Salvador, Bahia Território Africano…

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Salvador, a cidade multicultural

por Elizabeth Suarique, a Bete

Certa vez uma colombiana foi para Bahia, a estrangeira na sua atitude pesquisadora, fiz uma viagem de trabalho de campo e cultura geral pelas praias e povos do litoral baiano. Pegou sua mala, guiada por um baiano tagarela que a convidou pra passar as festas de natal na sua terra, da qual ele sempre falava com muita saudade, lá nas terras frias do Rio Grande, onde os dois se conheceram na prática dos altos trabalhos. Um bocado de experiências boas e ruins, e muitas palavras novas experimentou a estrangeira maluca, mas, sobretudo ficou fascinada pelo monte de exceções que aconteciam cada dia nessa Costa do Cacau.

Embora as paisagens fossem maravilhosas, o encontro de gente fina, elegante e sincera, como fala a titia Fêfe, foi o mais grato para ela, pelo acolhimento das pessoas que foi conhecendo no seu périplo, conseguiu acessar as rotas que já mais uma vítima do pacote de turista poderia experimentar.  Sabe-se que a estrangeira curiosa sempre olha para as coisas com esse fascínio na descoberta do diferente, na cidade de Salvador, ela teve sua primeira impressão, o primeiro recorrido foi pelo Elevador Lacerda, empresa doida de um homem que ficou em falência pela construção do elevador que agora leva seu nome, com 30 centavos você passa da cidade baixa para a cidade alta, ali poder pegar para a direita ou para esquerda, (sempre tem que ser tão radicais assim?), segundo o rumo escolhido você acha os caminhos empedrados, a estrangeira formada em letras ficou num devaneio mesmo: estava pisando o empedrado recorrido pelo Gregório de Mattos, caminho à  igreja de São Francisco, cujo altar esta composto de uma obscenidade disfarçada nos olhares dos anjinhos perturbadores, ali, o turista tira foto com as baianas de prenda branca e desse modo ele  pode ostentar que conheceu Bahia. Primeira exceção: olhe mais para lá, no boteco da esquina a baiana num sol do diabo, embrulhada em rendas, com uma bem gelada na mão, aborrecida de fingir sorriso por 20 reais a foto.

Dá a volta, reencaminhe os passos de Mattos e como ele, vai para o outro extremo, vai para a rua barulhenta no qual o turista branco não põe pé no chão, tá cheio de lixo, é verdade, mas tem aí a Bahia, olha, não tem como caminhar sem entrar em contato com a pele dos outros pedestres, nenhum rosto é igual, nenhuma cor da pele tem a mesma maciez e o mesmo cheiro. No mercado das lojas de varejão, eis o povo que canta Saulo,  aí você compreende porque a Bahia é o segundo estado com mais povoação negra depois dos países de África, assim definiu a estrangeira maluca a Salvador: a cidade dos opostos, cidade baixa, cidade alta; a rua  do largo do São Francisco cheio de turistas brancos-vermelhos de chapeuzinho de palha e havaianas novinhas, do outro lado,  a Av. de José Joaquim Seabra, concorrida de peles pretas de todas as cores.

No entanto, a colombiana ficou atrapalhada nessa primeira experiência, não conseguia entender os códigos desta cidade e por primeira vez desde sua moradia de um ano no Brasil, ela se sentiu completamente estrangeira. Levou-lhe um tempão pra se acostumar a musiquinha da fala baiana, alongando as silabas, fechando quase num assobio o final da frase. As gírias e os modos de se comunicar pela gestualidade é o caraterístico, a dica é assim, você só olho no olho, aí você já sabe… Embora seja um povo hospitaleiro, a cidade de Salvador oferece ao turista o que ele quer, mas quando você tenta entrar na dinâmica do cotidiano a coisa muda, alguns  baianos esperam que você compreenda tudo de uma vez só. Isto aconteceu a estrangeira que teve uma experiência ruim ao pedir num estabelecimento uma bebida fria, o atendente ficou ofendido e seu acompanhante baiano teve que explicar para ele que ela era estrangeira e que ela queria falar era uma bebida gelada, aí a estrangeira quase entrou numa fria. Em fim, são coisas da língua, muito simples, mas revelam sempre até onde um povo exige a destreza no uso dos códigos. Sim, Salvador é uma cidade multicultural, todos os sotaques, todos os idiomas possíveis, Salvador é uma cidade diferente em cada canto como o Pelourinho e o bairro Liberdade, ou você passar a tardinha na Sorveteria da Ribeira de dia e logo experimentar a balada a noite cheia de malandrice. A colombiana ainda tem saudade desse périplo e acho que ela vai voltar, pois precisa decifrar os códigos da Baia de Todos os Santos…

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