Relatos de dias cinzentos – parte 2

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atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário
Jaguarão vista da Ponte Internacional Barão de Mauá, que a liga à ciudad de Río Branco-URU

por Jose Mochila

Não me peçam pra sair deste Café maravilhoso! (Aqui na cidade há um Café maravilhoso). Não vou dizer o nome comercial, nem pagando um café eu digo! Só posso admitir que o Café fica no centro. Lá… Quase me esqueço, falo agora do próprio comércio. Sob a proteção de fantasmas inquietos, estou na companhia de um jornal. Pra quem não conhece: no estado brasileiro do Rio Grande do Sul há um diário. Existem dois, vá lá, porque mais de dois seria uma indecência, né não?! O jornal hegemônico é o mais sem vergonha de todos, provinciano – e poderia ser diferente? O fato é que não há jornais no Brasil que não sejam provincianos e… sem vergonhas! Porque para ser provinciano é necessário não ter um mínimo de vergonha na cara para admitir e defender teses bairristas como a que projeta a imagem de um povo feito um retrato único e sacrossanto em um ponto privilegiado de uma parede global; o privilégio não é só dos sulinos, claro. Em outro estado brasileiro, de onde brota o poder econômico do país, há pelo menos cinco diários sem vergonhas; um deles possui a inscrição editorial de uma família – ô jornalzinho! Só há declaração de políticos naquela marmota. Por um paradoxo, há quem tenha saudades daquela marmota. De onde falo mesmo? Ah, de um Café exaltado. Aqui, as atendentes são sempre amáveis; tem uma delas que até possui um brilho exótico no olhar… Peço o de sempre; aliás, como peço o de sempre, nem preciso pedir mais. As atendentes já sabem. O café com leite surge por telepatia assim que me acotovelo num balcão. Leio enquanto tomo café, tomo café enquanto leio; com o final da leitura, finjo que leio novamente. O café rende pacas, até demora a esfriar. A leitura rápida me deixa à vontade para observar o movimento social. Como entra gente chique neste Café! Cada uma! Cada o quê? Ih, sotaque de estrangeiro no sul vira alvo fácil pro bairrista mais próximo. Se eles me descobrem. E se os locais me localizam? Se estes me veem, o alvo fácil não será mais o estrangeiro leitor de marmotas impressas, sô! Num debate imaginário, os locais podem ser abduzidos por um sadismo de leitor de jornais de bairro. Se não existe gênero mais típico…? As atendentes vão e voltam; elas param pouco pra um dedo de prosa. Como trabalham! Devem ganhar por cada lasca de pele que lhe tomam diariamente? Claro, se as gurias tivessem um tempo de conversa poderíamos ter tirado essa dúvida. Uma dúvida que por hora nos cega a retina…

(continua)

 

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