Ricardote

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O patrão do Bar do Ricardo na versão corintiana (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Senhoras e senhores, a minha ideia fixa hoje é o dono de um boteco na Praça Guido Marlière, a popular praça Guido. Aliás, tenho quatro ou cinco leitores que acompanham as nossas histórias publicadas no blog Diarios de Mochila, como se espiassem por entre os orifícios de uma grade de um confessionário. Segundo estes quatro ou cinco leitores fiéis, quem não conhece Ubá pode pensar que a cidade não passa de uma praça com dois botecos em duas de quatro margens. Na tentativa de novamente me fazer entendido, importa dizer que volto com uma teoria declarada: as pessoas vão ao boteco para se sentirem alegres ou para de algum modo buscar alegria. Dirá o crítico mais ferrenho e cheio de razão ou cheio de si: “A alegria de boteco é uma ilusão!” Chispa! Chispa! Sai pra lá, crítico mais ferrenho e cheio de razão ou cheio de si! A razão saiu de banda, neste caso entrou uma emoção desmedida em pleno templo de biritas e distrações localizado na rua Guido Marlière, que dá nome a praça a frente.

Peço um litrão de sete reais, pra não perder o costume e os bons modos. Vá lá, o preço de bebida é de menos. Desta vez, vale considerar que o atendimento foi rápido. O novo garçom do período noturno do Bar do Ricardo, autointitulado Gaúcho, trouxe a bebida. Lembro-me bem de um dia anterior: “Você é garçom novo?”. O garçom novo, a cara de um amigo meu de Pelotas, foi categórico: “Sou! Pode me chamar de Gaúcho!”. Mais esta, mais esta! Eu pensei no amigo e professor de História Adriano lá no sul do Rio Grande do Sul. Gaúcho trouxe a bebida e um cigarrette. Ops, o cigarrette do Bar do Ricardo costuma ser do tamanho da mania de grandeza da figura do gaúcho, seja gaúcho ou gaucho do Uruguai ou da Argentina. Ah, cigarrette do Ricardote é um enrolado de massa de pão caseiro frito com miolo de presunto e queijo. Tava com fome. Sem jantar e tal. Diferentemente de outras vezes, mudei de lugar. Sentei-me numa cadeira e me apoiei numa mesa numa região intermediária do estabelecimento de biritas e distrações. E lá fiquei tomando uma e mastigando o enrolado. Busquei um olhar panorâmico, e a partir da primeira mordida de cigarrete e de um gole de cerva, eu já me posicionei na posição de quem elegeu premeditadamente um alvo. O nome dele não pode ser objeto de suspense, o nome dele só pode estar no título deste testemunho?

Avistei Ricardote como o vi nas outras vezes: andando de um lado pro outro ou em movimento de costura entre pessoas ou indo de lá pra cá de um balcão ou conversando com alguém e ao mesmo tempo fazendo alguma coisa, fechando a conta ou atendendo mais algum pedido, afinal, Ricardote é um patrão fora do comum! Ricardote, que aqui me falta o nome por extenso, é um patrão brasileiro que t-r-a-b-a-l-h-a! Puta merda, Ricardote é um patrão que coloca a mão na massa! Quem vê Ricardo pela primeira vez dentro do bar que lhe destaca o nome e não o conhece pode pensar: como este garçom trabalha, meu Deus! No dia, ou melhor, na noite que eu resolvo fotografar a figura que sustenta o nosso testemunho. Neste exato dia decisivo pras letras deste episódio. Veja bem ou imaginem: Ricardote está com a camisa do Corinthians. O nosso protagonista não é um corintiano, eu fico logo sabendo com um sinuqueiro com quem eu dividia a mesa de bebida. Sinuqueiro, aliás, é uma das figuras mais recorrentes neste descrito boteco. Não tem um dia que eu não pise no lugar e não vejo o sinuqueiro, sem camisa e com o barrigão à mostra, jogando sinuca ou observando demais sinuqueiros jogando. Longe de mim, expô-lo aqui. Sinuqueiro é uma referência para pelo menos 80% de frequentadores do Bar do Ricardo, que se destacam por não esconder os barrigotes. Eu, de minha parte, cultivo meu modesto tanquinho. Bem, Ricardote versão corintiana ia pra lá e pra cá, alegre e faceiro, provocando os amigos flamenguistas de plantão. Me pareceu uma aposta do notório torcedor do Fluminense, desfilar com um uniforme do Corinthians Paulista dentro do boteco. Pra quem não conhece Ubá… Senhoras e senhores, Ubá é puro Rio de Janeiro. Boa parte dos locais torcem pra times do estado do Rio de Janeiro. O Corinthians, um dia antes de nosso testemunho, havia eliminado o Flamengo na semifinal da Copa do Brasil. Ricardote nem disfarçava que estava tirando onda de seus amigos rubro-negros. Perdi a conta de quantas vezes ele passava perto de um, numa pausa de sua corriqueira correria, pra dizer algo em voz baixa – e que só ele ouvia – e levar o dedo indicador à boca fechada num sinal de: xiu, quietinho, pianinho, Flamengo perdeu ontem! Ricardote, como se percebe, não deixa de ser o que parece ser pra tirar sarro dos amigos. Ele faz média, se faz média, fazendo o que ele parece fazer de melhor: tratar bem as pessoas! Eu, de minha parte, conheço ou sei da figura de Ricardo, que me inspira a chamá-lo de Ricardote, há pelo menos 50 dias. Que figura! Ah, não é que Ricardo ou Ricardote não passa por mim e diz: “E aí, Renato?!”. Notem, o patrão da vez é um grande sedutor, carismático, te chama pelo nome, diz: “Como vai, Renato?!” e sai de banda. Não é brincadeira, este nosso personagem principal sabe como dizer, sabe como abordar. Imaginem que até o sorriso de Ricardote é suave?

Peço que as senhoras e senhores não riam de minha irreverência. Ricardote é educadíssimo, leve, uma espécie de extremo oposto de seu irmão: o Mendes, o doce rabugento que comanda o caixa do Bar do Mendes ou Mendes Bar. Mendes Bar fica ali perto ou num dos quadriláteros da Praça Guido. Neste ponto do testemunho, eu já estou enchendo a boca pra dizer: RICARDO É O CARA! Em tom de exagero, mas num exagero que está longe de fazer com que fujamos do sentido de nosso gênero: o testemunho. NO BAR DO RICARDO: VALE TODOS OS CARTÕES DE CRÉDITOS E DÉBITOS. Que mais? Tem bingo eletrônico, um tal de Keno. Tem mais coisas, que não convém chamar a atenção pra não expor o boteco. Nesta altura da história, sem que Ricardote saiba, dedico este diário como alguém que não consegue mais esconder a admiração ao perfil que lhe destaca a condição de um notável personagem.

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