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Clímax

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por Daniel Baz dos Santos

Numa mesma etapa de chamas
nossa pele é um dia áspero.
Fora de teu corpo, um chão
que já não se cria nas vozes das frutas
também não aclara as carícias,
com as quais te ofendo.

É que nos esquecemos de voar
ocupados com outras verdades.

Instauramos a carne.
Polpa enfurecida
que aproveita o aço
e gorjeia o pão.

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Um chão de fotocópias de Michel Foucault

atualizado 24 fevereiro 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Por incrível que possa parecer… a minha primeira sobrevida no dito espaço de recolhimento aconteceu no terceiro mês de sucessivas meditações. Uma experiência que me faria lembrar o real motivo que me fizera retornar a uma reclusão da sociedade. Eu viveria de novo este episódio de refluxo, após amargar o chão de um jardim cheio de fotocópias de textos de Michel Foucault. A pessoa que viria a me socorrer de uma súbita convulsão…?  Ela se assustou ao perceber um vácuo na região de meu peito. Isso, até eu havia me esquecido do tiro de silêncio eterno de que eu fui vítima no verão passado. Foi uma frase curta, a garota que eu amava se… num gesto simbólico de autossuficiência; fiquei sabendo por uma mensagem de texto depois de passar quatro semanas pescando cascote às margens da Lagoa dos Patos, em São José do Nortchê. Creiam: depois desta mensagem de fim de vida surgiu um túnel de cinco polegadas de diâmetro a atravessar o meu esqueleto de um lado pro outro.  A citada socorrista, sem saber deste histórico e quem sabe ela dona de outra absurda dor existencial, ficaria em estado de choque por me ver e não entender o milagre que me fazia ficar em pé antes da queda no quintal da casa de recuperação. Caí com uma camiseta pirata do Nacional do Uruguai… Minto. Eu estava sem a camiseta. Eu a retirei do corpo num ato de mística premeditação. Pressenti um antes vivido, um eu conheço este vento batendo no rosto. Desta vez, não teve bacia de alumínio cheia de pipoca nem tv ligada no desenho animado de uma manhã de segunda-feira. Recordo-me de um passo em falso repetido neste futuro de adolescência, minha língua rodopiando sem música de fundo na borda fria de minha boca roxa. (Quem já viu ou já vivenciou uma convulsão sabe ou pode medir a gravidade do desgosto.) Língua em espiral. Saliva escorrendo no queixo. Uma falta de ar cruel. Faltou-me vida naquele momento de flerte com uma sensação de morte. Enquanto uma multidão de internos foi-se juntando ao meu presente feito outrora biquiabertos alunos de ensino médio de uma escola pública, a interna que viera em meu socorro, a esta altura uma famosa por não me socorrer coisa nenhuma, insistia em repetir com a fala gritante de quem nunca levará jeito para integrar uma corporação de soldados bombeiros: Mas ele tem um buraco enorme no peito, gente…! E não sangra…! Buraco…! Peito…! Não sangra…! Geeente…! As últimas palavras da desengonçada chegaram-me telegráficas nos ouvidos – nos moldes do século XIX. Um clic.

Outro clic. Acordei horas depois com uma vontade insuportável de chorar, numa cama de uma sala de atendimento médico onde fiquei respirando como um franco objeto de observação.

A primeira e a última sobrevida, a gente nunca esquece.

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Inspirações de um subsolo (parte 6)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

De repente, Régis desce, digo, sobe num sofá, e sem perder a referência de uma cena passada, grita diante de Batata e eu:

– Viva Camões !

Sim. Régis inventa um sofá pra subir e um poeta pra reverenciar, sobe, sobe sobre o próprio esqueleto como quem não quer mais descer pra junto dos meros mortais.

Há um sofá na sala sem publicidade.

Que mais uma verdade seja reconhecida.

Há um sofá, onde agora Régis pula feito doido.

Ih! Eu não disse em episódios anteriores que o Subsolo é a representação de uma doidolândia?

Régis pula feito uma criança sobre molas, quase literalmente.

Salta dos próprios pés como se saltasse de si.

Salta com uma providencial garrafa sem rótulos numa das mãos.

Batata e eu só na pretensa observação científica, paralisados por uma recente descoberta.

– Seus panacas!

Sim, fomos chamados gratuitamente de panacas.

– Seus vassalos!

Sim, recebemos a pecha medieval de escravos de senhor de terras griladas.

– Seus bichas!

Régis nesta parte viajou. (Risos…)

– Régis?!

Batata tentou falar, lhe chamar ao sentido.

Mais de uma vez, tentamos.

Régis? e nada.

Pela falta de resultado, notei Batata prestes a explodir num riso sem nexo.

Não por menos. Eu já estava com cara de curinga hollywoodiano; certamente com o rosto marcado de linhas de gozação deformada.

Régis?! Régis bebeu além da conta.

Aliás, Régis ainda bebia; parecia não querer parar.

Nosso herói preto levava repetidamente a garrafa sem rótulos na direção do próprio bico.

Glóglógló ou algo do tipo, até travar no intervalo de um salto.

Podemos até imaginar a bebida descendo em goles seguidos, rasgando a garganta do felizardo.

Régis então começa a se movimentar lentamente, travando como se tivesse sem graxa nas juntas, enquanto nosso olhar sai do padrão de estilo numa louca ação sincronizada, certamente nosso herói preto percebe-se num desligamento de si, lembra-se talvez da imagem de sua mãe lhe dando um presente caro de aniversário num dado período de sua infância ou de um professor a lhe dar um “C” em Matemática, ele já preso aos movimentos picados de sedação provocada, numa cristalina fuga da realidade, refém do álcool que lhe toma as veias, Régis já não estava ali entre nós, Régis já não ouvia a si e nem aos seus, seus olhos dormentes, seus ouvidos fechados não souberam das vozes e dos braços a lhe esticar um iminente socorro amigo, auxílio que Régis já não pôde traduzir de forma menos mecânica, quando certamente percebeu-se em movimentos convulsivos, ele num fechar de olhos de uma queda marcante, esparramando-se do sofá direto pro chããããããããão.

(continua)

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Posso quebrar

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por Daniel Baz dos Santos

Posso quebrar
como o aroma doce dos shampoos
e os azulejos do sonho

Posso quebrar
como a brisa que se alojou nas flores
e o rio de fora do azul

Posso quebrar
como as antenas envergonhadas
de não estarem guardadas
como o osso fino de um murmúrio
e a ordem natural das coisas

Posso quebrar
como o inverno traído
em busca do sangue das almas
como o pequeno felino
e seu horizonte exagerado

Quem quiser cuidar de mim deve saber
que é um desaproveitamento
que me quebro como poeta
Os alicerces da palavra me atravessam
racham meu chão,
rangem minhas tintas,
e as horas despencam
me desperdiçando
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Observações de um forasteiro

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por Luiz Augusto Rocha

Nesta terra movediça,
abrem-se fendas no chão,
por onde saem cavaleiros.

Arautos de si mesmos,
contentes da condição
precária e medíocre.

Arrogam-se o direito inalienável
de comer o que sai da terra,
de beber a água do rio.

Querem convencer a todos
de que o esterco não fede
e que tudo vai bem.

E vão às suas igrejas –
fervorosos cristãos –
para agradecer suas bênçãos.

E tudo continua fedendo.
Passam perfumes,
mas, sabemos que continua fedendo.
______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.