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De um sol de espantar mosquitos e pessoas brancas (parte 2)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

O julgamento de um impassível?

Pela falta de ação, o namorado deve ter cometido algo grave em relação à moça.

Algo mais grave do que a mentira mal contada?

Na falta de precisão, imaginei um zilhão de coisas.

Imaginei o prenúncio de um acabamento passional.

A dez metros de um banco encardido, em outro banco encardido, e debaixo de uma árvore com sombra falhada, eu projetava o fim de um relacionamento numa seção de jornal barato.

A namorada então senta, respira, senta e cruza as pernas, sufoca a visibilidade de sua emoção.

Involuntariamente ou não, notei a cena por um hábito de descrença diária.

O rapaz mudou de lado, escondeu-se do sol.

Sentou-se, por que filho de Deus que se preze senta, abaixa a cabeça e conta os rosários.

Ela, de lado; ela ainda resmungando.

Ela com as duas mãos a cobrir o rosto de choro incontrolável e pintado de decepção. (Nesta passagem eu exagero, me perdoem.)

Uma prova de que o rapaz fosse mesmo um notável cafajeste, um Jece Valadão do século 21?

Como se a moça lamentasse a suposta pisada de bola do rapaz, ali, diante de outros passantes.

Passantes que, sem cessar os passos, respeitavam os personagens ou fingiam não vê-los.

Passantes que iam e viam, ora na direção de uma biblioteca, ora na direção de um mezanino.

O mezanino norte do Minhocão, o maior bloco de salas de aula da Universidade de b.

A nossa falta de áudio continuava…

Um palco sem degraus. A curiosidade sobre um possível desfecho inimaginável aumentava na proporção inversa em que diminuía meu interesse de leitura por uma página qualquer de um livro teórico, leitura lenta ou arrastada por um habitual sono pós-refeição no R.U., vulgo Restaurante Universitário.

Ali, na mira distante de nossos personagens, num contorno de cotidiano.

Uma obsessão de realidade. Quem sabe, os dois, de propósito, provocavam a atenção gratuita das pessoas?

Uma troca de gestos à la cinema mudo. Isso, uma cena tipo Charles Chaplin.

Minutos depois, após secar o rosto num lavatório próximo, dirigi-me a caminho da biblioteca.

Agora na posição simbólica de um reles passante, noto de novo o casal de namorados.

Os ditos personagens de cinema mudo, neste instante, estão felizes.

Felizes?! Isso. A moça no colo do rapaz.

O rapaz – vai saber? –, contorcendo-se por uma irresistível sensibilidade de pobre mortal.

Ambos, agora visivelmente renascidos com o giro da vida.

Aos risos.

FIM

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De um sol de espantar mosquitos e pessoas brancas (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Todas as culpas e dores, todos os caprichos e fatalidades da humanidade ficaram de lado naquele momento, naquele momento, a moça gesticulava com os braços, em pé, possessa, descontrolada, diante de um rapaz, ela vociferava, vociferava repetidamente, vociferava como a expulsar de si uma incompreensão de então namorada despeitada com o namorado; de longe, era notável, de longe via-se nitidamente que a moça levava o dedo em riste pra ponta do nariz do outro, que impassível se postava com as mãos na cintura, tão impassível quanto alguém que, questionado por um suposto desvio de conduta, não tem argumentos a apresentar.

Imaginemos um erro.

Imaginemos uma falha.

Imaginemos uma bola fora.

Imaginemos uma escorregada numa escada.

Imaginemos um caso único de depressão súbita ocasionada por uma pane nervosa vindo diretamente de Marte.

Após um erro, após um vacilo, após uma reconhecida cravada nas costas da amada.

Amada que, até a semana passada, recebia flores vermelhas.

Amada que, até a semana passada, ouvia palavras doces.

Amada que, até a semana passada, sentia toques zelosos no entorno dos lábios.

Aquela imagem, à distância, juro, à distância dava para imaginar coisas mil.

À distância, num primeiro momento, quando os vi…

Quando os vi, pensei que fosse uma representação teatral à luz do dia.

Mas não, não?

Os dedos insistentes em riste daquela garota continuavam.

O gesto não suscitava intervalos de um ensaio.

Sim. Supus que ele fosse o amado daquela amada. Minutos de gestos repetidos me fizeram ter a certeza de um lunático diante de uma descoberta ocasional que só ele pode notar, sentir ou reproduzir, a certeza de um instintivo direito de posse de uma pessoa sobre outra, admitido em público.

Era uma altercação sem o peso simbólico de um áudio promocional.

Era uma discussão descontrolada.

Uma sequência de chiliques reproduzidos em excesso.

Um rompante de vida social numa das praças de convivência social da Universidade de b.

Em pleno sol de meio dia, aquele sol de cinco metros de altura, a partir de nossas cabeças.

Naquela lua, num sol de espantar mosquitos e pessoas brancas.

– Porque você é um cretino – tentei colocar um pouco de volume naquela máscara feminina.

Enquanto isso, o rapaz fazia cara de falsa surpresa.

Enquanto eu coçava o ouvido, o rapaz supostamente admitia falta de memória.

Ou melhor, enquanto o rapaz ouvia uns palavrões, sua amada se segurava para não saltar em sua garganta.

Ela, no seu limite aparente!

Ela, prestes a saltar nos olhos do outro com unhas e alfinetes.

O rapaz, a esta altura, um suposto canalha vendido.

O rapaz deve ter pensado consigo, deve ter sido mesmo uma mancada minha!

(continua)