Relatos de dias cinzentos – parte 1

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atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário
Um retrato do Teatro Esperança, então em reforma no centro de Jaguarão

por Jose Mochila

Se me permitem, vou falar o que penso exatamente. Não, eu vou dizer o que penso exatamente. Classifico o que penso exatamente? Pra que afirmar se não há muita razão pra buscar a audiência? Sabe como é? Sabe da quase ladainha de que os atos contidos estrangulam o nosso cotidiano? Não parece, a ausência de reflexões toma um tempo absurdo de nossas cabeças; me parece óbvio (!), são os pensamentos que nos fazem gente. Procuro conter tal ideia, como se eu ainda intentasse convencer alguém de que do outro lado do vale mais próximo há uma enorme geladeira aberta, de onde vem todo este frio que então castiga as nossas peles. É uma pergunta camuflada esta história de que “deixaram a geladeira aberta”. De onde vem todo este frio, hem? Do cu da Argentina? Não me diga que é o bafo de inverno dos pinguins no polo sul que começa a despontar…? Esse frio que consome o resto de dor pessoal e não explicitada; qualquer sensibilidade agora é resquício de um tempo por pouco esquecido, esquecimento é a falta de pontuação. Afinal, não sou do sul de um continente…? E se eu já pensava assim de onde eu vim…? Olho pra onde, pois…? A direção começa cedo, passo por uma avenida onde há um prédio em reforma. Sempre me pergunto sobre esta reforma. Pessoalmente, eu posso me perguntar sobre tal reforma? Ninguém vai querer esmagar a minha cabeça de bagre por causa de uma sinceridadezinha? Porra, esta reforma não acaba mais?! É o máximo que me interessa perguntar. De resto, podemos ficar com a Estilística. De resto, podemos ficar com a Estilística…? Ah, o resto é acessório, porque o mundo não vai parar (e se parasse, hem?) por causa de tijolos amontoados sobre parte da passagem de pedestres. É… O mundo é muito grande para parar assim tão fácil, de fato, a vida não cabe em palavras, nem em nossas condições físicas. Eis a principal justificativa que me faz sempre parcial, rindo irado com as mãos sobre o rosto na tentativa de me salvar da poeira do tráfego de veículos à margem daquele prédio em reformas.

(continua)

 

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