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A figura de profeta

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Cadelinha mira pedido de petisco (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

O meu testemunho da vez começaria com uma cachorrinha de focinho e rabicó esticados, jurando à distância o meu petisco, que o Vicente, o dono do balcão, preparava pra mim. “Vai no Bar do Vicente…!”. Não perdi tempo, caminhei cinquenta minutos, literalmente atravessei a cidade pra conferir de perto tal existência. A novidade, isto é, o estabelecimento de biritas e distrações de que falo fica no bairro Industrial. Tive que encarar a emoção de passar pela Praça Guido, de outros diários, até chegar ao lugar. Falemos da Praça Guido de testemunhos passados, quem sabe em novos testemunhos mais à frente? Enquanto eu rememorara coisas, o meu petisco de salsicha barata ficaria pronto. Peguei o pratinho de lata e me dirigi a uma cadeira cedida por um flamenguista que “já estava de saída”. “Muita gentileza a sua, amigo!”. Sentei-me, ofereci o petisco a dois parceiros ao lado. A imagem insinuada cita mesas e cadeiras encostadas numa parede. Do meu lado direito, um sujeito de pele e olhar oleoso. À esquerda, um sujeito de pele e apenas a pele oleosa. Pra ser sincero, todo o Bar do Vicente parecia oleoso. O amigo da esquerda, vulgo inquieto, foi logo se oferecendo a beliscar um pedaço de meu petisco. O amigo à direita, vulgo alegre, disse não ao petisco oferecido.

Nesta hora, já estou bebericando uma cerveja de frasco litrão e observando um sujeito que acabara de chegar ao pedaço. Não é que me vi diante de uma visão de profeta do cinema? O cara chega ao Bar do Vicente de chinelinho de dedo, short vermelho de jogador de futebol do final dos anos 1970 e sem camisa, com a pele de surfista. Mas não há praia em Ubá, o nosso cenário de mundo é chapa-quente e sem litoral. Profeta Hollywood. Ops, observo um personagem que se, se não se quer principal, se comporta como tal sem saber. A figura se acomodou rende ao balcão. Evitou sentar-se. Quer dizer, evitou sentar-se, porque as três singulares cadeiras existentes no Bar do Vicente estavam ocupadas! Ave, que sorte a minha, hem? Realmente eu tive sorte de achar lugar pra me assentar. O nosso chamado profeta, contudo, parecia não interessado em acomodar o traseiro num posto qualquer. Notei que ele pediu uma branquinha. Vicente, o popular “fala pouco”, pôs a dose e saiu de perto pra atender mais um cliente naquele estabelecimento que, agora me corrijo, não se configura apenas como de biritas e distrações. Bar do Vicente não é apenas um boteco de povão, é também mercearia e, pasmem, é ainda loja de materiais para construção! Em que mundo eu fui parar? Juro que eu me perguntei e ainda segurei o riso. Um pensamento viria imediato: vim parar ou estou de compromisso profissional no Bar do Vicente? Vicente, o patrão da vez! Impressão profunda ou me notei presente num boteco de ralé desejada? Os personagens não paravam de entrar e sair do apertado boteco do bairro industrial, fincado na Avenida Olegário Maciel.

Em um momento em que paro pra pensar um pouco, o amigo sentado na cadeira à esquerda, o glorioso comilão, se empolga e já divide comigo a porção de duas salsichas baratas. Tive que renunciar à fome de quem não tinha jantado nem almoçado naquele dia, pra fazer a felicidade alheia com um dizer: AMIGO, PODE MATAR O PETISCO! Passei o que restava de porção pro companheiro de cena, que visivelmente estava pra lá de Bagdá. Não é intenção minha denunciar a quantidade de doses tomadas por meus nobres amigos paus d’água. O personagem da direita já não falava coisa com coisa quando cheguei, a ponto de eu não dar muita atenção e ser sufocado por um fala sem vírgulas, pontuações e brusquidões de pausa.

Enquanto os núcleos secundários tentavam ganhar terreno na direção de um centro das atenções, o nosso personagem profeta, ainda não nominado, tragava o seu cigarrinho de palha com uma mão e literalmente coçava o saco com a outra não. A esta altura, estou eu antecipando o testemunho de um potencial protagonista. Alguém chega, a figura cumprimenta. Mas creio ser algo cadenciado. O momento é das tragadas. A nuvem de fumaça se forma e paira na atmosfera do boteco, também considerado mercearia, ainda considerado loja de materiais pra construção. Chamou a minha atenção um carrinho de mão postado por cima de barras de ferro ao fundo do estabelecimento de mais de uma faceta evidencia. Pra ser franco, estou eu ali ansioso para poder ouvir aquele perfil de poder teatral. Usei o vocativo profeta, por até então não saber de seu testemunho direto. Nesta passagem, vejo o potencial protagonista em conversa com um cidadão de cara fechada que acabara de chegar. Ambos estão no balcão, os dois estão tomando uma branquinha e apenas o profeta traga um cigarrinho. Minto, o seu interlocutor também traga unzinho, mas um cigarro dito industrializado. Um tanto angustiado, eu já não conseguia ver o que os dois notórios conversavam. Uma televisão ligada e suspensa junto às barras de ferro do setor local de materiais de construção não me deixava ouvir bem o que confabulavam os dois homens ali junto ao balcão. Sendo fidedigno com a narrativa de memória, a televisão interferiria no diálogo aparente de cotidiano entre as duas criaturas sob a nossa mira. Começaram a falar de eleições, aponto da voz dos dois se sobressaírem em relação ao áudio da televisão. Enquanto isso, Vicente continuava na sua, mudo, atento aos pedidos de clientes e indiferente à interferência de um mundo exterior. Este Vicente me fazia pensar, na medida em que eu tentava saber dele qual o nome da cachorrinha que habitava o boteco com liberdade de ir e vir no boteco, circulando do lado de lá do balcão como do lado de cá. Meio que consciente ou pra não ficar muito na vista, a cadelinha dava os seus giros rápidos na calçada e sempre provocava um chamado verbal de bebuns preocupados com a sua proteção física. Naturalmente, não falo do Vicente, este não abre o bico se não for pra fechar a conta de clientes! Deixei a figura de Vicente em paz e passei a me concentrar num foco de luz que recaía sobre a pessoa do nosso profeta. Não resisti, notei o perfil da figura de profeta e fotografei-o para uma capa de um episódio seguinte, um segundo, que não estava programado, sobre o Bar do Vicente.