aos comandos do mundo, era um mato a brotar em terreno baldio. Sem ninguém pra tomar conta. É isso, meu corpo foi crescendo como sem dono. Não era nem um tantinho meu. Lembro bem do nojo que sentia dos pelos grossos que começavam a aparecer em minhas pernas, naquela fase em que a gente se dá conta de que toda infância acaba. Tinha medo de observar as mudanças mais sutis, e pedia a Deus para que desse uma trégua naquele tormento de virar gente grande. De nada adiantava. Meu corpo ficava cada vez mais distante do que eu era.

Logo que entrei na escola, um pouco antes da alfabetização, fiz amizade com as meninas. Elas gostavam daquele sujeito atrapalhado, que não sabia muito bem o que dizer, nem a hora de dizer. Quantas vezes riram de mim… Eu entendia melhor as suas brincadeiras, sempre gostei de pular corda e jogar amarelinha. Tinha uma imaginação de artista, acho que pra compensar a ausência do corpo. Inventava jogos que faziam o maior sucesso. Os meninos, normalmente, não me davam muita conversa. Achavam-me uma coisa fora do normal. Era como se eu estivesse a desafiar o entendimento daquelas crianças. Imagine, um menino que não gosta de jogar futebol! E só escolhe as fantasias de princesa na sexta-feira. Os anos assim se passaram, comigo sempre a forçar portas para encontrar um espaço. Aprendi a ignorar olhares tortos e ofensas gratuitas. O mais difícil foi aguentar a prisão de não estar no corpo certo. Sentia-me menos gente, menos digna, a conviver com um inimigo grudado na alma, me aporrinhando noite e dia.

Quando me apaixonei pela primeira vez, aos quinze anos, as coisas ficaram ainda mais complicadas. Apaixonar-se é sempre uma forma de sofrer. Tudo se sente aumentado, as fragilidades todas tomam gigantescas proporções. Achei que não ia resistir ao episódio bruto do amor, que chegou a mim através de um vizinho. Chamava-se Estevão. Por um ano inteiro, andei magra, fugindo das pessoas, sempre de olhos arregalados para não ser surpreendida. Senti um medo enorme. Tinha vergonha daquele sentir, como se a mim, que negaram o corpo, também proibissem o desejo. Quando cruzava com Estevão, virava a cara e apertava o passo. O coração acelerava, parecia estar a ponto de explodir. Já longe, chorava. E como chorava. Chorei todos os dias daquele ano. Não poderia explicar a uma pessoa tão inocente, acostumada com os desígnios naturais da vida, o que era aquela confusão que eu causava ao mundo. Sentia-me culpada por estar insatisfeita. Optei por deixá-lo em paz.

A adolescência seguiu estranha. Odiava o meu próprio corpo, sentia raiva dos músculos e cheiros que tinha. Quando estava quente, eu fedia muito. Explicaram-me que eram os hormônios. Comecei a raspar todos os pelos, a fazer a sobrancelha, a vestir o que desse na telha. Nem assim a aflição diminuiu. Ainda tinha pau, não conseguia me masturbar direito, achava o mundo injusto para caralho. Revoltei-me com aquela situação. Não conseguia conversar com ninguém sobre o que me acontecia. Era uma vontade de me virar do avesso, trocar tudo. Eu não era aquele horror que via no espelho. Usei todo tipo de droga. Arrumei briga na rua, só trepei sem camisinha. Quis mesmo me foder. Não adiantou, saí ilesa de tudo. Era forte o meu corpo de macho. No dia em que fiz dezoito anos, ganhei um vestido azul marinho de presente da minha mãe, com um decote nas costas. Foi a coisa mais linda do mundo. Era como se ela estivesse, com aquele presente, dizendo que me entendia. Acalmei. Há gestos que dão de nos sossegar.

Aos vinte anos, já mais largada de angústias e um pouco melhor resolvida, decidi me operar. Finalmente um ato de coragem. A gente precisa dela na travessia. Gastei o que podia e o que não podia, peguei dinheiro emprestado, caí em dívidas. Mas cumpri com a minha decisão e isso não tem preço. Pela primeira vez na vida, me senti honrada. Era capaz de gritar pelas ruas que, enfim, haveria de conseguir um corpo. Entrei em contato com uma alegria que nunca antes sentira. Era como se eu estivesse a nascer de novo, só que dessa vez de verdade. Até ali tinha sido uma grande mentira. Depois de dois anos, um sem número exaustivo de consultas médicas, pesquisas, dúvidas e noites insone, fui internada. A última pessoa em quem pensei, antes de tombar com a anestesia, foi o Estevão. Não sei por quê. Às vezes a gente também é traída pela mente, não só pelo corpo.

Foram quatro cirurgias e pós-operatórios sofridos. Minha mãe virou um anjo a me acompanhar naquele tempo. Cantava ao pé da cama para ver se amenizava as dores que eu sentia. Quando me recuperei, surgiu o nome Dolores. Digo que surgiu porque as coisas que surgem parece que vêm porque têm de ser nossas. Foi o jeito que encontrei de nunca esquecer o quanto me custou brigar por mim. Junto dos hormônios que passei a aplicar, também veio uma liberdade que poucos vão conhecer nesse mundo. Quase todos a têm sem se dar conta, já que faz parte da ordem das coisas poder ser quem se é. Para mim, aquilo era uma novidade inquietante. Ganhei confiança e força para continuar atropelando os preconceitos. Caminhava orgulhosa, de peito aberto. Eu tinha dois peitões lindos demais! A primeira vez que fui à praia de corpo meu, fiquei até o fim do dia. Chorei quando o sol se pôs, mas de felicidade. Fui grata à vida.

Hoje, sou uma mulher feliz. Tenho as minhas decepções e impaciências, como qualquer pessoa, mas sou feliz. Trabalho, comprei um dálmata e há um ano e meio vivo com meu amor. Não com o primeiro amor, mas com o último, provavelmente. Ele sabe que nasci fora do corpo e gosta disso. É um grande companheiro. Nosso maior sonho é adotar uma criança, e para nós não importa que seja menino ou menina. Amanhã vamos a Porto Alegre. Ainda não posso usar documentos com o meu nome verdadeiro. Na passagem de avião, serei Antônio. Embarcarei calada.