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A suficiência de deus

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por Daniel Baz dos Santos

Não quero comer animais.
Saio pela rua e as sombras
ambicionam meu silêncio,
meu crepúsculo colorido,
minha névoa empoeirada.
Não quero comer animais.

Ando pela praia,
farelos de pão nos cabelos,
quero temê-los, aos homens
que buscam o sossego
armados de desculpas.

Não sou eterno, mas posso ser salvo
em ambas as pontas da espada.

Os peixes são tão humildes
que não podem se sacrificar.
Quero comê-los crus.
Abandonar em seu lago dormente
minha lua vazia.
Nada se promete a um peixe.
Exceto a fome, rugindo entre os dentes,
um golpe de panos na pasta dos olhos.

Não quero comer animais.
Entro no carro. Alguém me rouba.
Deus sofrerá em outra gruta.
Em qualquer escassa tinta,
minha fome se enredará aos pássaros.

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A aparição de Deus – parte 6

atualizado 10 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Recuperei o fôlego antes supostamente perdido.

Continuei a falar com Deus em tom cada vez mais informal, de quem se considera um amigo mesmo:

– Parceiro, tá tudo errado, tá tudo errado!

– Interpretações variadas sobre a Minha existência – aferiu Ele numa resposta eminente.

A moça do café fresco – enfim – surge com a bebida estimulante. (Deu vontade de perguntar a ela se ela trabalhava mesmo como empregada doméstica das telenovelas da TV Globo.)

Enquanto Deus dissertava sobre as interpretações humanas, agradeci a moça do café pelo café. Ela, que bem saiu de fininho, voltando pra sua condição de cruel dívida histórica.

Notei que Deus falava além da conta?

Interrompi o Velho de novo. Isso, disse Velho, pois já me sentia íntimo da Figura.

– [Ainda mais expressivo] Véi… [beberiquei a cafeína] me tira uma dúvida: se eu entendi bem esta história de livre-arbítrio, o Senhor quis dizer que as pessoas precisam deixar que, cada uma delas, faça juízo de sua escolha, que cada uma seja feliz da maneira que achar, sem perseguições nem preconceitos? Mas me fala: o mundo vai mesmo acabar este ano, como dizem?

Sobre o último questionamento, Deus fez suspense.

Insisti com o tema:

– Não seria uma lorota publicitária este lance de fim de mundo?

Senti que Deus gostou do dizer lorota publicitária.

Testemunhei a figura de Deus, agora em tom de quase desabafo histórico:

– As pessoas me interpretam de um jeito… A interpretação… – Deus novamente com Sua ideia fundamental, quase que Se penitenciando pela conversa travada comigo.

Aparentemente carismático e interessado em Sua abordagem, interrompi-O de novo:

– Interpretação! Falou, falou tudo Força Maior!

Como se Deus não soubesse de mim, como se Ele não me conhecesse sendo a Figura dita, como se Ele não soubesse de minhas manias, me cegou mais e mais com Sua luz excessiva.

(Desculpem as expectativas criadas, mas Deus é pura luz; lembra um clarão vazante de cegar a vista humana). Mais do que nunca, Deus soou categórico:

– Livre-arbítrio, meu caro…

Deus parecia repetir aquela expressão, como se ela fosse Seu mantra dos mantras…

– O livre-arbítrio!

Deus entrou num jogo de palavras, dá pra acreditar?

Fiz que não entendi. Deus entrou de vez em nosso jogo de palavras:

– Acredita em mim, jornalista sem solução?

De repente, simulei surdez, como que levando um dos ouvidos pro lado de Sua fantástica luz em excesso, uma imagem que escorria de um teto de vidro sujo e desgastado pelo tempo. Escancarei uma surpresa com cara de espanto fabricado, mirei a Sua figura de forma mais precisa, pensando na curiosidade da audiência que, crédula, continua quem sabe a nos perceber:

– Queeeeeeeeeeeeeee?!

– Isso, jornalista, acredita em Mim? – Deus insistiu num ato de constrangimento forçado.

Estalei meus olhos de mortal para a realidade mutante. Passei a pensar no próximo assunto de nossos diários sem solução. Saí-me com uma correspondência derradeira:

– Deus, me perdoe, sem querer falar difícil agora, mas pergunta retórica não vale, ok!

Súbito, as luzes do templo ecumênico se apagaram; em vez de um salve amizade, o silêncio retumbante de um grilo.

 

por Re Nato

Recuperei o fôlego antes supostamente perdido.

Continuei a falar com Deus em tom cada vez mais informal, de amigo mesmo:

– Parceiro, tá tudo errado, tá tudo errado.

– Interpretações variadas sobre a Minha existência – aferiu Ele numa resposta eminente.

A moça do café fresco – enfim – surge com a bebida estimulante. (Deu vontade de perguntar a ela se ela trabalhava mesmo como empregada doméstica das telenovelas da TV Globo.)

Enquanto Deus dissertava sobre as interpretações humanas, agradeci a moça do café.

A empregada saiu de fininho, voltando pra sua condição de cruel dívida histórica.

Notei que Deus falava além da conta? Interrompi o Velho de novo. Isso, disse Velho, pois já me sentia íntimo da Figura.

– [Ainda mais expressivo] Véi… [beberiquei a cafeína] me tira uma dúvida: se eu entendi esta história de livre-arbítrio, o Senhor quis dizer que as pessoas precisam deixar que, cada uma delas, faça juízo de sua escolha, que cada seja feliz da maneira que achar, sem perseguições nem preconceitos? Mas me fala: o mundo vai mesmo acabar este ano, como dizem?

Sobre o último questionamento, Deus fez suspense. Insisti:

– Não seria uma lorota publicitária este lance de fim de mundo?

Senti que Deus gostou do dizer lorota publicitária.

Testemunhei a figura de Deus, agora em tom de quase desabafo histórico:

– As pessoas me interpretam de um jeito… A interpretação… – Deus novamente com Sua ideia fundamental, quase que Se penitenciando pela conversa humana travada comigo.

Aparentemente carismático e interessado na abordagem, interrompi-O de novo:

– Interpretação! Falou, falou tudo Força Maior!

Como se Deus não soubesse de mim, como se não me conhecesse, como se Ele não soubesse de minhas manias, me cegou mais e mais com Sua luz excessiva.

(Desculpem as expectativas criadas, mas Deus é pura luz; lembra um clarão vazante de cegar a vista humana). Mais do que nunca, Deus soou categórico:

– Livre-arbítrio, meu caro…

Deus parecia repetir aquela expressão, como se ela fosse Seu mantra.

– O livre-arbítrio…

Deus entrou num jogo de palavras. Dá pra acreditar?

Fiz que não entendi. Deus entrou de vez em nosso jogo de palavras:

– Acredita em mim, jornalista sem solução?

De repente, simulei surdez, como que levando de lado um dos ouvidos pro lado de Sua fantástica luz em excesso, uma imagem que escorria de um teto de vidro sujo e consagrado pelo tempo. Escancarei a surpresa com cara de espanto fabricado, mirei a Sua figura de forma mais precisa, pensando na curiosidade da audiência que, crédula, continua a nos ler:

– Queeeeeeeeeeeeeee?!

– Isso, jornalista, acredita em Mim? – Deus insistiu num ato de constrangimento forçado.

Estalei meus olhos de mortal para a realidade mutante. Passei a pensar no próximo assunto de nossas sugestivas manias. Saí-me com uma correspondência derradeira:

– Deus, me perdoe, sem querer falar difícil agora, mas pergunta retórica não vale, ok!

Súbito, as luzes do templo ecumênico se apagaram; em vez de um salve, o silêncio de um grilo.

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A aparição de Deus – parte 5

atualizado 10 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Um dito momento mágico.

Deus ia mesmo falar?

Deus…

Confesso que fiquei insistindo naquela imagem – o sol havia queimado meus neurônios antes de entrar no templo ecumênico?
O excesso de luz à minha frente. Belisquei-me pra tentar acordar – efeito zero. Isso, nada de tentar ganhar mais tempo pra chamar a atenção ou aumentar o ibope desta história até que uma grande editora multinacional surja e me pague em moeda europeia por minhas supracitadas manias. Condição nenhuma permitiria evitar aquela luz enorme sobre a nossa retina de testemunha ocular. Ninguém por perto? Sem testemunhas?

Sem testemunhas. Juro.

E aquela luz em excesso…

Meu…

(Ato falho de novo?)

… Deus. (Risos…)

(Surpresa criada) Carambola, Deus pediu-me mesmo a palavra! E formalmente!

Aqui uma correção: Deus me pediu a palavra como se, de fato, precisasse me pedir a palavra!
Só depois de um tempo eu pude reconstituir a cena: eu pensava mais no café que não vinha nunca do que nas iminentes palavras de Deus. O café pedido não havia chegado.

De modo zombeteiro, deixei escapar uma indelicadeza típica de fazendeiro do interior paulista:

– Que espécie de serviço de cozinha é esse?

Pensava na dita empregada doméstica que não era negra e nem das novelas da TV Globo!

Deus parecia dar sentido a uma vogal.

– O… o…

Uma Figuraça!

Logo comecei a pensar numa associação de ideias para tentar entender o movimento científico provocado… (quem diria?) por Deus! Uma frase estalou no ar?! (Hi hi…)

– O livre-arbítrio, meu caro.

Interiorizei: falou, falou.

Fiz-me um atento fiel, apenas um atento fiel, e que fique bem claro.

A Senhoria prosseguiu:

– O livre-arbítrio explica tudo.

Expressei-me com um misto de concordância e interrogação.

– É mesmo… (engoli saliva) Se-nhor.

– O livre-arbítrio explica todas as perguntas – inclusive as suas perguntas e até as suas manias, jornalista sem solução! – e as dúvidas de todas as pessoas conscientes de si ou não.

Ênfase para a parte das pessoas conscientes de si ou não.

Deus desandou a falar como uma espécie de enviado Dele próprio ao planeta Terra.

A voz de Deus bateu forte na consciência, tenho que destacar. Uma desatenção pelo excesso de novidade?

Deixei escapar uma fala, pensei alto:

– Deus!

– Sim…

– Ah, foi mal… Onde o Senhor parou mesmo?

Deus versava filosófico sobre sua aparente ideia fundamental: o livre-arbítrio.

– O livre-arbítrio, meu caro jornalista sem solução, pelo livre-arbítrio o Universo pode escolher o seu destino, todos podem seguir as suas respectivas cabeças, em qualquer idioma as pessoas podem seguir a ponta do próprio nariz… [Agora como se Ele falasse mesmo difícil para o povão deslocado às margens dos centros econômicos do país] A perspectiva do livre-arbítrio…
– … mas Deus, desculpe interrompe-Lo. As pessoas dizem isso e aquilo do Senhor, dizem isso e aquilo sobre Sua suposta vontade, citam a Bíblia, citam escrituras e documentos diversos, mencionam que O senhor deseja isso e aquilo, tratam do pecado uma permuta comercial. Deus? Vou falar na lata: as pessoas usam o Seu nome para ter o monopólio do petróleo, usam o Seu nome para matar, usam o Seu nome para reprimir, usam o Seu nome para encher o bolso, as pessoas usam o Seu nome para ganhar votos, usam o Seu nome para promover fronteiras mil, usam o Seu nome para apagar as diferenças culturais dos povos nativos…

 

(continua)

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A aparição de Deus – parte 4

atualizado 8 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Sentado num banco sem encosto, notei incrédulo o cadarço de meu tênis cheio de carrapichos! Deixei escapar um seguinte ato falho:

– Que iiisso meu Deus!?

Não era possível, eu acabara de vir de um sítio no Cerrado? Eu acabara de vir, de certo, de uma fazenda de cabritas ou de uma caçada às bruxas na companhia do demônio de Roberto Marinho?!

Não. Eu tava caçando capivara num lodo próximo pra evitar a promoção do churrasco de carne de gato na rodoviária local? Hipóteses absurdas pra entender a escassez de calçadas e a pelota de carrapicho nos pés. Como pode, Brasília, tratar os pedestres a pão e água? Como pode, Capital Federal, sua senhoria não ter calçamento suficiente pra seus citadinos e visitantes?
Os carrapichos… Sim! Eram tantos os carrapichos em meus pés que naquele momento eu não podia me dedicar a nenhum outro toco de indignação sistemática.

Qualé…?

Provoquei mais uma vez ou desta vez em voz alta:

– Qualé Deus? Fala naaada?

Na Casa de Deus, eu supunha que seria atendido ou atendido prontamente por Ele; bem atendido, melhor dizendo. Bem atendido com um café fresco e uma bolachinha de nata!

Súbito, surge uma empregada doméstica.

Juro por… Deus, a empregada doméstica não era negra e nem das novelas da TV Globo. E pela recorrência da imagem, me fiz intérprete de um tipo corriqueiro da mesma tevê:

– Por favor, gosto de café com açúcar! Odeio adoçante – deixei claro.

Então fez-se a luz! Deus riu, num sinal de presente.

Vocês não vão acreditar, mas Deus riu de verdade!

Naquele instante, notei que Deus tinha mesmo algo de humano. Riu mudo, riu mudo O xarope!

Atrevo-me a reproduzi-lo?

Na casa de Deus, então senti-me em casa, literalmente:

– Deus, posso trocar a bolachinha de nata por um pudim de pão vencido?

Os leitores não vão acreditar (?) na passagem que se segue: Deus fez cara de desentendido com o olhar de quem não conhecia de forma alguma pudim feito com pão vencido.

Sem cerimônia, eu Lhe disse em tom de afeto:

– Ué, o Senhor não é Onisciente, Onipresente, Onipotente, Oni-oni. Tudo sabe? Tudo vê? Tudo sente? Tudo-tudo? Não saberia o Senhor que minha irmã sabe fazer esta modalidade de doce, o tal pudim com pão amanhecido?

Até aquele momento Deus não havia dito nada.

Nada? Naaada. Em absoluto, nada.

A propósito: estão curiosos pra saber como é Deus?

Hein?!

Sim, eu O vi.

Vi, vi pela força de meus olhos de leitor de Dostoiévski, eu O vi!

Então, estão curiosos pra saber como é Deus?

Jura por Ele?

Ué?! Meus leitores crentes não sabem de Deus, O vosso senhor?

Ele é…

No momento em que eu pensei numa réplica com os sagrados leitores, Deus pediu a palavra.
Isso, Deus me pediu a palavra feito uma pessoa modesta.

Sim, Deus queria falar. Seu silêncio iria ser rompido!

Deus, diga-se, é bastante educado.

Os leitores (enfim!) percebem que Ele é quem nos dá a voz?

Sim. Pra mim, tá na cara… ué?!

– Deus sabe do momento certo de falar – enfatizo aqui como se eu tivesse redigindo uma passagem publicitária.

Ops! Notei que Deus assobiou num sinal de que chegou mesmo o Seu momento sagrado de falar.

(continua)

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A aparição de Deus – parte 3

atualizado 8 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Numa igreja.

O jornalista sem solução numa igreja? Quem diria…

Só por Deus!

Só por Deus?

Igreja, não, templo ecumênico!

Dirá o outro, ah, fala sério! Qual a diferença?

Bem, não demorou pra eu começar a sentir alguma diferença.

Só por Deus? Só.

Sim, eu tava literalmente só naquele lugar então desconhecido e inédito.

Só por Deus? A interrogação não ecoou numa representação tradicional de Casa de Deus; no caso, a reflexão ecoou num enorme salão sem o registro de imagens, desenhos, adereços e relevos dourados, cruzes e avestruzes. Em pouco tempo, percebi que a pergunta de ocasião era desnecessária. Eu estava mesmo num templo ecumênico.

Era mesmo um templo ecumênico. Paredes lisas e tingidas com cores neutras assemelhadas ao branco de pomba da paz, o que dava ao espaço um ar celestial cinematográfico.

Quase um absurdo. Tudo lembrava neutralidade naquele lugar – neutralidade! Nem parecia igreja. Não tinha nada a ver com o que entendemos por igreja. Nada? Nada, nada mesmo. Nada de ostentação e maquiagem com marca de suntuosidade. Nada de Cristo com cabelos ruivos e olhos azuis? Nada. Nada de derivados de Virgem Maria também? Nada. Não mesmo. Nada de foto grande de pastor com chapéu de peão pantaneiro na parede principal? Não. Nada de bandeira de time de futebol? Claro que não! Nada mesmo de mensagens fanáticas ou comerciais. E digo mais: era um salão tomado por bancos rústicos e sem verniz. O altar? O altar do templo apenas tinha uma mesa grande de madeira maciça, um tipo de mesa de jogatina de sitiante de cidade pequena de interior do país. Por um instante, eu pensei que esta poderia ser a igreja ideal…

Ledo (Ivo, o suposto poeta pouco lido) engano.

Logo, me lembrei da existência do dízimo, dízimo cobrado ou exigido independentemente da desgraça econômica que eventualmente os fieis possam estar passando. Um contraponto, uma citação pouco forçada?

– O inferno do dízimo impagável.

Uma crítica me tomou de momento, me senti com opinião, um cara muito chato e sem dogmas! Recostei a espinha dorsal e respirei fundo.

Minto. Não havia encosto algum, naquele momento, não havia em mim conforto físico nem espiritual. Por um ato falho, suscitei há pouco um banco de mesa de truco, pai, madrasta, tios, primos, baralho, garrafa de vinho barato, Milionário & José Rico numa caixa de um velho micro system comprado a prestações, balas moles para quem encheu a cartela de bingo, um fogão à lenha, a minha avó paterna preparando o pão caseiro à moda italiana, um ronco de um tio minutos depois do almoço, uma última gota…

Banco sem encosto? Qualé…?

Provoquei em silêncio:

Qualé Deus?!

E.

E?

E naaada.

Com sonoridade, eu repeti o atrevimento:

Qualé…

… Deus?

Continuei na minha.

As minhas mãos suavam. Enxuguei-as na barra da calça.

O sol batia forte lá fora.

Um sol quente de rachar mamonas esbarrava no teto de gesso do nosso reportado templo ecumênico.

 

(continua)

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A mais nova última invenção

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

A vontade às vezes se alterna entre o desejo de não dormir e ficar sempre acordado e o desejo de dormir e não acordar mais. Parece desejo de morte; alguns podem ver tal retrato como um desejo de paz; os demais devem ter coisa melhor pra fazer, de fato.

Visualizo a paz suscitada num chiclete grudado num pequeno buraco de uma parede, uma abstração que o chamado “homem de bem” insiste em negar, uma ideia que não cola mais. A propósito: o que fazer com as ideias que apenas nos servem de muletas?

De escora, o anti-herói desta época de narcisismos e de monstros midiáticos tem a posse especial de uma cadeira – o que muito lhe sustenta a gravidade da vida. O cansaço pode ser descontado na superfície visível de uma cama. De vez em quando o repórter sai a campo e esbarra numa testemunha que lhe desabafa miudezas particulares: a arte de coletar informações para o nosso guia secreto de sobrevivência. A paz está com Deus? A paz está com os Homens? A paz não passa de uma grafia? Desconfio que “os nossos guias de sobrevivência” não possuem informações confiáveis, muito menos superlativas.

Um capricho para entender que a paz pode não passar de mais uma palavra com múltiplos sentidos. Dentro da cachola, as ideias voam livremente, quase sempre a realidade que nos cerca cai na vertical de um céu como o rascunho de um pássaro que súbito perde as asas da liberdade fabricada. A paz é a ausência de.

Não sei exatamente porque me importo em repetir o que não enxergo direito. Se um sujeito nasceu sem asas, que lhe importa os formalismos metafóricos de ocasião? Na realidade recorrente, percebemos um cotidiano parcialmente visado, o assunto principal que deveria ser bem melhor definido.

As ruas e avenidas de grandes e médios centros estão sempre abertas, poucos percebem o trânsito caótico. A paz não pode ser um desejo coletivo; vive-se mais dentro de casa do que… Vejo a cidade como um retrato universal; sua imagem é curiosamente a ausência de. Convenço-me repentinamente que a paz universal pode ser um desejo particular, muito particular pensar que a paz pode ser um desejo particular – motivo que pode suscitar um arrepio na testemunha mais próxima: a paz está no ar; quem sabe a paz esteja mesmo no ar para qualquer um que deseje ver o que lhe cobre o bendito umbigo.

Volto à ausência de. Desde quando o que nos “falta” deixa de fazer sentido?

Hoje, eu tenho algumas perguntas; ocorre-me a falta de respostas. E se às vezes invento respostas, só pode ser para criar caso. Normalmente as respostas são infinitas e de difícil entendimento. Quem questiona (muito) os cantos universais, ou quem procura o (auto)conhecimento sem descansar um pouco de si pode não ver um naco que seja de paz suscitada. A paz é uma boa pergunta, a ausência de paz é o sinal da nossa mais nova última invenção.

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Sem título

atualizado 31 outubro 2014 Deixar comentário

por Luiz Augusto Rocha

Enquanto dormem, cessa a morfina:
os anestésicos ainda são necessários;
a vigília continua no sono.
Não tem entranhas. Não têm sentido.
O quadro clínico não corresponde mais.
O desvario de manhã, chamando por Deus,
“Jesus, Jesus”, não significa mais.

A esperança é só nossa,
a ridícula esperança!

Ela morria:
sem a fome, sem estômago, intestino;
sem a sede, sem rim, nem fala;
sem olhos, que a vista olhava perdida,
cegos do silêncio e dos remédios.
Os aparelhos gritam à nossa angústia.

Enquanto isso acontecia,
aconteciam outras coisas no mundo…

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Texto publicado originalmente no blog Modesto cabotino.