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A saída de um show ow ow

atualizado 23 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Aquela imagem de artista em completa imersão musical com um público pulsava forte na lembrança enquanto eu andava em sentido contrário da ida ao show na casa Audio, no bairro Água Branca, numa banda da avenida Francisco Matarazzo. Quer dizer, não apenas eu. “Gostou do show, A.?” Puxei assunto com a menina tranquila. Ela me disse algo. Ou assentiu com a cabeça. Na real, A. destacou algo como “gostei, gostei, e estou com fome”. Achei graça da sinceridade confessa, cofiei a barba rala do queixo. “Deixa eu pensar…?” Eu também estava com fome.  Do lado de fora da Audio, ainda havia muitos vendedores de comida rápida à moda importação. Deduzi: este pessoal vai ajudar a conter a larica de uma boa galera que esteve naquele show. Ainda há tempo pra comer. Ainda há tempo, o nome de um dos hits tocados há pouco. Ainda há tempo, expressão que dá título ao primeiro disco de Criolo, quando ele se autointitulava Criolo Doido e que dá nome a sua turnê musical que ali se iniciava. Um hit que veio a calhar. Recordo a introdução: “Cê quer saber? Então, vou te falar / Por que as pessoas sadias adoecem? / Bem alimentadas, ou não / Por que perecem?”. Duas estrofes depois: “Não quero ver você triste assim, não / Que a minha música possa te levar amor”. Amor…? Lembro-me bem. Baixou o santo no Criolex numa madrugada de 2 de abril. No meio do show, Criolo começa a evocar o amor como um guru. E o amor de que fala a figura quer ter a profundidade de um discurso fundamental para a existência humana. Percebi também, Criolo tem o hábito de agradecer ao público pelo sucesso conquistado. Ainda o vejo com as duas mãos em sinal de amém. “Mui-to o-bri-ga-do, a to-dos vo-cês!”. A sobriedade. A humildade. O Amor, o Amor. O rapaz não se cansa de destacá-lo? Não. Não por acaso, falo do mesmo autor de Não existe amor em SP, de um hit de palco gravado em vídeo : “Não existe amor em SP /Um labirinto místico / Onde os grafites gritam / Não dá pra descrever / Numa linda frase / De um postal tão doce / Cuidado com doce / São Paulo é um buquê / Buquês são flores mortas / Num lindo arranjo / Arranjo lindo feito pra você”. Se este hit é um sucesso? O cara que o interpreta então? Curiosamente, me noto nesta tentativa de fabular a mesma SP… Eu dizia. Ainda há tempo, A.? Provoquei-a, rindo. “Tá com larica, A.?” Cara de…! Fiz a pergunta com marca de retórica. A noite não teve cigarro clandestino pra nóisss pow ow ow.  Mas estávamos com fome. Fome. Eram quase cinco da manhã e, contando o esquenta com um desconhecido DJ de música eletrônica, foram quatro horas de música alta nos nossos tímpanos. Avistamos um trailer adiante, e até que um hot dog esbarrasse nas nossas fuças, fui exercitando meu talento de cantor de chuveiro para A. e pra quem quer que fosse surgindo na trilha de uma viela escura: “Nããããão existe amor em SPPPPPP / Os bares estão cheeeeeios de almas tããããão vazias / A ganância viiiiiibra, a vaidade exciiiiiiita / Devolva minha viiiiiida e morra / Afogada em seu próprio mar de feeeeeel / Aquiiiii ninguém vai pro céu…”.

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A um passo de um show da atualidade

atualizado 6 abril 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

A primeira imagem que me veio à cuca com moldura naquela noite de 1º de abril de 2016 – e era verdade verdadeira e não uma peça coincidente de Dia da mentira – foi uma calçada lateral cheia de animados vendedores de fast food abrasileirado. Uma esquina havia sido dobrada. Ao mesmo tempo, uma avenida chamada Francisco Matarazzo ganharia de súbito som, ar e vapor insinuante de cigarros clandestinos. Se eu senti bem meus ombros balançando como o de um intérprete de mano da quebrada com gíria formalizada pela sociedade de consumo? A solidão que me faz sujeito e companhia todos os dias estava ali comigo, presente operante, sentindo um cheiro de fome de churrasco de carne de terceira quem sabe sem inspeção dos órgãos de fiscalização a serviço das carrascas classes dominantes. À medida que os passos ganham rastros, outros sabores e humores foram compondo meu olhar de declarado estrangeiro. “Compro e vendo ingresso!”. Achei curioso o anúncio que causou ruptura em meu monólogo interior. Um negão de três metros de altura foi quem soltou o verbo. Pensei, pensei. Não quero vender o meu. Nem preciso comprar. Fingi até este ponto que estava sozinho na parada. / Mas deixei a solidão em casa. / Inventei um curto verso / se ri mudo? / Rá rá.  “Os ingressos estão aí, A.?”. A., uma menina tranquila. A., sem saber, era a gerente da noite. Os ingressos estavam com a mina. “Tá na mão, A.?”, fiz graça enquanto rumávamos até a um destino. Imaginei uma casa de show longe pacas. “Deve ser por perto”, interveio a menina tranquila em meio ao meu pensamento alto de aprendiz de autor de novela. “Compro e vendo ingresso!” Outra fala de anúncio, / outro sujeito colocando a cara no nosso mundo. “Compro e…”. Puêrra. Logo percebi que vendedores-compradores ou compradores-vendedores de ingressos de show musical era uma moda que eu até então desconhecia. A. e eu estávamos num… pra mim inédito bairro Água Branca, na direção do show musical do artista mais badalado do pedaço. Eu preciso enfatizar: a pauta desta noite narrada era o cantor mais prestigiado da atualidade pelas senzalas e pelas casas médias e grandes da maior cidade da América Latina! Eu sem ter a certeza de que o interesse da nossa reportagem era o apelo popular da audiência ou se o meu interesse pessoal. “O cara é bom!”, a menina tranquila me garantiu. E pra esta A. falar… é porque é importante ouvir. A. quase não fala. A. só disserta sobre coisas fundamentais acerca da existência humana. Por isso… Desta vez, eita, ela falou. Falou. Neste momento, olhei bem pra cara de menina tranquila de A. Pensei comigo: esta A. tá uma gatinha, hem. Pow, este cabelo black e batom vermelho tão abalando o coreto. Só pensei. Dei um toquinho leve de ombro em seu ombro. Ela nem percebeu o macete do chapa aqui. Dei uma piscada lenta de mano interessado. Súbito, a mina parou de andar. Súbito, eu parei de andar também. Na verdade, paramos juntos. Vimos o que esperávamos encontrar sem saber de um retrato de antemão. Na nossa frente, a casa de show onde em instantes veríamos – eu faço questão de repetir – o cantor mais prestigiado da atualidade pelas senzalas e pelas casas médias e grandes da maior cidade da América Latina!

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Imagens do episódio