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O embaixador do Raul Seixas na Citi (parte 1)

atualizado 7 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Passava férias familiares na minha cidade natal. Súbito, a morte de alguém conhecido me deixa indiferente, indiferente em relação à vida. Desta pra melhor foi-se embora o “reprê” ou o simbólico Embaixador do Raul Seixas na Citi. Morreu. Morreu numa noite de quinta-feira, atropelado na rodovia do estado, que corta o período urbano de minha cidade natal. O Embaixador do Raul Seixas na Citi morreu. Lembro-me: a cidade ficou em clima de luto. Morre um filho ilustre – os jornais noticiaram.

Acordo com a notícia, ou melhor, então me acordaram com um falatório de sexta-feira de manhã. Minha avó bradando aos quatro ventos, o Fulano de Tal morreu! O Fulano de Tal morreu! E têm certos idosos (alguém há de concordar comigo), têm certos idosos que falam um bocado! Não sei se por falta de assunto ou se pela natureza do organismo, pela língua solta! Falam tanto quanto uma criança eufórica quando acaba de ganhar um doce ou um presente de aniversário desejado. (Refletia, envolvido por um sono interrompido. Minha avó, em especial, adora como ninguém uma palavrinha falada – e eu sei que ela dificilmente vai ler estas linhas, por isso faço a ênfase. Mas, eu só tenho coisas boas a falar de minha avó materna, e que me perdoem outras avós falantes espalhadas por aí, a minha é a melhor avó do mundo de todos os tempos! E como fala essa minha melhor avó do mundo dos últimos tempos, como fala! Com dado talento, a veinha fala até pelos cotovelos.) A propósito: ouço minha avó no telefone:

– Cúmpadi Toninho… sabe quem morreu?!

O outro lado só ouve, eu suponho.

– Então, o filho da dona Olinda… é… foi atropelado no asfalto nesta madrugada… Isso…! Perto do Posto Pioneiro.

Madrugada. Por falar em madrugada, no momento em que eu ouvia a conversa de minha avó ao telefone, era quase sete da manhã; digo, era madrugada de uma data religiosa, feriado cristão. Estirado em minha cama, no quarto, então acordado, sem resistência acompanho a narrativa sobre a morte do Embaixador do Raul Seixas na Citi, o popular Fulano de Tal. Minha avó na sala, novamente. Outro telefonema:

– Cúmadi Fátima… sabe quem morreu?!

De repente, me vem à memória a última lembrança do Embaixador do Raul Seixas na Citi. Curiosamente, eu esbarraria com ele dois dias antes de sua data cabal, algumas horas antes de sua entrada para a posteridade. Como a vida é fugaz, Fulano de Tal?!

Refleti. Qualquer pessoa viva pode ser vista como um defunto em potencial; a vida e suas armadilhas. Fulano de Tal, o maluco de mais uma lucidez pouco reconhecida ou não pelos críticos citadinos. Grande Fulano de Tal! Aliás, Fulano de Tal? Por qual motivo o chamamos de Embaixador do Raul Seixas na Citi, então?!

(continua)

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Previsões astrológicas

atualizado 6 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Quem é que tem coragem de admitir em público que acompanha previsões astrológicas? Eu, por exemplo, (só) dou crédito para o Quiroga. Ao menos antes de me tornar um jornalista aposentado, eu passava quase todos os dias na Câmara de Vereadores da Citi (a minha obsessão de cidade natal), para consultar a edição mais atual de jornaleco de Família do cavalinho. Ops! Eu quis dizer… que eu passava? Isso, eu passava, eu lia eu rezava.

Dentro da chamada “casa do povo” citadina, havia (e creio que ainda há) uma cabine de vidro que oferece existência à recepção. Ainda posso ver uma cena: de uma fresta surge um sorriso sempre bem apessoado pra afagar os visitantes; do outro lado da repartição transparente, duas ou três servidoras de narizes amigáveis. Entre elas, se posicionava a liderança e a experiência de Dona Ivoninha – curiosamente, é a mesma pessoa que foi minha professora na quarta série. Transporto-me então para aquele retrato remoto:

– Dona Ivoninha, posso ler o jornal?

– Claro, fio, pode ler.

Dona Ivoninha sempre usava o mesmo recurso verbal. Sim, eu também fazia a vez do meu jogo de palavras. Quando não falava, minha ex-professora de Estudos Sociais sugeria um aceno positivo com a cabeça. Claro, fio. A sua interlocução sempre ressurgia em meu imaginário como uma mensagem pessoal e amiga:

– Claro, fio, pode ler.

Valia-me de uma rotina. De segunda à sexta-feira, variavelmente entre as 12 e 13 horas, eu propagava a minha condição citadina de leitor de jornal – muito antes de eu pensar em ser um velho ranzinza – nas dependências da “casa do povo” local. Quem não me conhece (eu imagino), deve pensar que eu era (ou que ainda sou) um “desocupado social” ou quem sabe o quê ou mas qual, fio? Se bem que… na casa do povoda Citi, os desocupados sociais também são eternamente bem-vindos!

Assegurava-me: o povo citadino, sempre muito bem servido este povo citadino. Na legislatura de 19 lá vai bolinha, inclusive; quero crer ainda que a Câmara da Citi foi e é, por excelência, a “casa do povo”, e estará sempre aberta para a comunidade em geral! Este jeito de falar, aliás, é mais que um “lugar comum” no universo dos discursos de políticos tradicionais, que eu reconhecia nas páginas de um jornal.

Aliás, agora mesmo me vejo em direção a um jornaleco, o diário conservador que não fica em cima do muro. Minhas mãos então pinicam de ansiedade para tocar o caderno de Política, o de Esportes e, é claro, o de Cultura.

Em segundos estou com o jornal na altura do nariz, compenetrado nas últimas fofocas de Brasília; numa passagem rápida, cuido também das manchetes sobre futebol; por fim, vou pro pouco sisudo Caderno B. Disfarço que estou lendo uma resenha crítica.

Só recobro a normalidade da mente, quando termino de ler a pré-visão de meu signo.