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A vida é perda

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por Luiz Augusto Rocha

Eu frequento botecos, dos mais rastaqueras, daqueles que “bulicho” parece termo gourmet. Botecos rasgados na sujeira e em tudo aquilo que torna o boteco o desaguar e o desafogar (embora estranho isso) de tudo que queima a pele. Nestes botecos da vida, nestes cus alcoólicos desta quina brasileira eu vejo gente e converso.

Joventino, José e Antonio eu os conheci no boteco. Cida (Aparecida) e Júlia, as esposas. Filhos mortos, filhos nascidos, crescidos e mortos, hoje. Joventino perdeu quatro “crianças”, José e Júlia e Antonio e Cida, um cada. De Joventino só ouvi a história pelo filho vivo.

Antonio e Cida tiveram oito, cinco homens e três mulheres, a mais velha tem 43 anos e o mais novo recém fez 27. Entre eles, João. João teria 37 anos, João teve um filho, Ricardo, há um ano e meio, João mudou-se para Machadinho (aproximadamente 250 km de Porto Velho), para perto da família da esposa. E João morreu tem sete meses e 13 dias em cima dum trator.

José é baiano, filho segundo de 19 filhos de pai e mãe. José é casado há 48 anos com Júlia. Júlia tem 61 anos. Nem tudo na vida deles é número, ainda que mais de uma dezena de crianças tenha partido antes até de começar. Zé e Júlia batalham agora pela guarda de Júnior, 13 anos, neto, filho que criaram por 11 anos enquanto o pai trabalhava.

Eu perguntei para o filho do Joventino (que morreu tem dois anos) se a mãe dele alguma vez falou alguma coisa sobre a morte do filho e das três filhas. Nada. Nunca mencionou nada que se relacionasse. Antonio chorou e José, silenciosamente. Cida e Júlia… Fizeram-se de esteio. Hoje o filho de Joventino fingiu que não queria chorar.

Todas essas pessoas me contaram que tiveram crianças sadias, que andaram e falaram ainda pequenos e eles riam das bobagens que crianças falam e dos tropeços que crianças tropeçam. Disseram pelo brilho nos olhos da angústia de cada noite, de cada festa, mesmo que de vez em quando, que esperaram as crianças. Contaram que nunca imaginaram vê-las no caixão.

Estas seis pessoas me disseram que a vida é assim. As outras tantas histórias de quem falavam me falavam tanto mais, deles mesmos, que nem fui capaz de chorar também. Não há lágrima, palavra tão vazia de sentido, que compreenda aqueles olhares que eu olhei…