Ruídos vagos e misteriosos (parte 1)

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atualizado 5 janeiro 2016 Deixar comentário

por Mario Rodrigues

Um salão vazio. Um anfiteatro. Não, longe disso, distante de uma representação de ruínas orientais. Lembro-me bem que de um clarão surge um parque ecológico tropical sem risco real de desmatamento. Logo, todas as árvores e objetos verticais são apagados da tela de imagens. Um retrato nativo. O visual remete a um campo de golfe desconhecido, gramado bem verde e devidamente ondulado, feito por encomenda para ocasiões especiais. O azul do horizonte se perde no limite visual de quem se posta como testemunha da mensagem. Era sentir a brisa do vento na pele da face e crer ainda mais na leveza da atmosfera. O vento. Suave, o vento leva adiante o pouco de imaginação que certos ruídos vagos e misteriosos me sopravam nos ouvidos… Até que vanço dois passos a dois passos de não esbarrar em lugar algum, penso num motivo satisfatório para não ter motivos além da conta. Não há de ter ninguém ao meu alcance neste cenário bucólico de borboletas e grilos. Curiosamente, a solidão quase absoluta me faz pensar que a solidão quase absoluta ou não me faz pensar seriamente nas pessoas ou me faz pensar no caos marcante que dá vida ao nosso mundo de conflitos internos e exteriores, um mundo abandonado e preterido por muitos.

Estendido no chão do mundo, impregnado de mundos em meus mundos. Estendido numa grama verde, eu bem que tento visualizar um mundo lá no alto da estratosfera e absurdamente livre de qualquer utopia.

Um de meus mundos então desaba do teto e se desmancha no ar, no exato momento em que fecho os olhos para me proteger de um receio de um possível choque entre a imagem que eu vejo e a imagem do céu propriamente dita. É só eu pensar em abrir os olhos que uma voz exterior presentifica um diálogo:

– Não abra.

– Não… abra?

– Isso. Não abra os olhos, por favor.

– Não estou entendendo. Quem é você?

Senti duas mãos seguras e suaves repousarem ao mesmo tempo em meu rosto.

– Não se mova jornalista aposentado.

– Mas como é que você sabe meu nome autopromocional?

– Ruídos vagos e misteriosos…

– Ruídos vagos e misteriosos…?

– Isso, ruídos que me sopraram nos ouvidos.

– É quem eu estou pensando… será?

– Em quem você está pensando, jornalista aposentado?

(continua)

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