Pedaço perdido de mar

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1 Comentário

por Nina Alencar Zur

Muito cabra por ali diz que Pedro é teimoso, que devia largar mão dos peixes e se entender com outros ofícios. Mas ai, que não é teimosia. É o que sempre fez, o que seu pai lhe passou. E coisa passada de pai não se renega assim, como um presente desgostado. Também não tem mais jeito de aprender outra maneira de botar comida na mesa. O tempo dele já acabou para esse luxo de reinvenção. Agora é só mais um velho a viver do mar, com quem conversa como se dele fosse um amigo. É um homem entregue às histórias dos peixes e ao sussurro do vento. Já tem as mãos ásperas de rede e sol. A pele sempre queimada, ressecada dos temperos da costa. Areia e sal são do corpo, como tatuagem. Cheira a maresia, como embrulhado em alga. Em toda sua vida, só saiu da praia para ir à cidade próxima, o que faz uma vez por semana para levar o carregamento e comprar as necessidades. Ou quando é aniversário de alguém da família, já que não dá pra comemorar ano de vida no mesmo silêncio de todo dia. A gente da região quase toda desistiu de pescar, a concorrência é muita e o dinheiro beira o nenhum. Pescador assim, sozinho, não arruma grandes coisas. Vem barco grande e revira a natureza, fica tudo uma bagunça, magoado. Esses que chegam de fora não conhecem a fundo os humores da terra.

Todo final de tarde, Pedro beija a velha e as crianças como se fosse a última vez que o fizesse. A idade faz com que a gente pegue mania de preparar despedidas. Tem algum tempo, um ano ou dois, que começou a sentir um troço esquisito ao voltar à praia. Regressa menos dono de suas coisas, carcomido para marido e pai. Deixa uma parte sua para trás, como ficam as ondas. Anda com a desconfiança de que o oceano está é querendo saber de alguma coisa que ele sabe. Por isso o segura entre as correntes. Só que ele não é homem de segredos e passa as noites a prosear com as estrelas. Não há uma vírgula da sua vida que aquele lugar não entenda. Deve de ter alguma explicação, porque, se não tiver, ele vai continuar minguando, minguando, até pisar na areia como um homem sem passado. Diz para as crianças que não quer viver dias de puro deixar ser. Se um dia volta sem nome, quer que gastem as nervuras todas para contar o que aconteceu com eles até ali, em detalhes. Ele será como uma criança a ouvir contos, maravilhado com a própria história. Só assim fica tranquilo e parte para a noite no barco.

É uma quarta-feira e sai atrasado. Meio de semana deixa a gente um pouco mais atrapalhado com os horários. O céu está quase escuro, o sol já entornado no horizonte. O vento bate suave em seu rosto, dando um arrepio bom de sentir na nuca. Os barulhos da praia ficando distantes, e o tec-tec-tec interminável do motor cada vez mais coisa única. Pousa as pontas dos dedos na superfície do mar aberto para marcar o caminho que faz junto à traineira, brincando de ser levado. O balançar do barco o apanha em abraço de mãe. Sorri tranquilo, como se o pôr do sol se confundisse com seu próprio abrandamento. Sente-se um resto perdido daquele entardecer, vigia do encontro íntimo entre luz e água. A vida é só aquilo, o resto é desocupação. Então surge aquela vontade enorme de falar, contar para o mar o que navega por dentro de seu corpo moído. Romper o dormir do dia com seus trelelês. As estrelas já chegam para ouvir. Lança palavras ao mar com a rede, a língua se enroscando com o que sabe do mundo, calejada pelos hábitos e conformada com a realidade. Se o chão falasse, falaria como Pedro. Puxa a rede de volta com força, as mãos rasgadas pelo tempo, o corpo inclinado e a coluna torta. Ela chega vazia, com um ou dois peixes pequenos que logo devolve ao oceano. Não servem para dar de comer a ninguém, é melhor que continuem desconhecidos do mundo dos homens.

A noite chega e passa como sempre, calada. Só Pedro fala. O menor sinal de vida é assunto. Questiona as funduras do mar, que para ele são um mistério de tirar o sono. Relembra as lendas das sereias, que ouviu muito quando era pequeno, dos pescadores mais antigos e preparados para a sorte má. Fala da família, dos dias em casa, lembra o vestido que quer comprar para a mulher passar a virada do ano, um vestido cintado, cor de goiaba, que viu na cidade. Pensa na casa de marimbondo que precisa arredar de perto do quarto e gasta saliva para achar o jeito mais entendido de fazer aquilo. Não tem intimidade com essas artimanhas de manter conforto. Ouve o estalo da madeira e pensa que aquele é o seu lar, subindo e descendo com a dança das ondas. Quase sem equilíbrio. Quando se está em casa, as coisas saem como destrambelhadas mesmo. O trabalho repetido, o tamanhão do céu com o mar e o acompanhar silencioso de uma magia que não se anuncia, mas que se sente na sola dos pés. Tudo isso alarga o coração para os braços. O coração fica maior que o movimento. Fica inteiro, gente de verdade a matutar sem correção. E coração é bicho afobado, experiente em atrapalhações.

Com a quinta-feira se anunciando, consegue remendar a rede, desgastada do vaivém. Observa o agonizar lento dos peixes a se rebaterem. O ar frio do alvorecer cede lugar ao calor suave da manhã, e Pedro perde lonjuras ao contemplar o voo livre das gaivotas no céu, festejando o quente desembrulhar de um novo dia. Volta calado à praia. O barco se aproximando do cais e parece que o oceano é quem se despede. Com o corpo cansado e feliz, areia debaixo das unhas, amarra a traineira e caminha pela beira do mar. A maresia enroscada nos pés e a mesma sensação de que chegou diminuído. Mas alguma coisa acordou diferente naquela manhã. Uma inclinação de ser lugar nas coisas. Pedro descobre que para sempre será um velho a viver do mar porque ele mesmo é um pedaço do mar, desencontrado do resto. Por isso a parecença de ser arrancado de si no regresso. Respira aliviado. Nunca será um homem sem passado porque no mar cabem todos os passados do mundo. Molha o rosto com água salgada e anda em direção ao casebre para espantar os marimbondos. Mar comporta todos os tempos. Também é promessa e futuro.

One Response to “Pedaço perdido de mar”

  1. Kauê Batista Scarim

    Que belo texto!

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