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Historinha de amor medieval – cap 1

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por Francis Macabeo

Era o ano de 1413, o mundo ardia entre pestes e guerras, batalhas entre santos e loucos. Em meio ao clima havia certo homem chamado Antonio, não era santo ou nobre, mas esperava da vida a oportunidade de revelar-se.

A oportunidade chegou quando passando pela porta de um palácio apaixonou-se por uma dama conhecida como Olága, um nome distinto e diferente, além de ser ela de uma beleza incomum. Seu rosto brilhava ao dia, como se fosse pertencente aos raios do sol, mas ao cair da tarde revela-se de olhar quase triste, quase sombra, quase negro. Quem na aurora da alma pode vangloria-se da dualidade do espírito, ser duas coisas? Podemos ser várias coisas durante a vida, mas tudo a cada tempo, mas esses espíritos que resolvem ser duas coisas ao mesmo tempo confundem a própria natureza.

No primeiro contato Antonio perguntou-a sobre o que mais admirava em um homem, então ela respondeu que os soldados são encantadores. No mesmo instante o jovem envergonhou-se de não ser soldado.

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O amor segundo a urgência

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por Daniel Baz dos Santos

Preserva-me a um mar de distância
da quilha da noite.
Já perdi pai no teu voo noturno.
Tuas plantas cansadas distraem minha mãe.

Em nosso corpo há uma boca que regressa;
e um mês não contado.

Preserva-me antes das árvores fracas
a brigar por uma lâmina de sombra.
Nosso caroço florindo
a úmida trégua da pólvora.

Parte-me a casca dos lábios
onde voa a madrugada mansa.
Então direi:
“Basta uma fruta aberta
Para agitar as brisas da morte”,
e com uma única carícia
abafaremos os ruídos
dos que ainda se alimentam.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Indisponível

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por Daniel Baz dos Santos

Tinha eu de frequentar o amor?
Onde na boca nasce um lírio branco
de estrela funda
e a noite é mais um gesto
dentro dos dedos.

Demorei tanto para voltar
que encontrei-me já povoado
e indisponível.

Tinha eu de frequentar o amor?
Descobrir o lento coração das pérolas.
O rosto calmo como um alimento.
Um rio sem ambições tragando os olhos.

Com teu sabor invento a fome.
Com teu nome, escolho um lado,
batizo os vultos.

Indisponível.
Tinha eu de frequentar o amor?
As veias dançam como estilhaços,
faíscas de sal e sêmen.
Sobra um lábio amanhecido
– nítido, reconstrói o mar.
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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É tudo amor e eu digo

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por Daniel Baz dos Santos

É tudo amor e eu digo febre
todas as estradas perseguem a morte
fogo desmente o silêncio, eu trouxe a terra
e a terra diz terra se não sei escutar

é tudo amor e eu digo ferve
os milagres esgotam nossa água
debaixo da palavra eu ouço o mar e
o mar galopa em nossa explosão de peles

é tudo amor e eu digo ainda
estou arrepiado de fomes, é verão no seio
e o seio é maior que a pele
do lado de lá do silêncio

é tudo amor e eu digo finda
uma mitológica sopa de flores brancas nos aquece
quando morrer não farei barulho,
tão bela, entre os sabres, a pétala do teu sono
______

Texto publicado originalmente em Invitro.

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Inconsequências do amor

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por Luiz Augusto Rocha

Acredito que amei,
algumas vezes.
Amei tanto, tanto,
que me perdi
no próprio amor.

Fiquei angustiado,
estive feliz,
andei à toa
sem saber aonde ir.
Escrevi e vivi muitos clichês.

Fui bobo,
quase sempre.
fui obceno,
Ainda não sei.
Fui muitos eus…

Cada amor
era para sempre.
Todos eles findavam
antes que eu quisesse.
Então, surgia um novo eu.

Ainda me perco de amores
que me fazem feliz,
que me angustiam,
que me tornam bobo
escrevendo clichês.

A cada novo amor,
menos cabelos,
mais cabelos brancos,
tantas preocupações
e essa sensação maluca de flutuar…
______

Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

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Ame

atualizado 13 outubro 2014 Deixar comentário

por Aléxis Góis

ame à vista
sem parcelamento

ame sem crédito
sem fatura e sem recibo

ame fiado
com o coração dependurado
estilhaçado, esmiuçado

ame sem escritura
sem imposto e sem taxa

ame sem chave
um amor sem cadeado

ame sem certidão
de antecedentes amorosos

ame sem temor
ame sem frescura

ame sem amargor
ame com doçura

ame com alegria
ame com amor
com amor
amor
ame

______

Não deixe de curtir Mais sonho e sabedoria que nos vagos séculos do homem no Facebook.

 

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O caso de uma inesquecível prova de amor

atualizado 16 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

Se o universo não conspirar a favor de uma prática, então não há esperneio que adiante, eu filosofava ali na esquina mais próxima ou tratemos de uma filosofia barata de tempos atrás. Quero dizer, se alguém pensa diferente diante de nossa mania incorrigível de espernear, só nos resta silenciar pelo respeito à diversidade de opiniões ou nos cabe reverenciar a paciência sagrada dos mortos, o deslize maroto dos cínicos, a isenção transparente dos indiferentes, o brio matemático dos frios e calculistas, a obsessão derradeira dos desesperançados de si.

Quanto a nós? O que podemos falar de um sujeito nem tão sujeito assim que um dia, sem pensar duas vezes, se jogou da altura de sete ou oito metros de uma ponte em Tarumã?

Minto. Segundo a “boca pequena local”, a altura foi ainda maior, quase incalculável.

O caso de uma inesquecível prova de amor foi publicado num jornaleco da cidade. O registro factual tem tempo, muito tempo mesmo. Quer dizer, não sei exatamente quando, mas quase tudo foi documentado, disso tenho certeza. E tudo indica que esta seja a versão mais real ou aproximada do caso que trago no bolso de uma calça jeans surrada de andarilho. Quem sabe as informações ainda possam ser confirmadas com um policial atualmente aposentado, caso alguém esteja duvidando de minhas palavras.

As poucas informações foram toscamente compiladas de um boletim de ocorrência, o fato foi pichado na solenidade de um papel. O famoso B.O. não revelava exatamente o motivo do ato autopromocional do citadino que se jogou da ponte, mas o documento trazia a fantástica constatação de que o sujeito nem tão sujeito assim passava bem, horas depois do ocorrido, num leito do pronto socorro de uma cidade vizinha, na companhia de uma jovem mulher.

Curiosamente, o povo tarumaense sabe mais que a imprensa tarumaense nem tão imprensa assim. Alguém do jornaleco citadino esqueceu de corrigir um erro de concordância verbal na reprodução do documento de polícia. Vi bem a versão impressa. Fiquei logo sabendo, por intermédio de terceiros, que o ato autopromocional do sujeito da notícia, foi motivado por uma briga com a namorada.

“Olha que bonitinho! O sujeito tentou sacrificar a própria vida por amor!”

Ora, ora, diria novamente o xarope mais próximo:

“Mas quem acredita em amor hoje em dia?”

Antigamente, nem tão antigamente assim, o amor fez-se uma abstração. Agora, um gesto de amor causa escândalo na plateia. O amor agora não passa de um constrangimento. Na época de Renato Russo e de sua Legião Urbana, o amor foi uma música que toda uma geração cantou e ouviu sem cansar; o amor foi consagrado por uma juventude pós-ditadura militar. Hoje, o amor se transformou num objeto de nostalgia, o amor até virou um hit de sucesso de uma famosa dupla sertaneja. Pelo que nos parece, o amor foi escanteado paras as plataformas de redes sociais.

Ou o povo é tradicionalmente muito esclarecido.

Ou a figura do falso suicida desta memória não passa de um falso apólogo do amor.

Ou vivemos um grande engano desde Platão.

Ou ou.