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Um retrato às margens de

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Pátios sem pisos.

A libertação de todos os nossos fantasmas.

Sem aulas? Recesso escolar? Greve?

Já não havia mais fofoca alguma às margens do Lago Paranoá.

A graça do cotidiano deu lugar a uma máquina sem organismo.

Qualquer sinal de vida que surgisse, ali, naquele abismo visual, podia causar uma explosão.

A Universidade de b. como uma franga depenada, sem plumagem, sem patas.

Diante de nossos olhos míopes, aquele quadro sem molduras.

As salas de aula fechadas, sem numeração definida.

Os corredores vazios, por estarem vazios, os corredores já não eram como antes.

Guichês sem os chefes de departamentos…

Todos fugiram para o Serrado, meu Deus?

Qualquer pergunta falada naquele momento seria interpretada como um monólogo inútil.

Onde foram parar os universitários e universitárias de b…,meus brinquedinhos?

Sem mais interrogações, os velhos personagens vagaram numa clima de deserto, apostei.

Mesmo. A esta altura, a recordação é de um lugar distante de nós.

Vejo agora um copo de caipirinha cair nos pés de um desconhecido. Seu chinelo de dedo melado fica com o súbito retrato de falso vômito. Um acidente. Testemunhei precisamente um sujeito que não consegue controlar os próprios braços!

Longe de pesquisadores complexados, a reportagem sem solução chega a um boteco sujo e escondido do sol, localizado numa cidadezinha ao redor do Plano Piloto. Chamam-na de cidade satélite. Talvez, para que os desavisados pensem que Brasília é como um planeta. Ou o centro do Universo. Ou a puta que pariu!, a saltar da língua de um indivíduo num instante de tensão.

– Vai querer o quê?

Domingo. Era responder ou responder.

Desejaria uma boa canção: letra modesta e som marcante; assim, eu não pensaria além da conta.

Que tal um poema de Bandeira? Parei de imaginar coisas.

Faltava-me uma passagem só de ida pra Pasargada.

Olhei pra cara oleosa do vendedor, travestido numa camisa cinza desfiada na gola; um sujeito com semblante pardo e preso a um olhar supostamente parado no tempo:

– Um vinho barato, por favor!

Pedi a bebida do sul do país, sem notar que estava mesmo fora de órbita.

No sul do país, a bebida é o vinho.

No sul do país, os vinhos baratos são bons.

Lembrei-me do Sul e da mania por emancipação federal dos sulinos.

– Quase ninguém bebe vinho por aqui – um sujeito ao lado cortou meus pensamentos.

Ameaçaria algumas palavras, mas sou logo contido pela falta de tempo pra reações.

A solidão é o verdadeiro senhor da razão!

É. Boteco é mesmo um espaço apropriado para filosofias.

– Aqui o pessoal só bebe cachaça – eu ainda tive que escutar.

Pra ser verossímil com o acontecimento, eu ainda tive que ouvir coisas a mil.

Abreviei-as. Um choque de civilizações, outra linguagem!

Outra realidade, outro modo de falar:

– A cachaça vem de Minas – fui devidamente informado.

Quem enxerga bem, seja onde for, pisa firme no chão e reconhece o solo onde está pisando.

Fiquei na dúvida, se era mesmo o meu caso.

O sujeito ao lado logo nota a minha cara de poucos amigos.

Observo-o sem intimá-lo, evitando um sabe-se lá o que pode acontecer se eu encarar muito.

O sujeito tinha a cara do vendedor.

Neste boteco, quase todos se parecem com o vendedor, logo deduzi.

O sujeito ao lado sorve fundo um gole de bebida de um clássico copo americano.

Nosso vizinho de mundo rememorado bebe como quem experimenta um remédio conhecido e apreciado diariamente, produto comprado sem nota fiscal e sem a necessidade de prescrição médica.

– Esta cachaça é da boa!

Da urgência do outro de ser visto publicamente, uma espiada atravessada.

Arrisquei-me com uma retratação.

A imagem daquele sujeito lembrava-me a de outros vizinhos!

Era a falta do que fazer.

Era a busca por uma razão de ser.

Era um conflito por reconhecimento pessoal.

Meu copo de vinho então cravou no balcão.

Ouvi um tlim.

O vendedor perguntou se eu queria mais alguma coisa?

O vendedor perguntou-me se eu queria mais alguma coisa.

Era o que eu queria; não necessariamente o que eu precisava.

– Este vinho é uma porcaria – ouvi mais uma manifestação crítica do sujeito ao lado, justamente no momento em que eu me preparava pra bebericar o pedido.

Cessei os movimentos.

Virei o rosto lentamente.

Fui logo aconselhado a experimentar de vez a dose:

– É barato mas é bom, manda ver, cara!

Depois desta, percebi que o sujeito ao lado queria mesmo conversar.

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Sancho de Brasília (parte 1)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Após trinta dias no piso santo da Capital Federal, fiz uma amizade camarada.

O parceiro chamava-se Contrarregra.

Até falei de seu nome em outros capítulos?

Se não me falha a memória, a figura fazia um curso vago na Universidade de b.

– Curso vago?! – os não atentos e as não atentas devem se perguntar.

Exatamente, um curso vago!

Ah, Contrarregra é estudante de Comunicação Social. E curso vago é um sinônimo de um curso dito superior sem muitas disciplinas teóricas e professores nada interessados em corrigir trabalhos copiados de terceiros; a ideia de vaguidão ainda dá contorno simbólico a um curso ligeiramente fácil de levar, um curso que se poderia fazer de casa, via internet e em paralelo a múltiplas conversas fiadas com pessoas desconhecidas nas Redes Sociais.

Contrarregra, vulgo Sancho Pança do Século 21.

Não que ele seja gordo, comilão e realista; não, nada disso.

Aliás, pelo contrário! Nosso amigo é magro, magérrimo – como expressam as grã-finas de um cronista antigo.

O Sancho de Brasília é apenas uma referência de alguém que gosta de cavalgar ou andar cambaleante pelos corredores da Universidade de b., munido de um cantil de água ardente escondido no bolso de um casaco sobretudo surrado e cheio de pelinhos de cobertor de lã.

Sancho de Brasília, uma figura!

Uma figura…

Lembro-me bem de quando o conheci. Por inusitada, a cena de memória ainda me provoca risos mudos.

Esbarrei com o parceiro numa manhã. Dobrava o final de um corredor de sala de aula.

Quase caí por cima dos próprios ombros, quando…

… quando tropecei numas canelas finas estiradas no chão.

O dono das canelas finas?

Quem?

Ops! Queeeem?

Contrarregra! O dono das canelas finas dormia num chão duro, estirado como um galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois.

– Opa! Foi mal, cara – disse-lhe numa fala de súbita consideração.

Estava ele com o rosto de quem literalmente dormiu fora de casa.

Dormira na Universidade de b., sem noção da gota.

A primeira reação do projeto de galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois foi a de suscitar um riso com mescla de bocejo.

Passava das 9 da manhã de uma quarta-feira. Muitos universitários de b. já circulavam no local que lhe sustentam o adjetivo em projeção minúscula.

Após uma espreguiçada, Contrarregra ousou pedir a minha ajuda para se levantar.

Ainda do chão ele alçaria um dos braços.

Pediu-me um providencial apoio levantando as sobrancelhas como a que me dizer numa mensagem cifrada e de irônica empatia:

– Dê-me uma força aí, caralho!

(continua)

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Acerca de Rogério dos Anjos, o guru (parte 4)

atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Nosso mestre, ainda em pé, levara às mãos ao alto, num gesto de benção coletiva.

Guru, enfim, tascaria suas primeiras palavras oficiais:

– Boa tarde, gente. Quero, desde já, agradecer pela presença maciça de vocês.

Sua gentileza, notemos, também possui ares superiores:

– Penso em levar para o interior São Paulo…

Ah, sim, Rogério dos Anjos, o guru é um notório passageiro.

Sua representação, aqui, implica no reconhecimento de suas performances interestaduais, desenvolvidas com afinco em exercícios diários numa universidade pública, na cidade de Assis(-SP).

– Penso que levarei para o interior de São Paulo uma boa impressão de Brasília e dos universitários de b. – destacou.

(Guru nos pareceu um baita de um político nesta passagem, isso sim.)

Quando pensaríamos, quando pensaríamos que sua apresentação havia acabado…

– Ah, só mais uma coisa…

Como é gentil e humilde, este Guru.

Lenda não precisa pedir licença alguma, pô.

– Quero agradecer – ele prosseguiria após uma pausa pra beber um pouco de água mineral. – Quero agradecer o convite feito pela direção do Centro Acadêmico de Letras da Universidade de b., o que inclui a ótima recepção e atuação de suas lideranças na publicidade deste evento.

Súbito, as palavras de reconhecimento de nosso herói suscitaram uma sonora salva de palmas, incitada por membros identificáveis de uma claque organizada.

O elogio ao prestativo Centro Acadêmico forrou os pés de nosso herói com chapiscos de devoção. Confesso, fiquei besta com a desfaçatez retórica de Guru. Mas tive pouco tempo pra desenvolver uma crítica. Sua atuação já havia começado.

Por uma desatenção, até, eu perderia um ou dois de seus tópicos frasais:

– Meu único parâmetro é… aqui não tem quem chegou primeiro para assistir a palestra – disse ele, em tom enigmático.

A plateia riu muda.

Guru, sem perder tempo, apontou o dedo para uma mocinha, ao fundo, postada num desiquilíbrio fanático de quem estava na ponta dos pés e não conseguia ver direito o seu ídolo.

O critério de escolha de nosso herói, podemos deduzir, foi o de “ter misericórdia alheia”.

Que gesto de pureza!

Em retribuição, a mocinha retocou de beijos as mãos do guia mor, assim que dele se aproximou.

Diante do ato de paixão desmedida, Guru fez pose de personagem bíblico.

Passou as mãos sobre a cabeça da menina.

Sentou-se, levando com o auxílio das mãos, a moça pra junto do piso.

Os demais sentaram em setores empoeirados do pátio, automaticamente, num gesto de abjeta subserviência e adulação incomum, à espera de um chamado possível.

Holofotes para a sua primeira e sagrada consulta.

(continua)

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Na rodô do Plano Piloto – parte 2

atualizado 10 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Em sua última participação diária, Deus escalou fundo numa estrutura de gíria pra se fazer de vez identificado com a nossa imagem de multidão:

– Quiii nada?!

Sempre acontece de um fiscal filho ruim de uma mãe boa e chutador de mercadorias dar as caras na rodoviária do Plano Piloto, tapas e num repente um sentar o bote nos chamados clandestinos oficiais na rodoviária da massa local, em Brasília. É uma rotina. A rotina de uma violência urbana, por isso, nem tão urbana assim.

Se o patrão pedisse para que o tal fiscal desse o… fígado, o fiscal assim o faria?

Saí-me com uma provocação de incrédulo profissional: onde estaria o bom senso e o respeito à integridade humana na hora do pontapé no traseiro de um ambulante do cotidiano?

Eh, outro dia chutaram brinquedos de cachorrinhos falantes. Fulaninho vendia discretamente seus bafos vindos do exterior.

Uma cena representativa, cruel.

Um vendedor com os braços cruzados notava o horizonte e observava a própria mercadoria num dos pátios da rodoviária.

– Um fiscaaal!?

A violência logo causa frenesi nos passantes.

Uma dona de casa leva as mãos ao rosto pra não ver os movimentos do agredido e do agressor.

Caraaai!? Caraaai, esta versão sucinta lembra a de um bacharel “nunca será chamado de doutor por um jornalista sem solução” delegado de polícia!

A versão da realidade é outra, porém.

Como é?! Faço uma retificação.

Um vendedor com os braços cruzados, isso, um vendedor vigiava o horizonte com seus olhos de perito em sobrevivência humana, enquanto um robô do Estado, de uma imaginária posição de big brother, via uma malandragem que resiste em pagar imposto ou ceder um caixa-dois de bicho pequeno, quando sem mais nem menos um agente da fiscalização da rodoviária disfarçado de quarterback de futebol norte-americano chega com seu bicudão e inicia mais uma partida, sem dó nem piedade mercadorias voam.

Paaaaaaááááááá!

Empurrão no ambulante; mercadoria esparramada pra todo lado.

Carai…

A violência causa frenesi nos passantes…

De um velhinho ao lado, ouve-se um chamado de impotência:

– Deus do céu!?

Uma dona de casa leva as mãos ao rosto pra não ver a porcaria do chute que o agressor desfere num pobre mortal.

– Nossa Senhora!? – ela expressou.

O vendedor ainda tentou salvar um par de cachorrinhos falantes. (Parte da mercadoria dele seria confiscada.)

A multidão fez falso espanto. A multidão e a sua cara predominante de sadismo e falta de ação?

Segurei com firmeza meus doces guardados em meu embornal. (Sou só mais um impotente do testemunho…)

Diante da repetição diária de mais uma barbárie de século 21, deixei escapar uma voz de sujeito sem padrinhos:

– Carai, será este o meu futuro nesta porra de cidade?!

 

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A aparição de Deus – parte 3

atualizado 8 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Numa igreja.

O jornalista sem solução numa igreja? Quem diria…

Só por Deus!

Só por Deus?

Igreja, não, templo ecumênico!

Dirá o outro, ah, fala sério! Qual a diferença?

Bem, não demorou pra eu começar a sentir alguma diferença.

Só por Deus? Só.

Sim, eu tava literalmente só naquele lugar então desconhecido e inédito.

Só por Deus? A interrogação não ecoou numa representação tradicional de Casa de Deus; no caso, a reflexão ecoou num enorme salão sem o registro de imagens, desenhos, adereços e relevos dourados, cruzes e avestruzes. Em pouco tempo, percebi que a pergunta de ocasião era desnecessária. Eu estava mesmo num templo ecumênico.

Era mesmo um templo ecumênico. Paredes lisas e tingidas com cores neutras assemelhadas ao branco de pomba da paz, o que dava ao espaço um ar celestial cinematográfico.

Quase um absurdo. Tudo lembrava neutralidade naquele lugar – neutralidade! Nem parecia igreja. Não tinha nada a ver com o que entendemos por igreja. Nada? Nada, nada mesmo. Nada de ostentação e maquiagem com marca de suntuosidade. Nada de Cristo com cabelos ruivos e olhos azuis? Nada. Nada de derivados de Virgem Maria também? Nada. Não mesmo. Nada de foto grande de pastor com chapéu de peão pantaneiro na parede principal? Não. Nada de bandeira de time de futebol? Claro que não! Nada mesmo de mensagens fanáticas ou comerciais. E digo mais: era um salão tomado por bancos rústicos e sem verniz. O altar? O altar do templo apenas tinha uma mesa grande de madeira maciça, um tipo de mesa de jogatina de sitiante de cidade pequena de interior do país. Por um instante, eu pensei que esta poderia ser a igreja ideal…

Ledo (Ivo, o suposto poeta pouco lido) engano.

Logo, me lembrei da existência do dízimo, dízimo cobrado ou exigido independentemente da desgraça econômica que eventualmente os fieis possam estar passando. Um contraponto, uma citação pouco forçada?

– O inferno do dízimo impagável.

Uma crítica me tomou de momento, me senti com opinião, um cara muito chato e sem dogmas! Recostei a espinha dorsal e respirei fundo.

Minto. Não havia encosto algum, naquele momento, não havia em mim conforto físico nem espiritual. Por um ato falho, suscitei há pouco um banco de mesa de truco, pai, madrasta, tios, primos, baralho, garrafa de vinho barato, Milionário & José Rico numa caixa de um velho micro system comprado a prestações, balas moles para quem encheu a cartela de bingo, um fogão à lenha, a minha avó paterna preparando o pão caseiro à moda italiana, um ronco de um tio minutos depois do almoço, uma última gota…

Banco sem encosto? Qualé…?

Provoquei em silêncio:

Qualé Deus?!

E.

E?

E naaada.

Com sonoridade, eu repeti o atrevimento:

Qualé…

… Deus?

Continuei na minha.

As minhas mãos suavam. Enxuguei-as na barra da calça.

O sol batia forte lá fora.

Um sol quente de rachar mamonas esbarrava no teto de gesso do nosso reportado templo ecumênico.

 

(continua)

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A aparição de Deus – parte 1

atualizado 5 outubro 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Uma ligação de celular interurbana de dois dígitos de centavos ou uma conversa interestadual tipo plano ad infinitum então em vigor, ao menos até um subalterno qualquer da operadora de telefonia móvel provocar uma instantânea e nada inocente queda de ligação.

Aqueles que são cotidianamente teleguiados por um fantástico mundo de ligações diárias e econômicas e com limites (in)determinados sabem da sutileza deste preâmbulo.

Aliás, falava eu mesmo com o focinho no celular?

– Eva, sol de meio dia na Capital Federal é pra inglês queimar a pele do rosto e assar a bunda! Cê tá sabendo?

Ela me responde direto de Assis(-SP):

– Tou sabendo mister, sou uma das quinze [pessoas] que acompanham os teus diários pela net, você escreveu o relato.

Eva ou simplesmente Evinha, estudante de Psicologia da Unesp de Assis e especialista em fazer seminários de sala de aula em cima da mesa do professor.

Como é? A heroína desta leitura só veste trajes pretos e adora fazer seminários em cima da mesa…

Algo mais? Ah, sim. Evinha plagia Clarice Lispector num blog pessoal.

E-vi-nha. Ainda me lembro de uma pergunta que um dia fiz a ela:

– Você é moça moderna, é?

A moça moderna se sentiu devidamente elogiada. É uma moça moderníssima! Lembro-me ainda de outra interrogação filosófica:

– O curso de Psicologia da Unesp de Assis é um dos melhores do país?

– Já foi, mister – ela se defendeu com um suposto conhecimento de causa.

Evinha tem o hábito fabricado de me chamar de mister, vale pontuar. Eu dizia a seu respeito:

– Ah, minha cara, Brasília não é pra qualquer um, é quase outro país, [agora com voz rouca de funcionário público que anualmente exige aumento de salário do Governo] quaaase outro país!

Imaginei-a rindo expressivamente, com a força das bochechas:

– Hi hi…

– Eva – prossegui com ar forçadamente professoral –, a Capital Federal, Brasília… [Recuperando um pensamento perdido] A… a dita cuja, cê precisa saber, faz parte de um perímetro urbano mágico e fora da realidade. E digo mais: os estrangeiros e outros “…eiros da vida” que não conhecem de perto esta biboquinha, nem sabem do chamado Plano Piloto.

A então estudante de Psicologia me pareceu vacilar no consentimento:

– Tooou ligada.

A propósito, eu falava de uma imagem doce e representativa: de uma tarde de caminhada a poucos metros do centro do Centro do Poder, nas proximidades da (acho que…) região Oeste da Casa da Mãe Joana ou da chamada “W” Norte ou Asa Norte ou alguma coisa do tipo. De um lado tem a Asa Norte, de outro (adivinhem?) a Asa Sul. Pra quem não conhece a existência da alusiva Casa da Mãe Joana, prometo destacá-la no próximo diário.

(continua)

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O dia em que Brasília foi apresentada a (mais) um canalha – parte 1

atualizado 22 julho 2017 Deixar comentário

por Re Nato

A imagem é de um dono de sorriso fácil, de um malandro artificialmente carioca com corte de cabelo à la Elvis Presley da quebrada, uma figura de barba de filósofo de rua abandonada pelo poder público do interior do Estado de São Paulo, um sujeito então munido de uma camiseta branca levemente encardida, calçado com um modelo coturno gasto e vestido com uma calça jeans rasgada de mais de dez anos de uso, quiçá, um presente de uma fanática feliz ex-namorada.

A sombra foi ganhando proporções de estatura humana: a de um animador de festas universitárias anticomerciais, um abastado na arte do xaveco e da comunicação intimista; uma base insólita, uma vida que flerta com o não habitual.

Eu pensei até que fosse outra coisa. Ou melhor, vi e não acreditei no que eu tava vendo com uma primeira impressão. Eu quase cego? Mais ainda: podia ser outra coisa, outra coisa menos absurda? Era melhor que não tivesse…

Num intervalo curto, lembro-me de ter esfregado os olhos uma centena de vezes… Tirei os óculos pra ver melhor. Isso. Tirei os óculos, esquecendo-me de que minha miopia não me deixava ver à distância nem por força de intervenção divina.

Pra ajudar, fazia um sol de meio dia.

E sol de meio dia na Capital Federal é pra inglês queimar a pele do rosto e assar a bunda. Sol de setembro em Brasília é coisa pra matutos, eu quis dizer.

Outra associação de ideias me levou pra diante de uma plateia imaginária de uma famosa encenação bíblica: a figura mítica de Lázaro saindo da tumba, amparado por Jesus Cristo num aceno de político candidato e marqueteiro em período eleitoral de nosso tempo, respectivamente!

De volta. Sorriso mudo e dentes à mostra?

Sol de meio dia na Capital Federal é coisa pra matutos!

Me refiro, é claro, a aqueles que não tem automóvel e tem de enfrentar, em excesso, a iluminação natural do dia a dia. O trânsito futurista arquitetado na terra de clima de deserto começou a me estressar na medida em que vinha à tona a lembrança de duas toupeiras: Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

Os fãs de Costa e Niemeyer que me perdoem, mas surgirá – creio eu – o momento adequado ou obra certa pra falar de consequências arquitetônicas.

Importa dizer: me incluía numa crítica social introspectiva, enquanto uma assombração tomava meu horizonte de reportagem sem solução. Era dia, um início de semana, e eu sequer estava de pileque!

A imagem de dono de sorriso fácil aumentava a cada passo, a cada passo um sorriso largo ganhava contorno diante de minha vista a estalar de incredulidade.

Olhei do lado. Ao lado, só desconhecidos, anônimos universitários sedados e esperançosos por um dia ganharem um emprego besta no Estado ou uma ocupação qualquer numa multinacional cheia de lobistas inescrupulosos. Com estes, eu pensei, não posso dividir confissão alguma.

A impressão era de releitura; a imagem me era familiar.

Percebi a falta de voz daquele focinho de carisma que se aproximava como um feliz cobrador de dívidas profissional.

Sério, eu não podia acreditar no que eu tava vendo.

(continua)

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A primeira testemunha

atualizado 24 outubro 2017 Deixar comentário

por Re Nato

Parei de pensar no futuro, a cabeça queria explodir numa esquina qualquer. Caminhava sem crença alguma, vinha flertando com histórias pouco comentadas, eu vinha com a mania de querer pregar uma peça em quem leva a vida a sério demais, eu vinha com uma vontade desgraçada de mostrar o dedo médio pra um motorista ou pra uma motorista de vidro fechado que ousasse ultrapassar a faixa de pedestres no exato momento em que eu fizesse sentido das listras em branco no chão, eu ansioso como um português da época do redescobrimento do Brasil, eu vinha sentindo frio de rachar os lábios até outro dia. Se então parei pra sentenciar a última… a última agressão física pela falta de calor? Em pleno clima de deserto, ops, em pleno céu azul no centro de um mundo de holofotes. Depois de dois anos de vida estacionada no sul do país… Até havia esquecido que o céu podia ser tão azul e o ar tão quente!

Uma quentura de lembrança de quando um menino dourava as costas peladas em benefício de seus oito anos de idade. Era mesmo um estar fora do lugar até esbarrar numa nova realidade – aproximem-se caronistas de plantão. Numa cena rememorada de pretenso ar social, ainda olhei de lado pra disfarçar uma surpresa de palco da vida. Simulei sociabilidade, fingi carisma de político profissional; provoquei uma avulsa cena de intimidade pública. Um olhar de novidade me moveu numa beira de calçada esburacada, bem na entrada de uma badalada universidade do país. Antecipei-me num salto curto:

– Prazer. Eu sou o jornalista sem solução.

A primeira testemunha de um clima de deserto, num ponto diverso de uma parada de ônibus, pareceu não entender o que via ou ficou sem me entender. Por um instante, a premiada da vida ficou de cara, quieta, tonta. Com certa razão, a moça de pele queimada ficou com cara de muda, com jeito de assaltada, com uma baita de uma vergonha. Pois tive que apelar, repetindo:

– Prazer. Eu sou o jornalista sem solução.

Se eu fiz de propósito? Se foi uma forma de causa? Se foi um argumento sádico? Se foi um blefe? Se foi uma fantasia de falso adulto? Se foi o diabo? Se foi truco!? Mas qual…

Sei, sei. Vão pensar. Foi um gesto típico de provinciano. (Quem já morou em cidade pequena entende do que eu falo. Não há vizinhos em cidade grande. A vida de cidade grande é um cu.)

Como mesmo?!

– Prazer. Eu sou o jornalista sem solução.

Jornalista sem solução, sem solução, jornalista.

Ideia difícil.

A moça deve ter pensado: este não bate bem. Ou: este não é daqui. Ou: ihhh minha mãe!

Com cara de espanto, ela deve ter pensado muito mais, coisas absurdas até.

Aposto que ela me postou como um louco.

Não confie, não confie.

A moça não deve ter pensado: não confie, não confie.

Caralho. Caralho, não. Exagero.

Exagero. Exagero. Exagero!

Cinco segundos de silêncio me parecera uma eternidade.

Ela apenas me olhava, como se nunca algum sujeito tivesse dado caso de sua existência.

A primeira testemunha deve ter notado sua condição de universitária, ela deve ter notado a sua condição especial de sobrevivente de um mundinho socialmente fechado. Numa dessa, eu mal podia imaginar que ela ainda processava palavras mágicas em resposta a um cumprimento dito fora do comum:

– Prazer. Eu sou o jornalista sem solução.

Obsessivo, eu alcancei um novo prazer. Precavida (ou vai saber?), ela moveu os lábios:

– Prazer, moço.

Registremos: a primeira testemunha de um clima de deserto nos disse, meio que forçada, meio que sem jeito, meio que com cara de quem pensa mais do que fala, meio que como presa a uma teoria desconhecida ou a um sistema de ideias anticonvencionais propagado por um professor universitário antissocial. Por um ato fortuito, a moça de pele queimada deve ter pensado que o louco nesta história fosse ela própria. “E eu com isso?”

A moça de primeiro retrato de um clima de deserto. Eu a perdi num horizonte cor de fogo, quando vi um busão chegando.
Depois, olhei fixo contra o vidro que de momento separava a nossa realidade da ilusão. Um pouco antes, pus um dos pés sob a escada do veículo, mirei um vazio surgido…

Não havia ninguém. Minha miopia ou ninguém.

Quinze dias depois, eu não podia assegurar a veracidade e a precisão daquele testemunho.

Brasília, Distrito Federal.

Agosto de 2012