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O embaixador do Raul Seixas na Citi (parte 2)

atualizado 7 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Fulano de Tal era uma figura ímpar na Citi, não era político, nem artista local, mas era ilustre ou conhecido por muitos. Se bem que eu acho que ele tinha status de artista, sim, mesmo sem saber que um artista era.

Nos últimos tempos, não tinha ocupação fixa; vivia pedalando à toa de bicicleta. Figurativamente, tinha o braço esquerdo colado numa banda do guidão de sua bike e um corotinho (frasco de plástico) de pinga entre os dedos da mão do braço direito. Só bebia. Só bebia pinga, e como bebia o danado!

– Ah, Fulano de Tal, ilustre pilequeiro da Citi!

Fulano de Tal era uma figuraça! Quando me via, sempre acenava com um sorriso doce de quem compara a importância da vida a um copo de água ardente.

Ex-morador do centro, Fulano de Tal se foi; foi-se também sua barba descomunal; tinha uma barba enorme. Barba e cabelos de Raul Seixas. Biótipo de Raul Seixas. Não tenho certeza se gostava das músicas do Raul Seixas original. De todo modo, se comportava como um ilustre roqueiro do século 20. Daí o jogo de palavras.

Corto para as últimas notícias; as informações são atualizadas. Ouço de meu então quarto de hóspede familiar, que Fulano de Tal havia sido atropelado com sua bike por uma camionete, num dado quilômetro da citada rodovia do estado. Consta que a pessoa do automóvel não prestou socorro. Sem entrar em detalhes, oficiais da polícia afirmaram que a morte foi fatal. O querido Embaixador do Raul Seixas na Citi nos deixou com cerca de quarenta e quatro anos, salvo engano.

Corto por cenário anterior. Casa de avó é fogo de palha, alguém há de também concordar comigo; filhos e netos garantem a tradição de falar pelos cotovelos. Ouço outro diálogo, um de meus tios provoca uma pergunta: e a dona Olinda, como é que ela recebeu a notícia da morte do filho?

Minha avó: Ahhh agora mesmo eu vi ela ali [na famosa esquina das vizinhas], conversando com a Lurrrde; me parece que ela disse que já esperava a notícia.

Meu tio insiste: disse que esperava pela morte do filho, mas como?!

Minha avó responde: disse a Olinda que o filho havia lhe pedido algo, tempos atrás; disse: mãe, eu quero morrer primeiro que a senhora, eu não conseguiria viver sem a senhora…!

E não demorou muito pra minha avó tascar outro telefonema:

– Cúmadi Dita… sabe quem morreu?!

História longa, meus caros; por isso a abrevio.