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Uma cidade

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por Luiz Augusto Rocha

plantas paus pedras planícies
pobres putas padres pastores
proprietários propriedades políticos palanques
pastos prédios placas praças
polícias pobres policiais putas
políticos padres palanques pastores
proprietários plantações propriedades planícies
palacetes prisões palafitas posseiros
paratis pitos parangas parasitas
professores profissionais passageiros poleiros
passantes pistoleiros pagantes prisioneiros
pretensões possibilidades palavras
pessoas

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Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Cidade não tem vírgula

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por Nina Alencar Zur

Uma brisa entrou pela janela que esquecera aberta. Brisa gelada que fez se mexerem os papéis picados sempre perdidos na estante do quarto. Havia versos mal dormidos naqueles papéis, e as palavras exalavam um cheiro antigo de tabaco. Na solidão de uma madrugada, só mesmo brisa gelada acorda as palavras. A brisa e o papel picado eram os próprios versos pisoteados de um bêbado.

Quando eu puder abrir os olhos, meu bem

Quero ser como você

Nada enxergar

Só tropeçar nas ruas

Ruas de luz do luar

Quando eu puder abrir os olhos, meu bem

Quero poder abrir os braços

Era uma noite fria como outra qualquer, sem grandes promessas. A meia estava já na metade do pé, quase a se perder pelo cobertor. Por um triz. Quando não há promessas, é por um triz que não há. Como versos deixados de lado. Levantou depressa para fechar a janela que esquecera aberta, ainda com gosto de tabaco e vinho na boca.

Do outro lado da cidade, também dormia um falso poeta. Naquele momento, um corpo no chão e nada mais. Um corpo e o cheiro de merda. Há dias andava sem rumo, com lapsos de entendimento, como se o estado de amargura fosse eterno. O cheiro de merda também parecia eterno a se perder pelo ar. O cheiro alargava, mas as tragédias continuavam presas no peito. As tragédias todas de um homem se medem pelo tamanho de seu silêncio. E ele dormia em silêncio. E tremia de frio em silêncio. O sonho falava.

Tinha o caminho no meio da vida

Tinha um bar no meio do caminho

Tinha o desejo no meio do bar

Tinha o não no meio do desejo

Tinham passos no meio do não

Tinha o medo no meio dos passos

Tinha a fúria no meio do medo

Sons de passos apressados acordaram o falso poeta. Não tinham rosto nem perdão, eram passos sem olhos. Ele sentia vergonha. Cobriu o rosto com a camiseta cheia de furos que vestia, mas continuava sendo aquele corpo cheirando a merda no chão. Virou-se, respirou fundo e voltou a dormir.

Pela manhã, a cidade não era cheiro e poesia. A cidade era gente. Não havia falsos poetas atravessando as ruas. Quem atravessava as ruas, escapulia dos carros. Escapulia dos carros como escapulia da fome. E a barriga roncava. Os motores roncavam. Cabeças para os lados e corpos correndo. De manhã, cidade não tem janela aberta. Cidade não tem vírgula.

Porra quase me atropelou desgraçado se eu tivesse esse carro faria um estrago. Se eu tivesse a grana dos cara eu dava churrasco na favela todo domingo comprava geladeira pra mãe levava a mulher pro rauái e tinha uma penca de filho. Porra se eu tivesse a grana dos cara eu ia viver do funk abrir uma escola de música fazer um cinema no morro e dar uma moral no visu. Ó o cara ali me olhando feio de dentro do seu carrão tá parando na frente do shops vai comprar uma gravata nova e fingir que esqueceu da culpa. Ó o cara ali saindo de gravata nova ele apareceu na tv dizem que é deputado e faz as leis do país e shops e latifúndios e igrejas e bancos e no morro ele bota a culpa que fingiu que esqueceu. Me larga dotô não fiz nada só olhei pra sua gravata ela é istaile agora olhar é crime também foi ele quem disse ele quem fez a lei. Me larga dotô eu sô di menó melhor ainda vai logo pra cadeia antes que olhe demais di menó agora vai pra cadeia foi ele quem disse ele quem fez a lei.

O sol atravessava a janela do trem lotado

E o útero de Ivone ardia

O bebê de Ivone chutava

E um lugar ninguém cedia

A humilhação atravessava a janela do trem lotado

Cafécompãobolachanão, cafécompãobolachanão, cafécompãobolachanão. Bom dia, senhoras e senhores, pra aliviar um pouco essa viagem e fazer do seu dia um lindo prazer, temos aqui balas Mentox, paçoca Mineira e chicletes Bom de Mascar. Tudo isso por apenas um real o pacote com os três, e se você quiser ajudar o amigo aqui, senhor, também estou vendendo o DVD do Muleque Bom de Samba, combina com o chiclete e custa apenas cinco reais! Obrigada, senhor, com licença, senhor, desculpe, senhor, licencinha, senhor, preciso passar, senhor, estou trabalhando, senhor.

Ivone sai do trem e corre para o banheiro da Central

A paçoca Mineira incomodou o bebê

O banheiro da Central incomoda o bebê

Bate o meio dia no relógio da Central

Bate o meio dia no útero de Ivone

Meio dia: bolsa que rompe

A vida teimava naquele jeito de seguir-sem-seguir, arrastando os sonhos como arrastava água de chuva pelas ladeiras. Os sonhos eram como água de chuva. Uma coisa sem sentido que existe-porque-existe. Sonhos sem fé nem pecado. Sonhos que perdiam os sonhos. Tudo acontecia como tinha de ser na cidade, sem surpresas em suas horas. Bolsas que rompem, janelas abertas, corpos no chão, meninos sem vírgula, passos sem olhos, promessas perdidas. A cidade era uma promessa perdida. E a gente caminhava pelas calçadas vendo o sol ir embora com a dor de uma perda. Sol também é promessa que se perde e ganha todos os dias.

E o menino sem vírgula corria sem vírgula pelo chão onde jazia o corpo do falso poeta. Sentia o cheiro de merda que se perdia eterno pelo ar. Porra esse cheiro aqui tá igualzinho ao do banheiro da Central pelo amor de Deus achava que não ia mais sentir essa porra hoje que que eu fiz pra merecer isso. E uma brisa gelada atravessou o menino e, do outro lado da cidade, acordou os versos sempre esquecidos na estante do quarto.

Tinha um poste no meio da fúria

Tinha a vida no meio do poste

Os passos do menino sem vírgula tinham olhos e viram a vida do falso poeta no meio do poste. Quando não há promessas, é por um triz que não há. Caralho,,,,,,,,,,,irmão.