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Peregrinando a Juazeiro do Norte – cap. 4

atualizado 12 outubro 2014 Deixar comentário

por Ísis Gaia

Mais um dia ajudando Samanta a vender salgados pelas ruas de Belo Horizonte. Desta vez, sem mochila, e com o trato de metade do lucro é meu. Justo. E também preciso de dinheiro. Ainda tenho os mesmos R$ 37,25 que saí de Delfinópolis. A promessa de Jose Mochila de mandar R$ 200,00 para chegar até Juazeiro do Norte não foi cumprida até agora. Eu e Samanta nos dividimos para acabar com os salgados mais rápido. Eu resolvi ir andando até a Pampulha para conhecer um pouco da cidade. Não me intimei com a informação dos 14km de distância. Tenho pés ligeiros e pouca preguiça. Depois de um dia de descanso, tudo fica mais fácil. Pouco mais de 3 horas depois, eu estava na entrada da Universidade Federal de Minas Gerais ainda com a metade dos salgados. Vender sem Samanta parece mais difícil. Ela conhece os macetes e já tem clientes certos. Aproveitei que estava na universidade para procurar o bandejão para almoçar, mas quase tomei um susto ao chegar no restaurante. R$ 8,15 por uma comida de bandeijão universitário?! Nem pensar, eu não estava louca para gastar tanto dinheiro para uma comida, digamos, de gosto duvidoso. Sem contar a fila que se formava… Mas até que não foi uma má ideia caminhar até aqui. As pessoas na fila estavam com fome! E eu ainda tinha metade de uma caixa plástica de salgados para vender. A ideia se desfez rapidamente com as negativas das pessoas… Até que um fio de esperança apareceu em minha frente. Não era apenas mais uma venda de salgado, mas o próximo passo de minha peregrinação a Juazeiro do Norte se desenhando. Um rapaz de seus 25 anos, quase tão perdido por ali quanto eu, desistiu da fila e pediu 3 salgados. Percebendo que eu também não era dali, resolveu puxar papo. Estudante de arquitetura e urbanismo, Marcos tinha ido atrás de uma garota no Teatro Universitário do campus. Conheceu a menina na noite anterior e ficou apaixonado. Estava em dúvida se ia ou não para o encontro de estudantes de arquitetura e urbanismo em Manaus. Manaus, forçava minha vaga lembrança do mapa do Brasil… de alguma forma Manaus tem alguma rota em comum com Juazeiro do Norte? Não pestanejei, perguntei como ia, quando ia, se tinha como eu ir… Ônibus da faculdade, 3 ou 4 dias de viagem, partida no dia seguinte. Só para estudantes de arquitetura e urbanismo… Onde que faço a minha matrícula?

(continua)

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Peregrinando a Juazeiro do Norte – cap. 2

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Ísis Gaia

Acordo com o corpo moído, não sei se da dormida na viagem ou no sofá, com ruídos de som alto ao longe. Funk? Não consigo identificar. A casa está quase vazia. Joana e Roberto já saíram para trabalhar. Ouço barulhos e percebo que é Samanta fritando salgados para vender mais tarde pelas ruas de Belo Horizonte. Ofereço ajuda, já que estou por ali e ficamos conversando sobre a vida até às nove horas, quando partimos para o centro da cidade. Eu, de mochila nas costas, e ela com uma grande caixa recheada dos mais diversos quitutes. A pé, de dia, começo a ter a dimensão da Vila Santana do Cafezal, ou simplesmente Cafezal. Quase 50 mil pessoas na maior comunidade de Belo Horizonte que, inclusive, serviu de inspiração para o filme Rádio Favela. A ladeira é grande. E íngreme. Mas esse é apenas o primeiro desafio da minha anfitriã de 19 anos. Vamos seguir a pé para a praça Sete, uma das principais da cidade, aproveitando para aliviar o peso dos salgados, seja comendo, seja começando a faturar o dia. Enquanto andamos, aproveito para perguntar como chego em um posto de gasolina na BR 381, para seguir viagem a Juazeiro. Ela não sabe. Quase nunca saiu de Belo Horizonte e, ainda assim, quando sai é com o cunhado em seu Chevette. Mas dá uma luz maior. Um primo de uma vizinha “que é até gatinho” é motorista de caminhão e viaja frequentemente para o Nordeste, vindo de São Paulo. Sempre pára no Cafezal para pedir a bênção da tia, descansar e seguir viagem tranquilamente. Se eu ficasse mais um dia, ela poderia tentar fazer contato à noite. Topo o convite, mas só queria ter deixado a mochila em casa. Ficamos perambulando pela cidade até duas horas da tarde. Aproveitei para dar um giro e respirar o ar da capital mineira. Depois, já com dinheiro em mãos, pegamos um ônibus para voltar para casa. Chego e simplesmente desabo, sem almoçar, sem tomar banho. Corpo cansado…

(continua)