voltar

‘NÃO ROUBO MERENDA, NÃO SOU DEPUTADO’, cantam corintianos em ato

Deixar comentário

Mais vídeos da manifestação pela democracia no Vale do Anhangabaú, em São Paulo:

______

Bônus de imagens do episódio

                                              

voltar voltar

Entre discursos, entre achados

Deixar comentário

 

por Mochilowski

Caminhei não sei quantos passos de uma ponta a outra da avenida Paulista, ou da extensão asfáltica do dito ato em defesa da democracia. Já ao lado do vão conhecido do MASP, me posicionei entre dois caminhões-palco. Na real, o certo é dizer: voltei de onde eu me ausentei um tempinho para ver melhor o chão que seria tomado em instantes por centenas de democratas.

Deu o que fazer para eu achar um lugar perto do MASP, porque quando voltei o espaço estava tomado. Fui pacientemente costurando e abrindo caminho entre corpos parados e em movimento. Parei numa posição que me faria ver tanto o palco de show musical quanto o palco de discursos. Eu sem saber se haveria show. Digo, eu sem saber que haveria shows musicais, imaginando apenas a reprodução de discursos por diversas lideranças sociais e políticas sem que tivesse uma gota de água para molhar a garganta nos intervalos. Naturalmente, faço graça com a água. Porque a quantidade de vendedores em meio a uma multidão que repetia o refrão “MAMA ÁFRICA, A MINHA MÃE É MÃE SOLTEIRA” (vídeo 1 e vídeo 2) me fez supor que a venda de garrafinhas de preços inflacionados iria fazer a alegria e encher no dia seguinte os pratos dos amigos que carregavam caixas de isopor nos ombros ou por cima das cabeças em meio a uma massa que cantava e dançava em contagio frenético de correspondência com a voz e banda do cantor Chico Cesar, que antes de iniciar o show assegurou ao público – para o delírio deste mesmo público – que estava ali para cantar de graça, sem cobrar cachê. De grátis, na base da paixão? Se eu já era fã deste Chico, fiquei ainda mais César! Não segurei a emoção. Àquela altura eu já havia colocado o bloco de notas no bolso, como que abandonando o símbolo de um jornalismo que eu confesso não reverenciar: bloco de notas, patrão, mito da imparcialidade, caralho a quatro…

Chico Cesar. Além dele, a cantora e deputada Leci Brandão e uma rapper com um curioso capacete de operário na cabeça também marcaram presença. O nome desta última? Flora Matos. Confesso que considerei um achado de boa cantora esta Flora. Não a conhecia até então. Mááááááximo respeito! Fiquei com a frase de efeito da dita Flora na cabeça. Ao final de suas canções: Mááááááximo respeito! A expressão ecoou num mar vermelho de gente. Mar vermelho sem fragmentação aparente, porque uma coisa era certa: todos que estavam ali estavam por um motivo histórico e urgente: a defesa da democracia e uma leitura sensata do contexto do país. “Por que, o que importa neste momento, é a defesa da democracia! IMPEDIMENTO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA SEM CRIME, É GOLPE!

Todos logo perceberam que os discursos, suspensos para os shows musicais, haviam voltado.

NÃO HÁ DEMOCRACIA SEM POVO.

Algo do tipo diria em seguida um tal de Luiz Inácio, em projeção de singular discurso.

______

Bônus de imagens do episódio

              

 

voltar

Um ‘caso’ de quinze segundos de fama

atualizado 6 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Eu estava a poucos metros do cruzamento da Paulista com a Augusta, um dos mais badalados de Sampa, quem sabe, um dos mais famosos depois do musicado cruzamento da Ipiranga com a São João. Era precisamente dez pras dezesseis horas, a popular quatro da tarde. Faltava pouco para que o horário de início oficial do ato em defesa da democracia topasse com a realidade mutante. Desferi um até breve pra Augusta e meia volta na direção do MASP, palco dos discursos programados. “Ei, vai uma água aí?”, uma frase de vendedor atravessou meus pensamentos. Não respondi, continuei andando. Cinco metros depois. “Água, olha a água”. Desta vez, fingi interesse para processar uma entrevista espontânea. “Quanto é a garrafa, companheiro?”. Fiz cara de humorista sem graça. “Quaaanto?”. Uma garrafinha de 500 ml não saia por menos de quatro, cinco reais. Ufa. Havia chegado “hidratado” na Paulista. Não ia desembolsar com água nem com aquelas bandeirinhas do Brasil do período da Copa do Mundo de Futebol, também postas à venda por trabalhadores ambulantes. Onde já se viu…? Os mais atentos puderam perceber com nitidez. As bandeirinhas do Brasil não fariam mesmo muito sucesso em um ato em que a cor vermelha é a predominante… “Trata-se de um apelo ideológico”, eu pensei comigo. “Como um apelo ideológico”, eu continuei, “feito aquela figura ali vestida de Batman…”. Pisquei os olhos de incredulidade. Cofe cofe. Por um momento senti a necessidade súbita de uma garrafa de água que eu me recusei a comprar há pouco. A garganta secou…? Acabara de aparecer em meu horizonte uma figura do Batman???

A minha primeira reação com o Batman na Paulista foi de paralisar a minha cara de pretenso tacho apagado. Ri mudo na hora. A segunda reação, após a primeira não durar muito ou ser abreviada pela fulminante sequência de reflexões, foi cogitar a minha teoria do sinistro. Literalmente, parei pra refletir. Será este Batman o vilão de minhas expectativas primeiras relatadas no primeiro de nossos diarios? Visível e aparentemente desejoso de holofotes midiáticos, o agora Batman sampeano… Escroto, este Batman sampeano! Escroto, escroto!

Escroto? Tal reprodução caricata de herói importado, marombado e acompanhado por uma figurante que não vem ao caso, não pertence a este nosso movimento político. Vai ele querer arrumar alguma confusão só para aparecer nas editorias de subcelebridades dos jornais massivos e nos memes de militantes em redes sociais? Se bobear, este infiltrado acadêmico de academia de musculação está sendo é pago por fontes obscuras para provocar os democratas da vez. Se bobear, este falso herói veio pra avenida com remédios nas veias e está aliviando as suas tensões por vias… terrestres. Se…

Deixei o Se… de lado e procurei mudar de assunto. E pra não perder a viagem neste episódio, fiz um rápido registro fotográfico do perfil da caricatura. Fotografei o Batman sampeano pra não dizerem que invento coisas sem juízo ou que reproduzo nuvens em vez de testemunho da realidade.

O nosso Batman sampeano sairia de banda.

Pela direita Batman sampeano, sai de banda desta narrativa!

Vá procurar a sua turma, escrotão!

E leva contigo os seus quinze segundos de fama e esta minha paranoia de que vai ter tiro neste ato.

______

Bônus de imagens do episódio

      

voltar

Um esquenta entre democratas

atualizado 6 abril 2016 Deixar comentário
O MASP por volta das 15 horas de 18 de março

por Mochilowski

Pisei na Paulista uma hora antes do início simbólico do ato em defesa da democracia, que a mídia partidária e opositora destaca(va) como ato pró-governo. Não que o ato não fosse pró-governo, não sejamos maliciosos; mas o que a mídia partidária e golpista não reproduz é que o ato deste dia 18 de março é, em suma, uma manifestação em defesa da democracia e pelo respeito e soberania do voto popular. Como se não soubéssemos da canalhice diária de parte dos veículos de comunicação a serviço de. Ah, esta gota de jornalismo deteriorado pelo tempo e servido diuturnamente a inocentes úteis!

Pensei nesta mensagem de sinal dos tempos, assim que avistei cartazes nas mãos de legalistas, com dizeres “Fora Rede Globo”, “Rede Golpe de Televisão” etc.

Percebi ainda outros cartazes em homenagem à empresa de comunicação da Família Marinho naquele que podemos chamar de ponto referencial do ato: o MASP (Museu de Arte de São Paulo). Ali, dois caminhões-palco davam o ar da graça junto a um conjunto de ativistas, militantes e o que chamo de conscientes defensores do Estado Democrático de Direito. Outros caminhões com caixas de som também foram postos na extensão da avenida. Ao longo da Paulista, eu podia notar pessoas e mais pessoas chegando aos poucos para um ato que, diferentemente do ato golpista do dia 13 no mesmo espaço, não foi nem estava sendo convocado em “tempo real”pelo sinal da maior rede de televisão do país e por seus parceiros econômicos e ideológicos. O ato em defesa da democracia foi convocado por entidades e redes sociais sem auxílio ou apoio questionável.

Enquanto democratas iam se reunindo nas imediações do MASP, eu não conseguia frear a ansiedade acerca do que exatamente iria acontecer dali a poucos minutos. E o cadáver que eu imaginara no diario anterior?, eu lembrei. Um número considerável de policiais militares já estava a postos desde o momento em que eu cheguei no pedaço, por volta das 15 horas. Porra. Era a minha primeira participação em um ato político de status nacional e, o periodista aqui não tinha dúvida, previa um desfecho histórico.

Para captar melhor a superfície que já começava a ser vigiada por helicópteros de pontos estratosféricos, inventei de andar entre a multidão que ia se reunindo ao lado do MASP e se estendendo nos flancos laterais e na própria extensão da Paulista. Caminhei em movimento de costura naquele espaço uma dezena de vezes, fotografando e testemunhando de perto as faces apreensivas de alguns e a curiosa concentração de outros. Supus que estes podiam ser mais experientes do que aqueles na modalidade “Aqui é pela democracia!”. Não raro, percebia um ou outro se alternando em tom de canto: NÃÃÃO VAI TER GOLPE, NÃÃÃO VAI TER GOLPE. Se repetir, vira refrão? NO GOLPE…! Era só um esquenta do que estava por vir…

______

Bônus de imagens do episódio

            

voltar

Crônica de um ato anunciado

atualizado 23 março 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Posso dizer que recém acordei num ambiente de pesadelo, digo, que acabei de pisar num antro de conservadorismo político do país? Pois já posso me notar entre prédios e miragens ocultas, com um bloco de notas e com um aparelho de registrar fotografias em mãos, percebendo-me estrangeiro numa metrópole onde uma parte influente dos seus promove – às escuras ou sob o manto usual da hipocrisia – um consagrado kit diário de antidepressivos?

(Num ponto primeiro, arregalo os olhos por não ter poder aquisitivo para movimentar a economia de farmácias e drogarias em proveito de fugas existenciais?)

(Num ponto segundo, me noto mesmo sem remédios no organismo, sentindo-me inseguro pela falta de narcóticos que me fariam ver a vida com o sentimento de posse sobre certezas inabaláveis acerca de como o mundo poderia ser um lugar menos plural e imperfeito?)

(Num ponto terceiro, dou um basta nos parêntesis.)

Em outras palavras, suspendo uma reclusão social de autointitulado periodista, ponho um fim a um tratamento terapêutico para insinuar um trágico da Grécia Antiga promovido em páginas hoje canônicas? o cumprimento de um destino com certo ar de dignidade sugerida?

Tenho que deixar claro, não quereria eu dar existência a um ser que se automutila no fim de uma história contada… Creio que nem posso. Aliás, não levo jeito para me fantasiar de um reproduzido deus humano, e nem em sonho posso assegurar o curso dos acontecimentos que se seguem, pois me escapa a máscara de (querer) viver num mundo exclusivo de ideias.

Mas as ideias – ohhh, as ideias! – me trouxeram até aqui e parece me empurrar pra um percurso dado; pois logo mais – às 16 horas deste 18 de março – me notarei com os pés pululantes em uma avenida chamada Paulista, numa projeção de fluxo contínuo entre dezenas, centenas, quiçá milhares em ato contra um golpe e em defesa da democracia ou por uma crença dada de mundo, munido porém de uma apreensão particular: algum cadáver brotará deste ato? Surgirá alguma figura destoante na multidão? E se nela surgir um exímio golpista comprador de remédios com uma arma nas mãos? E se uma persona amiga for alvo daquele entre outras possíveis? Pois até me imagino com cara de multidão, distraído, e por um momento alheio a um surpreendente sinistro; imagino um efeito dominó: legalistas se abaixando, se abaixando, se abaixando até que uma bala tal, que vai seguindo um horizonte a meia altura, crava dentro de mim.

Naturalmente, espero voltar com vida e com o nosso próximo diario.