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Feito heróis de releituras de Jack Kerouac – cap 32

atualizado 17 maio 2018 Deixar comentário
Renato Renato e Don Julito, respectivamente em tráfego pela Ruta 18

 

por Renato Renato; colaboração de Aléxis Góis

Trafegávamos em linha reta, uma reta que parecia não ter fim, depois de termos enfrentado instabilidades e após perdermos metade de nosso mapa-guia. Na estrada, feito simulados heróis de releituras de Jack Kerouac. Sentíamos na pele um mormaço vindo das margens da Ruta 18. No contraste, um sol de final de tarde a bater forte por sobre as nossas cabeças ou por sobre a lataria avariada de El fuca blanco. Explícito excesso de luz e de calor, e nosso veículo abrindo caminho num descomunal horizonte azul celeste. A esta altura, o relógio marcava algo em torno de 18 horas de uma tarde de domingo, 1º de janeiro de 2014. Estávamos a cruzar uma linha imaginária que separava os territórios do Departamento ou Província ou Estado de Cerro Largo e do vizinho Departamento de Treinta y Tres. O céu, que parecia bem baixo, fez ligação com o horário de verão deixado há poucas horas em solo brasileiro; praticamente não havia diferença do clima das 15 horas, horário corresponde ao momento de nossa partida em Jaguarão, com a posterior sensação térmica que lembrava esferas tropicais. Com uma previsível ameaça de por do sol que em algum instante iria acontecer, Julinho pisou fundo no acelerador e segurou firme com a mão direita uma destacada quarta marcha ao longo de uma dezena de quilômetros rodados. A quarta marcha, os leitores caronistas que nos acompanham desde capítulos anteriores sabem, não permanece engatada na caixa de câmbio. Por isso, ao perceber o parceiro de aventura cansado de tanto segurar o câmbio, me solidarizei com ele e, num movimento combinado, passei a segurar a quarta marcha com a minha mão esquerda. “Agora sim…”, Julinho deixou escapar um suspiro de alívio. Sua ficha demorou a cair para a liberdade de seus braços junto ao volante? “Agora sim…”, devolvi-lhe a frase sem bom humor. A partir de então, senti nos nervos do braço uma pulsação conectada com o ronco chamativo de um motor recém-reformado; uma baita responsabilidade a tarefa imposta. Meu ato de revezamento, fez com que el condutor ficasse momentaneamente com as suas mãos livres e alegres no entorno da direção do veículo.

(continua)