Palavras, epitáfio

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atualizado 27 abril 2016 Deixar comentário

por Jose Mochila

O otimismo é daqueles que enxergam demais ou o otimismo só pode ser daqueles que enxergam.

De volta. A figura que aqui fala? Ué, quem fala? Dito: quem vos fala é um defunto (grifo do autor); redito: quem vos fala não é um defunto – no máximo, o sujeito desta fala só pode ser um defunto em potencial, como qualquer um que respira com ou sem a ajuda de aparelhos auxiliares; quem vos fala é uma figura sem epitáfio.

Este sujeito volta após um intervalo de recordação: ele estava se escondendo feito uma coruja em cima de uma árvore esquecida, próximo de uma esquina não localizável, no centro de uma cidade do sul do país esquecida no tempo – uma crise de ocasião.

Falo de uma crise que sugere outras crises. Já ouviram falar na crise do autor brasileiro? Dizem que o autor brasileiro – o genérico – morreu numa narrativa em meados do século passado; no exterior, eu não sei precisar a data, mas no Brasil de meus amigos brasileiros – conforme avaliam críticos de crises formais –, o autor foi assassinado numa novela de Clarice Lispector. Em sua última solidão, o autor nativo levou debaixo do braço um livro da notável escritora de Tchetchelnik. Chama-se: A hora da estrela.

Do poleiro de sua vaidade, do cume de seu galho espiritual, o herói desta invenção crônica acionou seus olhos de coruja míope; no intervalo de uma piscadela, a figura ingênua vislumbrou uma passagem – na sua avaliação – digna de reprodução e de referência: página dezoito de uma edição de 1998, editora Rocco. O narrador-personagem  da obra citada, o nomeado Rodrigo S. M., abusa do poder de suscitar imagens; é justamente ele quem proclama o fim da autoria brasileira: “(…) Antecedentes meus do escrever? sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. E só minto na hora exata da mentira. Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou”.

Interpreto na passagem um pretenso e pitoresco fim do autor brasileiro (ou do que se entende como tal). E para espinafrar os críticos de letra menor, (ironia!) o autor deste alarme falso afirma categoricamente na forma caricata de um crítico de letra menor: o autor genérico morreu na página dezoito de um livro originalmente lançado no ano de 1977, sem salvo engano de nota; agora, caso esta avaliação não possua contornos de materialidade corporativa, então podemos decretar: o autor nativo da vida real morreu!

(Mas os objetos artisticamente produzidos não continuam sócio cristalizados?)

Por deleite de acabamento, invento que a responsabilidade por minhas invenções crônicas volta a ser da figura que oferece voz (dito e redito, o grifo mais uma vez é do autor), sujeito voraz, otimista e sempre à espera de um provável epitáfio.

P. S. : Plagiei a leitura do autor Renato de Souza.

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