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Av. Buarque de Macedo

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por Daniel Baz dos Santos

Na Avenida Buarque de Macedo
há um coaxar de vidros.
Desastres de carro perfumam o céu.
E o céu se enterra num chocalho de pássaros.

Bêbados tristes vestem um coração
que vibra como aplauso.
Os cães não se lembram de estarem mortos,
rasgam brancos da infância nos dentes podres.

Na Avenida Buarque de Macedo
há flores precisas e silenciosas como números.
E patas feridas sob os altos voos.
As vozes formam uma água onde flutuam dentes,
ou seriam sílabas de areia e cicuta?
Os gatos equilibram abismos de seda
onde dança o negro original
e astros se fingem de sementes frescas,
nos espreitam pelo aberto da fome.

Mulheres velhas se revezam na fumaça
de buzinas e licores.
Mulheres velhas fedendo à urina alimentam de amarelo os mendigos.
Um calafrio acende seus olhos de rã.
Olhos empapados de silêncio e espanto.

Na Avenida Buarque de Macedo
beijos dissecados fervem no asfalto.
E sonhos furiosos necessitam de cavalos
para escapar das grades dos cílios.

O homem que descobriu a cura do câncer
nada sabe de teus encantos.
Mas não morreste no parto e tua dor
é como um túnel para as formas abandonadas.

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A estética do copo

atualizado 19 dezembro 2014 Deixar comentário
De um ponto de vista de São José do Nortchê

por Jose Mochila

Fora dos dicionários e das enciclopédias, o copo de que falo nesta leitura é um recipiente de bordas entortadas pelo peso de um líquido parecido com o de uma lágrima de crocodilo. Falo, pois, de um ponto privilegiado de nosso cenário de mundo; de uma posição fora do alcance dos trópicos, sem linguagem direta. Ou melhor, reporto-me de um ato próprio de contemplação da vida; miro um copo grande, querendo então, ansioso para, ou sem poder circundá-lo com os braços. Percebo um copo quase cheio, feito de uma base velada e transformada pela ação do tempo? Não, não falo mesmo de bebida barata e de qualquer vasilhame feito de material sintético; trato de mais uma queda silenciosa de fim de tarde.

Trato de um formato de um copo de whisky, percebam que este copo elástico nunca caberia virado de cima para baixo no entorno de uma cabeça. Não que ele não me caiba, é que não existe guincho nem John Lennon nem força maior que possa erguê-lo e virá-lo por cima.

A bebida de que falo, e deste copo. Tal copo não pode ser abraçado pelos seus, e por desejo algum deste mundo narrado. Eu diria que é um copo impensável, mais um copo ou um corpo nunca antes pensado como um copo impensável. Quero crer que este copo seja mesmo o de lágrima. Se não pode sê-lo, deixemos que este copo seja, além de uma cuia quase cheia, e com as bordas entortadas, o que ele é ou como nem sempre é visto: um representante de si?

E eu sei. Da resposta. Que pergunta.

O que sei é que não quero hoje tratar de filosofias de botequim. O único pensador que me interessa deste momento de rio, deste momento de mar, deste encontro é aquele sujeito que está dentro do copo. Reparem que neste copo há um pensador. Deus de meu copo, a solidão que o preenche. Meu copo, o mesmo que não é meu, que não é seu; este copo que não é de ninguém nem da família do eu nem da do seu. Quisera eu fosse também do interior desta base descrita, e a solidão, e a solidão do pensador dentro do copo que não é meu nem…

Notem, o pensador de meu copo é um operário do cotidiano, quem sabe? para contrariar outros que não podem sê-lo neste ato. Neste copo, a solidão de um pescador em trabalho. E eu que invejo o operário deste copo. Digo, um operário de seu copo. Um copo sem dono não tem rótulo, a lagoa é grande demais para ser o que aparenta ser, deste olhar distante.