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Do Bar Grenal sem hífen

atualizado 21 julho 2015 Deixar comentário
A dita maior densidade demográfica do município

por Jose Mochila

Mal entro no Bar Grenal sem hífen e tenho que pedir licença. Se já passei neste espaço de maior densidade demográfica de nosso cenário de mundo? Me perdoem aqueles ou aquelas que por ventura venham implicar com a recorrência do periodista. A falta do hífen entre o gre nal há de ser uma escolha publicitária. Ocorre que me deparo com paus d’água saindo, paus d’água entrando por uma porta estreita sem obstáculos institucionais. De uma estreiteza ímpar a porta deste Bar Grenal sem hífen! Atravesso numa dimensão de vazio, súbito percebo uma temperatura diferente. No interior de um teto baixo, uma realidade abafada de caras, olhos, bocas e, sobretudo, dizeres vagarosos de intercâmbio de ideias. Já no segundo passo dentro do estabelecimento, esbarro numa mesa de sinuca. Tá explicado certo bom uso do pedaço – vou logo pensando. Uma mesa de sinuca que ocupa um considerável percentual de um quadrado físico cheio de adereços nas paredes, entre eles, uma bandeira enorme do Sport Club Internacional, uma bandeira enorme do Grêmio de Fut-ball Porto Alegrense e, intrusa, uma bandeira também destacada do Avaí Futebol Clube, da capital do estado vizinho de Santa Catarina. “Mas se o Bar é Grenal, por que daquela bandeira do Avaí?” A resposta não demoraria, como não demorou a chegar até minhas mãos a cerveja mais ge-lada do Nortchê. Tchêêê, a refrigeração deste Bar Grenal sem hífen é de outro mundo. Do outro lado do balcão, a propósito, me atende um sujeito de corte de cabelo estilo rock and roll anos 1960, 70. Prestativo, pode crer. É só chegar no boteco que o sujeito te atende numa boa. Sem muito nexo, comecei a chama-lo de Led já a partir dos primeiros goles. Led, daquela banda de rock britânica. Sacam, Led Zeppelin? O vocalista… Forçando a memória e, sei muito bem, a comparação com o gênio do rock, até me lembro do nome de batismo daquela figura nortchense. Mesmo assim, prefiro chama-lo aqui ou publicamente de Led. O proprietário-balconista, eu quis dizer, o Led, não me ouviu chama-lo de Led nem ficou sabendo da minha obsessão pela falta de um hífen na fachada azul/vermelha de seu bar de mensagem híbrida. “Mas [Led]”, me lembro ter insistido, “o que faz mesmo aquela bandeira do Avaí pregada na parede?”. Num intervalo de atendimento, Led explica que seu pai é natural de Santa Catarina. Uma homenagem. É natural ou por lá já morou. Já não me recordo mais. Led, o “duplamente açoriano”?! Led mal tem tempo para tratar de resgates históricos. Como cá, Florianópolis também foi colonizada por açorianos. Um registro cultural que nos lembra Um Quarto de Légua em Quadro, do escritor sul-rio-grandense Luiz Antonio de Assis Brasil.

De volta ao Bar Grenal sem hífen. Noto Led em movimento do outro lado do balcão, atendendo os clientes, dando replay de clipes de músicas populares brasileiras numa TV 20 ou 29 polegadas, aparelho depositado num canto oposto da banca. Boteco relativamente cheio para um meio de semana. Um balcão todo de cotovelos. Lá fora, a música ecoa duma roda de samba importado do Rio de Janeiro. O cavaco de banjo e o tamborim, fiquei sabendo, são de propriedade e uso coletivos dos associados. Eu tive sorte de encontrar uma abertura para uma fotografia enquanto observava a clubística, os ditos associados. Isso mesmo; quero crer e, agora me corrijo em tempo, não há paus d’água no Bar Grenal sem hífen. (E que os paus d’água, me perdoem pela nota.) Então começo a falar como um notável associado: baahh…! O que há de sócios em nosso proclamado e suposto palco da felicidade permanente, não tá escrito! Me encontro no meio de sócios, quem diria, com focinho de um urgente periodista pedindo mais uma, por favor. Sede da braba, Led! Ops, quase deixei o vocativo escapar de verdade. Disfarcei como pude. Pedi mais uma garrafa para o carismático proprietário-balconista, numa bebericação que iria longe, e de ressurgir fantasmática, quem sabe, em nossos futuros diários.