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Acredite, eu vou explicar para você entender as coisas

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por Elizabeth Suarique, a Bete

Acredite, eu vou explicar para você entender as coisas, é história antiga, esses comunistas só fazem barulho, só na putaria, na vagabundagem, escolheram um presidente sem faculdade e uma guerrilheira só pra ficar na modormia, é se encostar em nós, as pessoas de bem, pessoas nobres que trabalham o dia todo, já se viu: você manter esse bando de vagabundos… sente aí e me escuta, eu vou explicar para você, o que acontece no Brasil.

Eu não sou racista não, eu gosto das pessoas, eu até sento à mesa com o negão, eu cumprimento a neguinha do acarajé… essa mesma, aquela dos filhotes que brincam quase nus o dia todo, enquanto a nega fofoca o dia todo com as vizinhas, mas eu não sou contra isso não, ela gosta de viver assim, na miséria mesma, mas repare, eu fiz minha faculdade, antes a gente era séria nos estudos, nada de comer água não, de morder a batatinha… rapaz, você não tem noção… eu chegava à faculdade bem cedinho, tinha todas minhas anotações, levava fichamento impresso, li todos os livros que o professor falava, ninguém falava em comunismo não, é assim que me formei, e depois a pós… quando ainda não tinha bolsa, então, o que fazer… a gente tinha de trabalhar mesmo? Sim, é verdade, meus pais enviavam uma grana para a gente se manter, eles não deixavam pegar ônibus, oxi!  Nessa insegurança… e isso de compartilhar apartamento ou morar em república, assim a gente não consegue se dedicar aos estudos… bom, nesses dias os colegas quase todos da escola privada, porque é assim, você sabe a gente tem que aprender bem o que é, os meus pais sabiam as coisas, se esforçaram muito por pagar o ensino privado, eles ficavam assim, horrorizados com esse povo aí da escola pública, essa mesma que agora o jornal disse que é escola de traficantes viu, então, o dia todo em protesto pelos direitos dos professores, dos estudantes, trancando o trânsito, é por isso que eu fico virado do diabo quando fico trancado nesses engarrafamentos cada vez que o povo se manifesta em favor desse governo corrupto, porque vou te falar, há quanto tempo minha filha a gente tá esperando a construção da ponte, primeiro os estudos, dois anos, depois a licitação, mais dois anos (mais a propina, pode crer) e logo essas máquinas tirando as casas da beira do mar, coitadinhos dos moradores deixaram seu teto de palha, mas com certeza o governo deu para eles uma grana boa, e o que eles fizeram? Só no come água, então quando tiraram as casas e revoltaram a lama, aí o enredo da Petrobrás, da lava-jato e logo impeachment, aí tiraram as máquinas, levaram de novo para capital, deixaram a lama e a nós sem a ponte viu. E todo isso aconteceu no governo do PT… todo esse pessoal aí do PT, esses comunistas com a propina criaram as empreiteiras que ganharam as licitações, aí malandragem, levaram o dinheiro e agora o prefeito diz que vai abrir outra licitação para fazer a ponte.

Mas, eu não tenho nada contra o povo, eu gosto dele, só que eu não vou manter essa vagabundagem aí, a última vez que eu foi para a minha cidade, lá no interior, a praça cheia de habitante de rua, e repare, eles recebem bolsa família, então, eu vou trabalhar o dia tudo, pago meus impostos e ainda assim, não consigo sair à rua, com a minha família porque tem malandro de bolsa família… ah, sim, meu filho tá na faculdade, sim, na federal, ele até compartilha aula com dois moreninhos, gente boa eles, mas de família assim bem humilde, da roça, eles chegam cá em casa, cumprimentam a gente, são muito respeitosos, falam baixo, vão para igreja, meu filho mais velho? Sim, ele se formou e logo foi para a federal fazer a pós, recebe bolsa sim, é… tem seu carro e a sua namorada não gosta do cheiro do ônibus, passa mal a coitadinha, então a gente ajuda ele enquanto termina o doutorado e logo o pós-doutorado que ele quer fazer lá na Europa, só tá esperando que o governo libere alguma bolsa sanduíche para ele fazer.  Então estava explicando para você, eu não estou contra do povo, mas desse governo corrupto sim, você já assistiu o jornal da tarde? Tem que assistir viu, assim você sabe das coisas, grampearam ex-presidente ligando para a presidenta, eles falavam mal, só palavrão, imagine, eu acredito, nem fizeram faculdade, pode crer, mas esse povo burro votou neles… ah, bom, no começo eu também acreditei, depois dessa crise dos anos 90, você lembra? Ah, não, você não sabe, você não é daqui não, quando o presidente fez confisco de poupança… sim, esse mesmo, o ex-presidente que agora é senador, sim, ele aí falando que tinha que trocar a moeda, aumentar impostos, reduzir a burocracia, depois todo mundo ralhado viu, eu lembro sim, a cara do avô, assistindo o jornal,  ficou pálido, ele  perguntou, “então, e meu dinheiro no banco? Cadê ele? Aí o vovô ligou para o neto que fazia economia, para ele explicar ao avô que não perderia a sua poupança, só ficaria em segurança uns 15 meses, pode crer, o velho quase surtou, pois é, foi duro sim, minha família passou mal, depois disso, os avós não chegavam  nos aniversários dos netos, muito difícil ir de carro, e as passagens aéreas pelo ar, sem usar a sua poupança, o único que eles tinham, aí a gente acreditou, tem algo errado nesse pessoal, assim que o Lula foi apoiado por pessoas nobres viu, todo mundo na pindaíba, os comerciantes, os industriais, assim no fundo do buraco a gente acreditou nele e escolheu ele, só que a gente não achou que fizera baita bagunça, ele só precisava dar a cada qual o que precisava, recuperar nossa poupança,  render os juros justos, tirar o lixo da rua, trazer segurança nas cidades, ter maior credito no banco, aí a gente conseguiu comprar logo a casa da praia e foi por essa época que a família toda foi para Miami nas férias sim, a gente tinha grana, mas porque trabalhou o tempo tudo né, não foi nada de graça não, por isso eu fico retado, minha filha  quando escuto que estudante da graduação, olha só, da graduação, vai de graça com os impostos da gente para os Estados Unidos ou mesmo para Portugal, o que você acha? Pode crer…, mal sabem falar português com esse acento errado, só falando palavrão, vão conseguir falar inglês, oxi, logo, voltam para casa de estudantes, de graça, tem seu rango, de graça, e a até bolsa de permanência eles ganham, vai olhar seu rendimento acadêmico, pelo chão viu, assistem a aula? Não, porque o rapaz tem depressão, sente saudades da sua família, mas para festa está pronto, além disso, agora o governo deu por trazer estrangeiros para faculdade, mas estrangeiro de país pobre viu, daqui da América Latina, porque não trazer estudantes de países desenvolvidos? Mas eles não vão querer chegar neste povo indisciplinado não, que só gostam de mexer o quadril…

Todos esses processos foram abertos no governo do PT, toda essa corrupção é culpa deles, eles tinha de saber das coisas… antes não tinha? Não… bom, a justiça que sabe, o justiça tá concentrada no impeachment , não tem tempo de olhar nessas contas da suíça e dos papers de Panamá, o jornal da noite nem fala nisso, não deve ser importante não, isso eles fazem depois, o primeiro é acabar com esse governo corrupto… Olha, eu não sou contra a democracia, eu até acho bom que tenham uma cota para o povo de cor, eu apoio a diversidade, mas repare, não apoio promiscuidade, meu tio, o militar, falou para nós que na época dos governos de assembleia militar, é bom falar nos termos né, as pessoas eram muito corretas, respeitosas com a autoridade, não tinha bagunça, o povo se comportava se não para a cadeia, com certeza, você falava mal de alguém, aí a polícia militar prendia, levava para cadeia e o jeito de manter a ordem, não e assim que diz na bandeira? Então, sim, eu acho que os militares cometeram erros, mas esses comunistas da Cuba estavam ameaçando nosso país, e já viu no que deu, até cubano tem que chegar cá tirar o trabalho dos médicos de cá, enquanto todos esses países comunistas ainda na pobreza, nosso país não, porque a gente trabalha viu. Então, você é de onde… pode crer…, mas você é pessoa boa, eu gosto de estrangeiro, sempre é bom explicar para vocês o que acontece no Brasil, e só assistir o jornal da noite, depois da novela e aí você já fica para assistir o BBB…

Brincadeirinha da Beth

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A realidade é real?

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por Nadson Vinícius dos Santos

 

Eu sou estas geografias que se deslocam,

Eu sou estes espaços que se cruzam

Eu sou estas línguas que dialogam (Wesley Correa)

 

Parece ironia, mas justo quando o assunto da crônica é “imagem” o texto não contém a foto de costume. A imagem a que me refiro é a gerada pela TV. Aquela criadora de mundos que, na maioria das vezes, encurrala as pessoas; as impede de se perguntarem se as coisas são realmente como as imagens dizem ser. Me pergunto qual seria o objetivo da grande mídia quando se comporta desta maneira. Às vezes me deixo levar por fábulas conspiratórias e chego a acreditar que existem pessoas desejosas de fechar o diálogo entre as culturas e sugerir uma imagem em grande parte falsa na mente das pessoas.

Mas para que o texto não se torne um manifesto contra a TV, longe de mim pretender tal coisa,  vou direto ao ponto: me queixo da grande mídia televisiva brasileira em relação às versões do Brasil que eles criam e vendem para divertir o europeu ingênuo. Um dos programas mais vistos aqui em Lisboa é daqueles sensacionalistas conhecidos pela expressão “se espremer sai sangue”, com aquele carinha que bate na mesa, fala de forma histérica e acusa o governo de tudo.

Me pergunto para quê serve um programa deste no exterior? Para reforçar o estereótipo e dele tirar dinheiro, só isso! Por isso me chamava à atenção o medo que alguns portugueses, conhecedores do Brasil apenas por televisão, sentiam do país. Que o Brasil apresenta índices altos de violência não vamos discutir, mas também cultivar somente esta imagem do páis não acho saudável.

Outra vez vi uma reportagem sobre um jacaré que apareceu em uma piscina de uma casa luxuosa. Me respondam, pelo amor de Deus, para quê dar fomento internacional a uma reportagem desta? Para discutir a questão da agressão impune contra o meio ambiente cometida pelos mais ricos? tenho outra hipótese: seria mostrar para o mundo que o Brasil é tão exótico que jacarés, onças-pintadas e jabutis dividem espaços com os carros e as pessoas.

Um limite ético, por favor, uma forma menos corrompida pelo dinheiro no jornalismo brasileiro, em específico, que vendo na parte rentável da notícia o único padrão moral, cria imagens completamente torpes do país, dificultando o trabalho das pessoas comuns que tentam cotidianamente mostrar pelos gestos e discursos que os brasileiros não são delinquentes nem o país  se parece  com uma cena do filme “Ace ventura: um maluco na selva”.

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Fique à vontade

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por Elizabeth Suarique, a Bete

Alguma vez eu fui a hospede que pedia licença para pegar a colher, para pegar um copo de agua, para mexer a cadeira, até para espirrar; minha anfitriã achou que eu era incapaz de me virar sozinha, mas, na verdade, eu estava apavorada de fazer alguma coisa que incomodara ela, pois eu estava no seu espaço. Ao final do dia a mulher explicou para mim o sentido desse “fique à vontade” que havia falado assim que eu entrei no seu apartamento, então tive que explicar para ela minha confusão com essa frase, é o seguinte:

Poucas expressões são tão aconchegantes como esse “fique à vontade” do povo brasileiro.  Aonde a pessoa chegar será bem-vinda com essas palavras para ser aceita e se sentir acolhida como mais uma da comunidade, por não falar da família.  No primeiro momento o estrangeiro acha estranho essa amplitude, estamos acostumados a reverenciar a individualidade e a privacidade, porém resulta constrangedor o excesso de confiança oferecida. Ficamos paralisados, pois conforme nossa experiência ninguém oferece ajuda a ninguém sem uma segunda intenção. Sinto muito, é nosso jeito de ser, sobretudo porque não temos, pelo menos no espanhol, uma expressão para oferecer ao hospede a chance de agir de acordo com sua própria vontade (temos a expressão “sientase como en su casa”, mas acho que não serve para o caso). Infelizmente, a “boa educação” instrui sobre como se comportar, não pedir nem aceitar coisa de ninguém, agir com independência e não estar sujeito aos outros. Pedir ajuda ou aceitá-la pode ser suspeito de malandragem, especialmente quando você chega a um contexto desconhecido. Além disso, na pior das situações não aceitar a generosidade libera você de agir generosamente com o outro.

Mas não culpe o estrangeiro, na verdade, é difícil compreender esse “fique à vontade”,  pois implica reorganizar nosso pensamento e reconstruir o conceito de confiança tão esquisito na vida contemporânea da metrópole. A gente foi educada para seguir as boas maneiras e se proteger da “maldade” dos desconhecidos, então, por decência, solicitar permissão para intervir no espaço e nos pertences do outro, e, em consequência não permitir que ninguém mexa nos nossos pertences, nós não pegamos nada sem primeiro pedir permissão, não atravessamos a porta se não formos convidados, inclusive conheço pessoas que recusam sentar na beira da cama se não ouve uma indicação. O respeito à propriedade privada torna-se um exagero que às vezes nosso caro anfitrião pode interpretar como uma dificuldade de compreensão comunicativa e até mental. A gente entende como um “abusado” aquele cara que pega as coisas sem pedir permissão, então nós achamos que esse “ficar à vontade” pode nos conduzir a adotar uma conduta errada na qual invadimos o espaço do outro. Coisa séria esta das diferenças culturais, “fique à vontade” é um jeito de oferecer confiança é conforto, também a sugestão de se virar sozinho nos detalhes simples da cotidianidade com os recursos que você tem à mão. Com certeza não pode abusar dessa generosidade, cada qual tem seu limite, a arte do hospede e a arte do anfitrião tem suas regras em cada cultura e cada um descobrirá somente na convivência.

Só para esclarecer, nós temos expressões que pode gerar confusão: “haga lo que se le de la gana” “voy hacer lo que se me de la gana”, “hacer la voluntad del otro”, são expressões próprias do espanhol para  salientar a teimosia de alguma pessoa ou a insubmissão de nossa própria vontade. A palavra vontade para nós significa poder, força e determinação. Finalmente a pessoa que tem o costume de viajar procura garantir sua segurança pessoal, malandro tem em todo lado e acho que o estrangeiro não é ingênuo, conhece o cheiro do perigo. Agora, há brasileiros e brasileiros, alguns gostam de falar e de preguntar de tudo, até opinar com excessiva familiaridade de nossa conduta, outros não. Há estrangeiros que não sentem a vontade de falar sobre certos assuntos.

Então, para encerrar: você brasileiro bonzinho, dê um tempo para o estrangeiro compreender a expressão “fique à vontade”, ajude ele a aceitar a confiança que você oferece, e você estrangeiro, se achar uma pessoa boa fique a vontade, aprenda com a generosidade deste povo, eu acredito que quando você voltar para sua terra sentirá vontade de oferecer a outro essa generosidade com a qual foi acolhido nestas terras hospitaleiras.

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Irmãos da farofa e o feijão

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Depois de um contato com a língua nativa, um estrangeiro no Brasil deve provar a culinária nacional

por Elizabeth Suarique, a Bete

Depois do choque da língua, o segundo contato cultural começa no estômago. Faminto, o estrangeiro ta ai, inocente de preconceito e cheio de fome, pronto para experimentar. No entanto, acontece que algumas comidas não têm referencia nenhuma nosso paladar. A farofa foi uma delas, uma farinha grossa, às vezes misturada com azeite de dendê ou banana e frutos secos.  A primeira vez fica grudenta na boca e você precisa engolir alguma outra coisa húmida pra não engasgar-se, ai o brasileiro que senta a seu lado e que o acha um cara esquisito, reconhece-o como um gringo ingênuo e sugere você passar a farofa sobre o feijão pra ficar mais gostoso. Desse jeito as culturas entram literalmente no seu corpo e na sua experiência.

Todos os dias o brasileiro de tudo canto come arroz com feijão. Eu já vi um brasileiro triste procurando nos restaurantes de Buenos Aires o cheirinho do feijão preto, de grão menor, de tempero apimentado e com o sabor da calabresa.  É ai quando ele sofre de saudade nas cidades do Rio de Prata ou pior ainda na Europa onde não têm o feijão como um prato principal. A comida é uma das primeiras saudades que o estrangeiro experimenta nas viagens, não é a família, os amigos, o clima, não, é a comida mesma que, na verdade, traz consigo a lembrança do tempero da mamãe, a paisagem dos cultivos nas geografias da sua terra, os amigos que você fez de cantos com climas e comidas diferentes. Nos últimos meses a politica foi um modo de enxergar as diferenças internas da população brasileira, eu já conheci cara que não gosta do futebol, que nem sabe dançar o samba, que não tem lido o Machado de Assis, mas ainda não conheci alguém que rejeite da sua refeição o grão pretinho e gostoso. E mais uma coisa, essa farinha branquinha é herança legitima da mandioca que os indígenas domesticaram e os africanos atemperaram. Então, isso me faz matutar na minha cuca de estrangeira como apesar dos conflitos raciais, políticos e musicais, a comida é uma síntese da composição cultural do Brasil. Olhe para o prato, as cores não tem a ver com a origem. Embora, um colega pode explicar para mim com absoluta certeza que a raça aqui no Brasil é questão de cor na pele.

Além disso, essa mistura do feijão e a farofa ainda nova para alguns dos nossos paladares são marca de indo-americanidade. Embora o brasileiro esteja convencido que pouca coisa tem em comum com os povos ancestrais do continente pelo extermínio impecável dos indígenas, segundo uma pequena pesquisa, o feijão tem sua origem na mesoamerica e a mandioca é alimento principal dos povos indígenas da Amazônia, o tempero da farofa foi o aporte africano. Então o meu primeiro encontro transcultural do Brasil foi no prato mesmo.

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Sobre as aves que aqui gorjeiam

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por Nadson Vinícius dos Santos

Ao chegar nas terras d’além mar, em Lisboa, os muitos cartazes da esquerda me deram a impressão de que havia algo errado. Sim, porque a classe média e a pequena burguesia só chamam a esquerda quando a criança neo-liberal, formada na renomada escola de Chicago, mete os pés pelas mãos (resisti ao trocadilho ). No Brasil de 2002, essa mesma classe mandou Lula fazer a barba, ajeitar os dentes, botar um paletó mais chic e moderar o discurso; aí  fez o favor de mandar seus empregados votarem no pobre e lá se foi o Lula lá, salvá-los da falência em que o príncipe da privataria os estava metendo. 12 anos depois e estupidamente enriquecida a custa do consumo de seus empregados, este setor da economia e da sociedade cansou de dividir o pão ( se é que algum dia o dividiu); cansou de pagar impostos para ajudar pobres-pretos-vagabundos, acusa o governo de “o mais corrupto da história” e está movendo céus e terras para tirá-lo. Afinal, o PT se corrompeu, pois tirou todo mundo da merda, o plano era apenas tirá-los.

Agora, seus jornais suplicam novo comandante. Alguém que faça a economia crescer, alie-se aos EUA (como se a raposa cuidasse do galinheiro) e ajude os fundamentalistas na cruzada contra a onda gay. Engraçado é que a História, como farsa ou tragédia, sempre nos ensina a deixar de sermos tão burros. Ora, enquanto gemíamos nas mãos do FMI e do Banco mundial, a União europeia dividia as funções aqui no velho continente. Portugal, por exemplo, recebeu a proposta de se desindustrializar para transformar-se na zona do euro, digo, zona de lazer da UE. Recebia, em troca, dinheiro. Isso, dinheiro. Dinheiro dado. A única exigência seria passar a investir em turismo, serviços e artesanato. A esquerda prevendo o golpe votou contra, claro. Aí a mídia da pequena burguesia endemonizou os comedores de criancinha e Portugal recebeu uma bolada. Parte sumiu e a outra foi investida em tanta assistência social que a vida ficou chata.

Mas na mesma época em que o Brasil se livrava do Banco mundial e do FMI, graças a Lula, os yankee protestantes deram um pulinho no velho mundo a negócios, pois quem ia pensar em diversão em plena crise? Lá se foi o turismo português. A direita, então, recorreu aos banqueiros. Resultado: a emenda saiu pior que o soneto. atualmente, cortaram 40% dos salários e parte das aposentadorias, reduziram bolsas de pesquisa, nas  universidades públicas se paga uma taxa para estudar e pasmem os reacionários: contrataram até médicos cubanos, além de se cobrar uma taxa nos centros públicos de saúde.  Ao fim e ao cabo, como se costuma dizer aqui, o candidato do partido socialista é o mais cotado para assumir a presidência da república. A velha Clio se mostrou como tragédia e a pequena burguesia vira à esquerda mais uma vez.