Ruídos vagos e misteriosos (parte 2)

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atualizado 5 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Levo as mãos sobre as mãos de minha interlocutora para me certificar se o peso silenciosamente repousado nas pálpebras não passa de uma ilusão de ótica, e que… a julgar o valor do seu gesto, quem sabe eu possa atentar algum sentido diferente daquele provocado apenas pela chamada força própria ou por alguma razão involuntária da vida, um sinal estrangeiro aparentemente inesperado, uma espécie de escuridão póstuma que cobre a vista e intensifica a concentração de energias na direção de outro sentido específico: a audição.

– O jornalista aposentado pergunta demais, sabia?

Pensei num gracejo – isso normalmente acontece com os ex-jornalistas. Porém, veio-me um discurso de composição:

– Concordo, às vezes acontece perguntar.

As mãos femininas mudam de arranjo. Agora as pontas de seus dedos rabiscam sulcos rasos e zelosos na parte inferior de minha face, sugerindo uma representação diferente da do contorno original do queixo, como a intentar certo movimento de um desenho pré-fabricado pela natureza, e de origem muitas vezes incompreensível.

– Eu devo abrir os olhos?

– Jornalista aposentado, antes eu preciso lhe dizer algo.

– Necessidade?

– Necessidade, principalmente.

– Entendo.

– Você e sua mania nada secreta de sempre “entender”.

– Nem sempre… nem sempre concordo, como neste caso.

– Este seu tom aparentemente agressivo transparece leveza.

Falei difícil:

– Admito certo desprendimento de convenções, deve ser por isso.

Movimentos alterados. Os gestos de minha interlocutora voltam à forma inicial, e a escuridão que cobre meu horizonte temporariamente vedado ganha o acréscimo de uma camada fina e um pouco mais escura, em cuja projeção de imagem sugere a constituição fantástica de um aparelho protetor contra possíveis raios e luzes ultravioletas.

– A escuridão vai te manter em aparente calmaria e em ininterrupto estado de transe.
– É. Sinto até um iminente bocejo num sinal de rendição.

– Rendição; não entendi exatamente, meu bem?

– Não posso inferir muita coisa.

– Eu posso – disse ela.

– Numa dessas, até admito esta história.

– É verdade. Ruídos vagos…

– Algo sobre quem eu estou pensando?

– Você parece ansioso pra saber.

– Quero crer que, se eu abrir os olhos, a verdade aparece.

Na ausência de sua fala, eu emendaria sem mais dúvidas:

– Até parece que você é uma criatura de outro mundo.

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