Por acaso no Bar do Mendes

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atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
A Praça Guido Marlière; ao fundo, o Bar do Mendes (Foto: Renato S. M.)

por Renato S. M.

Sempre que piso nas imediações da Praça Guido, sinto-me envolvido por uma atmosfera baudelairiana e, falando difícil assim para alguns, tento-me fazer entendido dizendo que, se não me sinto na Paris de Charles Baudelaire do século 19, me vejo periodicamente na praça ubaense de nome reconhecido, por extenso Guido Marlière,  me vejo num retrato em miniatura do Rio de Janeiro dos dias atuais. A famosa Praça da Cinelândia me vem à mente toda vez que eu dou duas pancadinhas com a sola dos pés na Praça Guido, em Ubá. Tirando a falta de teatro, biblioteca, hotéis, cinemas. Tirando tudo isso, o que sobra? Bem, o que não sobra fica à margem dos olhos quando, vindo de uma caminhada da rua Cristiano Roças, dobro a esquina da Roças com a Rua Guido Marlière e dou de cara com o bar do Ricardo e, para minha surpresa, fechando para balanço diário. Feriado municipal, sabe como é? A mulher do Ricardote me assegurara um dia antes que o boteco abriria nesta data. Fechou antes do tempo e me frustraria ou me deixaria subitamente aborrecido, se eu não atentasse pra uma espécie de plano B. Como dizia um falecido ex-professor: “Tudo depende do ponto de vista”. Não é que uma girada de olhar vejo ao fundo, o co-irmão Bar do Mendes. Mendes, vejam só, é irmão do Ricardo, do Bar do Ricardo. Coisa que eu demoraria a saber. Levou semanas até que algum cristão, ou melhor, até que uma cristã me avisasse: “Ricardo é irmão do Mendes!”.  Bar Mendes, Mendes Bar, pra lá fui eu? Friccionei as mãos, deixei a calçada do Ricardote.

Dentro do Bar do Mendes. Toda vez que me vejo no popular Mendes, me vem à cabeça uma comparação inevitável com o Bar do Ricardo. O que não tem no Ricardote e tem no Mendes ou vice e versa. De início, há a diferença de público. Bar do Ricardo possui público mais velha guarda; Mendes é lugar de uma galera, público mais jovem e, digamos assim, gente colorida. Mas no feriado de São Januário, um dos padroeiros da cidade (dizem que há outro e eu ainda não sei qual), eu me notava menos sistemático e confesso que deixei a analogia entre botecos de lado. Mendes estava mesmo pegando fogo! Se quis dizer que o Bar do Mendes estava lotado? Dirigi-me a uma vaga junto ao balcão, aproveitando pra me certificar que um banco estava vago. Um sujeito acompanhado de uma mulher, ao lado, disse que estava vago. Observei bem, sentado do balcão, o balcão de mármore de cor escura. No Mendes, a freguesia parece gostar de sentar às mesas. Quer dizer, não falo de um extenso balcão. É pequeno e do qual o dono parece gostar de manter distância. Mendes, o patrão da vez, parece não tirar o popozão do caixa instalado no meio do boteco ou em lugar estratégico de onde se vê o balcão, a saída, a correria de garçons; do acento cativo do Mendes dá pra se ver o movimento e de lá se avizinha a passagem pra cozinha, onde atua um irmão e sócio; ao lado ainda há a escada que dá acesso aos dois pisos superiores de um prédio antigo. Não era a primeira vez que eu fazia este retrato. Toda vez que eu piso no Mendes revejo este retrato com curiosidade de perceber se o Mendes faz faxina do lugar. Se faz, e eu acredito que faz, não parece. A cor, o tom seboso do boteco ou do prédio antigo nunca descola da vista de xaropes como eu.

A esta altura, eu já bebericava (adivinhem?) uma Itaipava. Incrivelmente, nesta noite de feriado municipal o próprio Mendes ou a sua cara de rabugento me serviu. Pedi um litrão. Mendes pôs a garrafa no balcão. “Veja se tá fria!”, ele disse. Abraço a garrafa com a mão direita: “Não tem mais gelada?”. A resposta que me veio me fez ver Mendes como um baita retórico. “Não!”. “Vai esta mesmo”, eu disse vai esta e emendei o pedido de um quibe. O quibe. Falo DO QUIBE e não brinco com o dizer de traços garrafais, o quibe parecia uma goiaba gigante. Fui seduzido por um salgado vendido por incríveis 2,50. Estava sem jantar. Comecei a mastigar O QUIBE, pensando no que importava: “será que hoje sai mais uma história?”. Tinha saído pra rua seco pra fazer um perfil mais detalhado do Ricardote. Diferentemente de cinquenta dias atrás, agora só saio pro lazer a trabalho! Como Ricardote fechou mais cedo, surgiu a figura do irmão-concorrente da Praça Guido, que se destaca por ter dois badalados botecos (me parece, ainda preciso checar, que ainda há ao redor da Cinelândia ubaense uma espécie de gafieira, porque sempre ouço um barulho suspeito saindo de uma porta aberta do prédio da antiga Estação Ferroviária, ali instalada); duas barulhentas igrejas pentecostais dão o restante de contorno de vida ao espaço que normalmente serve de moradia pra descamisados ou pessoas que vivem socialmente às margens de. E por falar em templos, estava eu ali no chamado templo das paredes e chão sebosos, quando noto bem o casal do meu lado. Aquele mesmo casal, a quem há pouco eu pedi licença pra me sentar no banco que avistei vago.

Não cheguei a me ocupar do casal ao lado, porque não faz bem ficar filmando os outros assim na cara dura e também preferi dar um pouco de audiência pro jogo da Copa Libertadores que passava na TV suspensa numa parede acima do caixa onde Mendes parecia fazer questão de não sair de perto. Jogo chato da pêga, sô! Isso. Ressuscitei até um dito popular que eu falava e ouvia na infância: “pêga!”. Pensava eu na morte da bezerra quando subitamente senti um banco deslizar e bater com força na base do meu! Esqueço a TV e o futebol, olho de lado e já não vejo o casal, isto é, observo o momento exato que o homem sai correndo e deixa a mulher sozinha, em pé, num inusitado caso de homem que dá calote em mulher e sai numa literal corrida pra não pagar conta ou pra não ajudar a pagar a conta. Ainda vi a mulher bater firme um copo de formato americano com bebida cor laranja dentro na direção do mármore do balcão! O copo incrivelmente não quebrou, e eu passei a me ver um repórter sensacionalista de cidade pequena que se sente eufórico com um desdobramento de caso que a mulher, ofendida pelo homem, iria nos presentear na forma de um próximo episódio.

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