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Uma figura de gabarito político

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No cais; um descarregamento de redes para pescaria em alto mar

por Jose Mochila

Só quem me conhece sabe de minha real religiosidade. Talvez seja por isso que eu já tenha transformado o cais de São José do Nortchê numa espécie de confessionário periódico. Ao menos, não perco a chance de repisar naquele espaço onde dezenas de pessoas costumam pescar, onde embarcações descem âncora na chamada prainha, onde o horizonte nunca se repete nos finais de tarde, onde sempre há um personagem novo para ouvir. Outro dia foi Seu Levi, depois o Espanhol. Ops, ainda preciso falar de Roberto, o espanhol que há quase dois anos, casado com uma moça nortchense, vive em nosso cenário de mundo. Mas aí surgiu o Seu Jair, um típico pescador da região, que seria ima para uma figura de gabarito político.

A figura de gabarito político, e de inscrição de suspense proposital, surgiria no meio de uma conversa sobre pescaria com Seu Jair. Este me contava suas experiências em mar aberto. Meia hora só do relato de certa madrugada quando um cargueiro quase passou por cima da embarcação que ele compunha com uma tripulação de oito ou nove companheiros. “Mais de quinze dias em mar aberto.” “Quantos quilômetros daqui, de onde nós estamos, até lá?” “Rapaiz”, ele disse numa voz fina pronunciada por uma abertura alegre nos dentes, “não é quilômetros, não, é hora”. Em outras palavras, os lugares de pescas marítimas são tão longe que ficam a horas de distância. Compreendi. Neste ponto, devo confessar o porquê de minhas últimas incursões ao cais local: estou louco para pegar uma carona numa pescaria em mar aberto. Seu Jair, o pescador, não sabia como me indicar uma solução imediata. Receptivo, o nosso mais novo amigo não deixou de me convidar para conhecer a praia de água doce nas imediações de sua residência, no fundão da Lagoa dos Patos, a mais ou menos 17 quilômetros da cidade. “Ah, o senhor mora ‘lá fora’”, reproduzi um modo de dizer típico. Ah, sim. Uma hora de prosa até a anunciada figura de gabarito político se aproximar. Um ex-vereador! Friccionei as mãos sem que ele percebesse. Sem ansiedade alguma, eu disse que era um periodista. Na verdade, nem me apresentei direito, a figura de gabarito político entrou na nossa conversa. Seu Jair acionou o dedo indicador com tom de salvacionismo. “Ele é dono de barco!”. Nada mais a propósito, eu pensei. Era tudo que eu precisava! Não demorou, eu já me senti à vontade para perguntar: “Como é que é… é difícil de pegar carona no seu barco?”. Para minha surpresa e instantânea felicidade, “não é difícil”. Nem precisei destacar que planejo escrever uma grande reportagem numa viagem de pescaria à deriva no mar? Eu já tinha o convite garantido. “A viagem pode ser em feita no mês xis?”. O barco da figura de gabarito político havia zarpado na data anterior. “Agora a tripulação fica no mar por quinze dias”. Nesta passagem, pensei em citar uma obra conhecida de Hemingway, mas a figura de gabarito político não me pareceu versada em literatura. Do que o prezado entende? Ué, entende de política. Quatro mandatos no legislativo. Só não foi reeleito na última eleição, porque não disputou. “Quatro mandatos!”, repetiu a figura de gabarito político no meio de uma fala minha, “e a cada eleição sempre com mais votos”. Vocês não vão acreditar: o sujeito me pareceu modesto. Recuperado de um problema de saúde, a figura de gabarito político planeja uma volta para o próximo o pleito. “Para prefeito desta vez?”. Com um pouco mais de sessenta anos, nosso amigo fez suspense… e em tom de contista, tascou: “Quem sabe?”. Na direção do outro: “Aprova, Seu Jair?”. O futuro candidato, que também é produtor de cebolas no município não deixou por menos: “O Jair sempre foi meu eleitor, não é Jair?”. Seu Jair ganhou um afago num dos ombros, antes de uma confissão efusiva: “É!”.

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Conversa de pescador

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No cais; a tarrafeada de Seu Levi

por Jose Mochila

Deixei meu trabalho de revisor de textos de lado, e saí pra rua. Antes desci as escadas do prédio onde me encontro hospedado; desci calmamente a escadaria em espiral, segurando firme no corrimão a cada passo cedido. Saíra atrás de um almoço. Era quase 17 horas. Um belo final de tarde de sábado. Na verdade, descobri que era final de tarde quase num susto. As leituras de textos me ocuparam tanto a cuca, que eu me perdi no curso do tempo. Entre um gole e outro de vinho barato, eu trocava uma palavra por outra, mexia num vocábulo mal digitado, suprimia uma frase repetida, acrescentava um termo retórico. Ou melhor, eu não bebida vinho enquanto revisava textos de uma encomenda periódica. Este hábito ocorre só no inverno. Nesta época do ano, eu praticamente bebo só cerveja. Como se diz em botecos brasileiros: uma breja trincaaando de gelada, por favor! Meus leitores, assim, podem imaginar o porquê de meu andar poético pelas ruas e calçadas irregulares de São José do Nortchê.

Tchêêê, quase me esqueço de meu vício de linguagem. Afinal, sou gaucho ou não sou? Gaúcho, não. Gaucho! “Mi Mariscala querido / cuando yo te vuelva a ver”. Porque a minha paráfrase preferida vem do outro lado da fronteira, embora não alimente fronteira alguma. Não vejo fronteiras pros meus passos. Das margens de uma lagoa, eu também não vejo limites.

Era pra eu procurar um restaurante, mas eu acabei rompendo o sentido de mundo e o ronco no estômago. Adelante? Pra não admitir que não há limites na vida, achei um. Limite físico, claro. Parei de andar nas imediações do cais local. O cais do porto? Não via nem possuía informações no momento para afirmar se uma base de concreto no formato de L ou U, infiltrada nas águas, pode ser chamada de “cais do porto”. Afinal, não é bem um porto que vejo. Apenas um local onde pequenas e médias embarcações atracam. Mas eu, admitindo a ignorância, resolvi tirar a dúvida com uma testemunha. “Como chamam este espaço, senhor?” À queima roupa, um homem com aparência de 60 anos de idade hesitou em me dizer, mas me disse: “… é o cais”. Seu Levi estava pescando com uma tarrafa naquela tarde.

Conta outra, Seu Levi? Apontando o indicador da mão direita em várias direções: “Ali e ali, tem um navio afundado”. História de pescador, Seu Levi? Seu Levi riu de minha fala direta.

Admito, não o chamei de Seu Levi. Levi, o pescador. E apenas Levi. Mesmo assim, mentalizei o vocativo: Seu Levi? Levi, eu saberia ao final de uma conversa de um pouco mais de quarenta minutos, é natural da cidade de Laguna, em Santa Catarina. Ele mora sozinho desde outubro passado em nosso cenário de mundo. Trabalha como montador em um dos estaleiros que constroem plataformas para extração de petróleo bruto no oceano. Preferiu morar em São José do Nortchê, e não na vizinha Rio Grande. “Lá é barra pesada. Só este ano morreram 55 [pessoas]”, me disse em tom de repórter policial. Seu Levi levaria para casa, como prêmio, se não estou sendo pescador como ele, 9 tainhas, 5 corvinas, 6 papa-terras, 3 linguados e 5 siris. Sem que Seu Levi soubesse, eu pescava dele uma entrevista informal. “Jose Mochila, direto do cais de São José do Nortchê, pa-ra Diarios de Mochila!”.