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Entre ruas, almas e afins

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Do centro urbano de São José do Nortchê

por Jose Mochila

Podem crer que me pagam bem para replicar a literatura brasileira: A alma encantada das ruas. Não é uma pedida, é uma prescrição; leiam este livro antes de morrer; o autor é uma espécie de pássaro cantante do alvorecer de um então novo século. E que um dia meus diários caiam encantados por sobre as ruas lascadas de São José do Nortchê, sinto um assopro que me seduz cotidianamente neste lugar. Em todos os finais dos dias, me reporto, os nortchenses e os radicados de nosso cenário de mundo fazem de tudo para se fazerem presentes. Quando não surgem testemunhas para um quase sempre avermelhado horizonte desabrochado da vizinha cidade de Rio Grande, despistam num motivo secundário. Quero crer, a impressão é que nos finais de tarde, todos os citadinos dão com as caras em seu perímetro urbano.

As pessoas literalmente brotam de suas residências, parecem surgir das paredes. Testemunho inúmeras espécies e tipos. Uma vovozinha atravessa a minha frente, nem percebeu que eu esperava sua fotografia sem precedentes na história de nossos diários, deixa sua magia num meio-fio da rua General Osório, evoca um dos pés no ar, clic, clic. Já era, vovozinha! Meus cumprimentos de periodista indisfarçável. Troco de dimensão, piso noutro lado da calçada; passo pelo canteiro central. Das ruas de São José do Nortchê, eu tenho algo importante a dizer: vou falar algo além do registro de heróis oficiais. Marechais, generais, presidentes e retratos temerários que dão nomes pras principais ruas desta cidade. Aliás, quase todas as cidades do sul do sul do Rio Grande do Sul são chamadas de históricas. Médias, pequenas e diminutas. São quase todas antigas. Esquecidas, decadentes, são quase todas de outra época. É um motivo de orgulho para muitos, uma consciência que eu não noto nas novas gerações. As novas gerações, também aqui no Nortchê, só querem saber das novas tecnologias. Se me recordo bem, troquei de pensamento quando virei a cara pra vidraça de uma confeitaria, eu preferi lembrar meu tempo de guri no epicentro de minha fantasiada Mariscala, no interior do Uruguai. A lembrança é vaga, mas deve alcançar quase todas as cidades da América Latina de tempos anteriores. Estou falando de quando as pessoas miravam uns aos outros nos olhos, e não por aparelhos celulares. Tudo isso para dizer que eu reporto as pessoas teleguiado pelo registro do tempo; uma delas passa numa banda da Osório. Mesmo à distância, noto uma moça de coxas grossas. Santo Deus, cada coxa da moça é uma cintura minha. Me seguro para não lhe apontar o dedo em riste, com uma voz de denúncia cômica: “Estou sabendo que você faz academia, visse! Aliás, qual é a sua academia, que eu quero me certificar que você, vistosa das ruas do Nortchê, não exagera nos aparelhos musculares!”.

Escapo desta ou a moça é quem escapa de um perfil mais aproximado; capto outra imagem de final de tarde. No epicentro da praça da matriz, outrora anunciada, outra persona. Então viro o rosto para não perder a audição de Engenheiros do Hawaii num imaginário redefinido. Pra ser sincero, eu espero que vocês, leitores e leitoras voyeurs, me vigiem desta aparição. Outro tipo, que também me parece sair de uma academia, e que inventa de pegar o mesmo caminho que eu. Eu estou indo na direção do sempre aberto Bar Grenal sem hífen, onde há a cerveja mais ge-lada da cidade. Eu estou do lado direito da calçada, a morena trajada de academia do lado esquerdo. Acelero. A moça também acelera. Vocês não vão acreditar, eu desacelero; súbito, a morena de academia desacelera. Vocês não vão acreditar de novo, pisei certeiro no interior do Bar Grenal sem hífen. Além da cerveja ge-lada, o estabelecimento se destaca por ser o de maior densidade demográfica do município. Cheguei nele no instante em que nobres paus d’águas saltavam no teto para fazer mais um pedido urgente pro proprietário-balconista. Do lado de fora do bar, um adepto de Bezerra da Silva mandava ver com os dedos, entre ilustres, num cavaco de banjo.