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‘NÃO ROUBO MERENDA, NÃO SOU DEPUTADO’, cantam corintianos em ato

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Mais vídeos da manifestação pela democracia no Vale do Anhangabaú, em São Paulo:

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Um ‘caso’ de quinze segundos de fama

atualizado 6 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Eu estava a poucos metros do cruzamento da Paulista com a Augusta, um dos mais badalados de Sampa, quem sabe, um dos mais famosos depois do musicado cruzamento da Ipiranga com a São João. Era precisamente dez pras dezesseis horas, a popular quatro da tarde. Faltava pouco para que o horário de início oficial do ato em defesa da democracia topasse com a realidade mutante. Desferi um até breve pra Augusta e meia volta na direção do MASP, palco dos discursos programados. “Ei, vai uma água aí?”, uma frase de vendedor atravessou meus pensamentos. Não respondi, continuei andando. Cinco metros depois. “Água, olha a água”. Desta vez, fingi interesse para processar uma entrevista espontânea. “Quanto é a garrafa, companheiro?”. Fiz cara de humorista sem graça. “Quaaanto?”. Uma garrafinha de 500 ml não saia por menos de quatro, cinco reais. Ufa. Havia chegado “hidratado” na Paulista. Não ia desembolsar com água nem com aquelas bandeirinhas do Brasil do período da Copa do Mundo de Futebol, também postas à venda por trabalhadores ambulantes. Onde já se viu…? Os mais atentos puderam perceber com nitidez. As bandeirinhas do Brasil não fariam mesmo muito sucesso em um ato em que a cor vermelha é a predominante… “Trata-se de um apelo ideológico”, eu pensei comigo. “Como um apelo ideológico”, eu continuei, “feito aquela figura ali vestida de Batman…”. Pisquei os olhos de incredulidade. Cofe cofe. Por um momento senti a necessidade súbita de uma garrafa de água que eu me recusei a comprar há pouco. A garganta secou…? Acabara de aparecer em meu horizonte uma figura do Batman???

A minha primeira reação com o Batman na Paulista foi de paralisar a minha cara de pretenso tacho apagado. Ri mudo na hora. A segunda reação, após a primeira não durar muito ou ser abreviada pela fulminante sequência de reflexões, foi cogitar a minha teoria do sinistro. Literalmente, parei pra refletir. Será este Batman o vilão de minhas expectativas primeiras relatadas no primeiro de nossos diarios? Visível e aparentemente desejoso de holofotes midiáticos, o agora Batman sampeano… Escroto, este Batman sampeano! Escroto, escroto!

Escroto? Tal reprodução caricata de herói importado, marombado e acompanhado por uma figurante que não vem ao caso, não pertence a este nosso movimento político. Vai ele querer arrumar alguma confusão só para aparecer nas editorias de subcelebridades dos jornais massivos e nos memes de militantes em redes sociais? Se bobear, este infiltrado acadêmico de academia de musculação está sendo é pago por fontes obscuras para provocar os democratas da vez. Se bobear, este falso herói veio pra avenida com remédios nas veias e está aliviando as suas tensões por vias… terrestres. Se…

Deixei o Se… de lado e procurei mudar de assunto. E pra não perder a viagem neste episódio, fiz um rápido registro fotográfico do perfil da caricatura. Fotografei o Batman sampeano pra não dizerem que invento coisas sem juízo ou que reproduzo nuvens em vez de testemunho da realidade.

O nosso Batman sampeano sairia de banda.

Pela direita Batman sampeano, sai de banda desta narrativa!

Vá procurar a sua turma, escrotão!

E leva contigo os seus quinze segundos de fama e esta minha paranoia de que vai ter tiro neste ato.

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Crônica de um ato anunciado

atualizado 23 março 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Posso dizer que recém acordei num ambiente de pesadelo, digo, que acabei de pisar num antro de conservadorismo político do país? Pois já posso me notar entre prédios e miragens ocultas, com um bloco de notas e com um aparelho de registrar fotografias em mãos, percebendo-me estrangeiro numa metrópole onde uma parte influente dos seus promove – às escuras ou sob o manto usual da hipocrisia – um consagrado kit diário de antidepressivos?

(Num ponto primeiro, arregalo os olhos por não ter poder aquisitivo para movimentar a economia de farmácias e drogarias em proveito de fugas existenciais?)

(Num ponto segundo, me noto mesmo sem remédios no organismo, sentindo-me inseguro pela falta de narcóticos que me fariam ver a vida com o sentimento de posse sobre certezas inabaláveis acerca de como o mundo poderia ser um lugar menos plural e imperfeito?)

(Num ponto terceiro, dou um basta nos parêntesis.)

Em outras palavras, suspendo uma reclusão social de autointitulado periodista, ponho um fim a um tratamento terapêutico para insinuar um trágico da Grécia Antiga promovido em páginas hoje canônicas? o cumprimento de um destino com certo ar de dignidade sugerida?

Tenho que deixar claro, não quereria eu dar existência a um ser que se automutila no fim de uma história contada… Creio que nem posso. Aliás, não levo jeito para me fantasiar de um reproduzido deus humano, e nem em sonho posso assegurar o curso dos acontecimentos que se seguem, pois me escapa a máscara de (querer) viver num mundo exclusivo de ideias.

Mas as ideias – ohhh, as ideias! – me trouxeram até aqui e parece me empurrar pra um percurso dado; pois logo mais – às 16 horas deste 18 de março – me notarei com os pés pululantes em uma avenida chamada Paulista, numa projeção de fluxo contínuo entre dezenas, centenas, quiçá milhares em ato contra um golpe e em defesa da democracia ou por uma crença dada de mundo, munido porém de uma apreensão particular: algum cadáver brotará deste ato? Surgirá alguma figura destoante na multidão? E se nela surgir um exímio golpista comprador de remédios com uma arma nas mãos? E se uma persona amiga for alvo daquele entre outras possíveis? Pois até me imagino com cara de multidão, distraído, e por um momento alheio a um surpreendente sinistro; imagino um efeito dominó: legalistas se abaixando, se abaixando, se abaixando até que uma bala tal, que vai seguindo um horizonte a meia altura, crava dentro de mim.

Naturalmente, espero voltar com vida e com o nosso próximo diario.

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Um clichê

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por Luiz Augusto Rocha

Escrever é um ato de angústia,
ou melhor, motivado pela angústia.
De que adianta escrever, se tudo
é tão bobo, tão feliz?

A felicidade não motiva ninguém
a sair da inércia de ser o mesmo.
A plenitude é um não-estado
em que deixamos de existir.

Por mais bobo e feliz que seja o verso,
ele é fruto de uma angústia imensa.
Só que ele transforma o mundo
e me torna mais humano.
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Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.