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Com a palavra precisa

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por Daniel Baz dos Santos

com a palavra precisa
costuro o céu em teu corpo
terminaram-se os dias
mas em outra canção

com a palavra precisa
alimento tua pele
teu nome é um contágio
e dói como se fosse livre

com a palavra precisa
mato de fome tuas mãos
o vento é um falso caminho
e respira por nós

com a palavra precisa
torno-me legenda de pássaros
bebo a água funda de tua voz
sobrevivo à bondade

com a palavra precisa
abro a tarde e te reconheço
depois é que feridas e portas
se completam na saída do corpo

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Sob as unhas

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por Daniel Baz dos Santos

Teu corpo cresce
como o crepúsculo
no final dos pães.

Sonho que crepita em furioso animal,
recordo minhas mãos
na sede de tuas roupas.

Teus olhos rangem como a noite.
Dois fantasmas desarmados
entre os aromas da infância.

As crianças que nos desmentem
já dormiram.
A madrugada quente sob as unhas.

Pesadas em nossas costas
todas as coisas que voam.

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Elegia enfeitada

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por Daniel Baz dos Santos

Tenho dores.
Resistentes como promessas;
volumes que a manhã esqueceu
na garganta das pedras.

Tentei não repetir a palavra.
Sobrevivi a quase tudo,
mas sucumbi aos coices dos amores falados, à jaula do substantivo gasto.
Fiquei à deriva
contaminando o silêncio.
Tenho dores.

O corpo não sabe onde começa.
Cada espelho é definitiva mordida.
Escapam mãos, olhos e jardins,
fogem de mim
para outra censura de águas.

Tenho dores
inúteis como esta cicatriz a hospedar um vazio
onde mal lateja a memória
e o sorriso me sabota as feridas honestas.

Dias de súbita palidez.
Cada cor é uma futilidade das formas.
Só deixarei o poema
lá onde amanhece
e os mendigos ainda dormem
e os cães limparam a noite de seus mistérios
e sombras anônimas ainda chantageiam os fantasmas
e a vida é este incômodo de carnes
a enfeitar os venenos.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Ainda bem que não tenho te visto

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por Daniel Baz dos Santos

Não te dás em fósforos.
Teu corpo desdenha letras
e faltam fronteiras nos teus arredores.
Conta-me, então,
o que eu tenho perdido,
dos peixes que não iluminam,
das frutas que oferecem resistência,
e da terra, esse coral de horas,
a recitar as mais novas mutilações.

E do teu corpo

que é o meu projeto

de sumir.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Anatomia

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por Daniel Baz dos Santos

O ácido lático ferve.
Esquenta o tendão exausto
Onde as fadas sentam
Para beber veneno.

A actina age involuntária e cardíaca.
Dorme sob o deltoide.
Treme entre o trapézio, dentro do tórax.
E atrofia um coração
Que mastiga e nunca engole.

A matriz óssea de um homem feito.
Fibra e massa parietal e linha epifisária…
Quando o fogo vier da floresta,
Os animais não te perceberão,
Posto que teus hematomas
São menos que ruídos
Nos buracos de tuas roupas.

O corpo improvisa uma glândula.
Um buraco onde se esconda a alegria –
que serve, contudo, durante os serões,
Para enterrar os cadáveres do sonho.

Entras pela porta
Para
Incompletar minha anatomia.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Pensamento

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por Daniel Baz dos Santos

Penso em teu corpo
gastando a saliva dessa luz
que nos toca.

Imagino teu corpo.
O céu se movimenta e usufrui
de teus joelhos vermelhos.

Flores que se queimam
em destroços de frases
menores que projéteis.

Penso em teu corpo.
Uso da rebeldia de tuas Unhas, tuas
Sobrancelhas, tuas Omoplatas,
teus Dentes teus Intestinos tua minúscula
possibilidade de amanhecer sem ruído
dentro de meus poemas e
retornar ao sono das brasas.
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Texto publicado originalmente em Invitro.

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O naufrágio

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por Daniel Baz dos Santos

a noite brotou seus teatros
vencendo nossa prontidão
esboço de castelo
na vertigem de um prato frio

a noite riu seus icebergs
camuflagem de distâncias
caldo de sonho
no azul das carnes

E eu, silêncio de incêndio,
baque fundo
de um corpo entrincheirado no escuro.
Sei que o chão não dá licença.
Nele naufragará a aurora.
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Texto publicado originalmente em Invitro.

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Mamilo

atualizado 28 outubro 2014 Deixar comentário

por Aléxis Góis

O gosto de teu mamilo
Não saiu da minha língua
Encheu a boca, pequena

Aquele charme, sinal
No canto de teu sorriso
Sobre a pele morena

O Cristo abre os braços
Para o nosso pecado
Ou só faz brisa serena?

A moleza come as pernas
O calor sobe o corpo
Estrelas caem supremas…

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