Relatos de dias cinzentos – parte 3

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atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

Um passo certeiro para fora de casa. Em outra região do país, seria o bastante para encarar numa boa a sensação térmica de zero grau. Aqui no sul do sul do Brasil, a então estabilidade do frio pode ser sentida dentro de qualquer casulo, sem distinção de natureza simbólica. Aqui o frio é… cortante, permanentemente cortante; por isso, antes de vir ao extremo-sul, figura de plantão fora de órbita definida, consulte a própria pele! A condição atmosférica é terrível no final de julho neste localizado pampa, sobretudo pra quem não está acostumado.
Numa conhecida Cidade Histórica, a umidade e o vento gelado castigam a pele. É um castigo. Literalmente. É de estranhar não ver transeuntes de calçadas públicas com os lábios ressecados ou com princípio de rachadura no rosto. A madrugada do último domingo (modo de dizer, poderíamos citar qualquer dia desta época do ano) o registro da temperatura ultrapassou zero grau negativo; nesta condição, os pés e as mãos congelam fáceis. Uma, duas, três, quatro, cinco pares de meia ralas não correspondem a uma essencial autodefesa do corpo para manter o rodapé do organismo confortado. Luvinha de mão é só pra enganar a plateia e fazer a festa dos vendedores ambulantes nas imediações de uma ponte internacional. A calça jeans? Não é o suficiente. Não, não é.
O frio rigoroso penetra qualquer orifício de costura neste local de mundo, como se o emaranhado de fios não fizessem sentido sobre os corpos de vivos mortais. Um drama pessoal? Não se acha calça de veludo nesta cidade! Uma explicação: as vendedoras das principais lojas de confecções do município argumentam que o inverno ainda nem começou.
Ora, vejam só?! O inverno ainda nem começou, vou falar nada! Uma encomenda está a caminho, me iludem as vendedoras locais. E será que o produto chega amanhã? Amanhã… Nem faço mais questão de pensar no desdobramento do tempo. A situação vai piorar. Vai, Vai. – Ei, a situação vai piorar? Aposto que posso até ser vítima de um tipo menor de hipotermia. O jeito vai ser entregar os pontos e desistir dos contrapontos. Valeu! Valeu enquanto durou! – pode ser o meu último gesto nesta biboquinha. Consequência deste tempo relatado, ou melhor, de um vilão chamado friiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiio.

(continua)

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