Sancho de Brasília (parte 1)

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atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Re Nato

Após trinta dias no piso santo da Capital Federal, fiz uma amizade camarada.

O parceiro chamava-se Contrarregra.

Até falei de seu nome em outros capítulos?

Se não me falha a memória, a figura fazia um curso vago na Universidade de b.

– Curso vago?! – os não atentos e as não atentas devem se perguntar.

Exatamente, um curso vago!

Ah, Contrarregra é estudante de Comunicação Social. E curso vago é um sinônimo de um curso dito superior sem muitas disciplinas teóricas e professores nada interessados em corrigir trabalhos copiados de terceiros; a ideia de vaguidão ainda dá contorno simbólico a um curso ligeiramente fácil de levar, um curso que se poderia fazer de casa, via internet e em paralelo a múltiplas conversas fiadas com pessoas desconhecidas nas Redes Sociais.

Contrarregra, vulgo Sancho Pança do Século 21.

Não que ele seja gordo, comilão e realista; não, nada disso.

Aliás, pelo contrário! Nosso amigo é magro, magérrimo – como expressam as grã-finas de um cronista antigo.

O Sancho de Brasília é apenas uma referência de alguém que gosta de cavalgar ou andar cambaleante pelos corredores da Universidade de b., munido de um cantil de água ardente escondido no bolso de um casaco sobretudo surrado e cheio de pelinhos de cobertor de lã.

Sancho de Brasília, uma figura!

Uma figura…

Lembro-me bem de quando o conheci. Por inusitada, a cena de memória ainda me provoca risos mudos.

Esbarrei com o parceiro numa manhã. Dobrava o final de um corredor de sala de aula.

Quase caí por cima dos próprios ombros, quando…

… quando tropecei numas canelas finas estiradas no chão.

O dono das canelas finas?

Quem?

Ops! Queeeem?

Contrarregra! O dono das canelas finas dormia num chão duro, estirado como um galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois.

– Opa! Foi mal, cara – disse-lhe numa fala de súbita consideração.

Estava ele com o rosto de quem literalmente dormiu fora de casa.

Dormira na Universidade de b., sem noção da gota.

A primeira reação do projeto de galho seco esquecido numa sombra de pasto sem vacas e bois foi a de suscitar um riso com mescla de bocejo.

Passava das 9 da manhã de uma quarta-feira. Muitos universitários de b. já circulavam no local que lhe sustentam o adjetivo em projeção minúscula.

Após uma espreguiçada, Contrarregra ousou pedir a minha ajuda para se levantar.

Ainda do chão ele alçaria um dos braços.

Pediu-me um providencial apoio levantando as sobrancelhas como a que me dizer numa mensagem cifrada e de irônica empatia:

– Dê-me uma força aí, caralho!

(continua)

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