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Sancho de Brasília (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Sancho de Brasília e eu trocávamos uma ideia.

– Então você é jornalista – expressou ele.

Caminhávamos num dos pátios do Minhocão, o maior bloco de salas de aula do Campus principal da Universidade de b. (Essa nota, os leitores atentos também já conhecem.)

Neste instante, sou de novo interrompido pelo voo de memória:

– Então você é um jornalista.

A informação parecia lhe agradar, mas um capricho estilístico me fez corrigi-lo.

Retifiquei a fala do então recém-conhecido:

– Jornalista, não. Jornalista sem solução!

A correção pouco fez efeito:

– Ah, você é um cabra sem “solução”. Legal, legal.

Súbito, o vulgo Contrarregra cessa os passos e retira de um dos bolsos de uma calça social preta um diminuto pedaço de pão seco. Jogou o alimento adiante, na direção de um canto vazio e esquecido pela multidão.

Quando pensei em lhe dirigir uma fala de estranhamento, um, dois, três pombos aterrissaram do espaço sideral.

– Eles aparecem todos os dias – de bate pronto explicou-me o amigo.

Ficamos ali, ambos em pé, apreciando a disputa de bicos por um naco de pão sem valor comercial.

Perguntei-lhe pelo nome:

– E o seu nome, qual é?

Até aquele momento, eu não sabia que ele era Contrarregra, de fato.

Ele fez-se de surdo.

Nosso interlocutor observava os pombos com cara e gestos imaginados de Quincas Borba, o personagem filósofo de Machado de Assis.

Contrarregra estava aparentemente sedado de sono.

Percebi que ele estava ainda a acordar. Insisti:

– Qual o seu nome mesmo?

Numa amostra de palhaço, e com a língua estranhamente exposta e presa aos dentes, ele tascou:

– Contrarregra!

Realcei a minha cara de espanto e ceticismo:

– Contrarregra?! Tá de zoeira, cara!

– Tou nada! – ele me devolveu a zoação mal disfarçada.

Estávamos ainda na mira dos pombos siderais, que disputavam como urubus o café da manhã oferecido.

Já na condição cristalina de ex-projeto de galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois, Contrarregra resolveu ser ainda mais taxativo:

– Sou contra as regras, carai!

Pensei em dizer algo.

Apenas pensei na ideia.

O sujeito desembestou a falar:

– Sou contra… – disse-me, levando seu cantilzinho à boca.

Agora enigmático e explosivo:

– Sou contra essa porra toda!

Outro gargalo:

– Sou contra contra…

Num gesto de aparente solidariedade, Contrarregra me ofereceu um gole de sua bebida sem rótulo.

Recusei a oferta, explicando que eu havia acabado de tomar café no restaurante.

Repassei a palavra pro Sancho, que alternou um respiro forçado com outra bebericada.

Emendou a própria fala em voz alta de lunático pigarrento:

– Sou contra as regras, sou contra, tá ligado, sou contrrraaaaaaaaaa!

FIM

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Uma sala de aula incomum (parte 4)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O amigo Contrarregra deixou escapar um dito:

– Caaaara…

Ele costuma abrir a boca com a aparência de quem vai explodir:

– Caaaara…

Juro que, diante de tal manobra teatral, a sensação de espectador é a de alguém que subitamente vai presenciar um palhaço de circo sem circo arrotar uma sucuri de seu bocão de litro:

– Caaaara…

Com muito esforço, a sucuri… ou melhor, o vocativo daria lugar a um sentido corrente.

– … não gosto de etiquetas!

Seu modo de falar sempre me inspira um arremedo de falta de originalidade.

– Por que, Caaaara?

– Por que sou do contra, porra! – responde-me com ar de incompreendido.

Passado? Presente!

– Caaaara…

Ele agora se dirigia para sua namorada:

– Caaaara…

Antes de nosso amigo pensar em repetir seu bordão, entrei em cena com certo exagero:

– Caaaara de alho!

Os dois estalaram o zoião pro meu lado.

– Faaala jornalista sem solução! – o amigo me cumprimentou.

Em seguida, apresentou-me a mina.

– Mano. Tenha a honra de conhecer a Vagabunda! Suponho que ainda não a conheça…

Fiquei sem jeito. Engasguei com a saliva que eu já não tinha mais por causa dos últimos lançamentos de cuspes. Minha cara foi direto pro chão, num efeito visual de derretimento de face sem precedentes na história da animação de Hollywood.

– Vaga… bunda? – perguntei incrédulo.

– É, cara. Vagabunda!

Forçando um falso descontrole, ele passou a repetir:

– Vagabunda! Vagabunda! Vagabunda!

Estranhamente a moça ria com ar de aprovação, como se ela – justamente ao nosso lado – tivesse sensibilidade fora do normal.

Opa! Na verdade, ela acordaria pra vida na sequência.

– Calminha mocinho! – disse-me num tom de intimidade forçada. – É que eu faço parte do Femen… Tá ligado?!

Cara de dúvida cruel. Fui salvo pelo Contrarregra:

– Cara, o Femen, daquelas gostosonas que protestam pela TV com os peitos de fora, morô?!

Ah… Sim… Como é que eu não tinha pensado? Femen!

– Então, jornalista sem solução – disse-me Contrarregra, de bate pronto – vai rolar uma aula louca aqui no Subsolo, daqui a pouco…

O parceiro nem me deixou ter outras dúvidas. Emendou a fala, friccionando as mãos:

– E vai vir umas par aqui cara. Aproveita e fica ae. Perde esta não, porra!

Perde esta não, porra!

Era muita novidade pra minha cabeça. Literalmente, parei de respirar…

(continua)