Historinha de amor medieval – cap 2

atualizado 9 outubro 2016 Deixar comentário

por Francis Macabeo

Se fosse religioso seria melhor, pois na época as duas funções confundiam-se, mas não era nem soldado, nem religioso, nem água e nem vinho. De um lado, sem armadura, cavalo e espada; do outro, sem missão e indulgencias. Talvez o único fato que fazia pensarem que era um homem daquele tempo, época mística e religiosa, era a ideia de que talvez fosse um peregrino, talvez franciscano pela simplicidade das vestimentas. No entanto, não era peregrino de verdade, suas andanças não alcançavam céu algum, menos ainda a redenção da alma. Nessas andanças também não costumava falar com os demais, menos ainda pregava, se orava não sei ao certo, mas se orava é certeza que não fazia escondido. Na época falar com Deus só tinha sentido se o som fosse escutado por toda aldeia. Oração silenciosa veio depois, onde os homens fazem suas queixas e pedidos no silêncio de suas mentes. O fato é que não era peregrino, mas no medievo o que importava não era ser, mas se parecer com algo que fosse. Bastava para os outros acharem que ele era um cristão andarilho em busca da redenção, isso naturalmente tem exceções, Olága era uma delas.

Olága tinha atração por soldados e também religiosos, mas diferente da maioria ela percebeu logo que a peregrinação de Antonio estava distante do céu, mais próximo do que chamamos de vadiagem.

Historinha de amor medieval – cap 1

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por Francis Macabeo

Era o ano de 1413, o mundo ardia entre pestes e guerras, batalhas entre santos e loucos. Em meio ao clima havia certo homem chamado Antonio, não era santo ou nobre, mas esperava da vida a oportunidade de revelar-se.

A oportunidade chegou quando passando pela porta de um palácio apaixonou-se por uma dama conhecida como Olága, um nome distinto e diferente, além de ser ela de uma beleza incomum. Seu rosto brilhava ao dia, como se fosse pertencente aos raios do sol, mas ao cair da tarde revela-se de olhar quase triste, quase sombra, quase negro. Quem na aurora da alma pode vangloria-se da dualidade do espírito, ser duas coisas? Podemos ser várias coisas durante a vida, mas tudo a cada tempo, mas esses espíritos que resolvem ser duas coisas ao mesmo tempo confundem a própria natureza.

No primeiro contato Antonio perguntou-a sobre o que mais admirava em um homem, então ela respondeu que os soldados são encantadores. No mesmo instante o jovem envergonhou-se de não ser soldado.

O sexo

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por Daniel Baz dos Santos

O sabor da noite dentro dos mares
E o mar farto como um espelho.
Um perfume maior que agulha;
sinais do voo óbvio
dos dedos.

A saliva resolve o silêncio.
E o silêncio termina em veia.
A boca brilha como chuva.
O mar teso como teia.

Um grito guilhotina os olhos,
abrigo de cães e estrelas.
Uma flor exilada na mudez.
Um ruído queima nos pelos.

Partiremos de manhã
se existirmos.

De volta com um elemento mágico

atualizado 3 outubro 2016 Deixar comentário

por Mochilowski

Se não fabulo coisas além da conta, na literatura infantil existe uma palavra-chave que explica bem o gênero: o chamado elemento mágico. Passei as últimas semanas pensando nesta ideia, coçando o saco e fingindo ser um narrador fora do comum. Assombração de narrador! Eu andava sem revolta, sem um necessário instinto transgressor, sacam? Pior foi esquecer da correspondência de um público-leitor. Puta merda! Pus a consciência na roda novamente, me fiz sob efeito do álbum Relics, de Pink Floyd, traduzido aqui como “Memórias pessoais ocultas…”. Deus do céu! Voltei a lembrar de um recente Golpe de Estado e da massa analfabeta e do autorrebaixamento da profissão de jornalista em meio ao nosso estado de coisas. Também lembrei de A. Onde estará a menina tranquila, onde? A menina tranquila, lembram-se dela? Ah, a menina tranquila continua desejável ao meu lado. A., a audiência esquecida e um parênteses que nos escapa antes que eu cause uma confusão mental na recepção, me noto um fragmento de memória no conhecido Mundo das Pulgas. Eu então apagando secretamente das profundezas do universo sideral um fantasma que lê literatura e se comporta como. Não! Mil vez não, não quero mais ter estes pesadelos à luz do dia! Mil vezes! Sai de mim imagem pretérita de quem finge entender de literatura apesar da impecável declamação de poemas! Por favor, sai de mim retrato confuso que lê Balzac em madrugada curta e não consegue entender minimamente as complexidades da vida. Sai de mim figura que não sabe colaborar com e pouco nota o ser humano que adoece sem o ar que lhe tomaste da garganta… Cansado de estimular uma miragem, voltei-me supostamente crescido pra uma nota de atualidade. A. é testemunha deste presente narrado. Investi 40 pilas  num título de Casa Grande & Senzala! Realizei um sonho antigo de leitor sem pátria em pleno centro antigo de Sampa. A. e eu voltamos à banca de livros onde o exemplar de Gilberto Freire nos esperava. Eu interessado num esquecimento para me concentrar sobre o que mais interessa a um resgatado cenário de mundo. O livro estava em minha mãos, nem pude acreditar quando me desfiz de uma nota de 50 pilas escondida no bolso para ficar com um troco de 10 que me faria mudar de sentido daquele momento em diante.

E antes que pensem que eu encontrara um manual ou um tico de remédio, eu me antecipo: achei uma senha para tentar entender o que não se pode entender completamente. Na real, eu não sabia o que me esperava após adquirir um livro que escancara uma história como um educado dedo em riste. Foi só eu tomar posse da 17ª edição de um fino tratado sociológico sobre a cultura de um povo para reconhecer entre viventes seres invisíveis que escancaram a vida sampeana como escancaram o cotidiano de qualquer lugar, capital ou o caralho a quatro deste país. Me pus a folhear o exemplar… Logo, o meu ponto de vista ficou turvo, minha cabeça pesou, de súbito parei o ato para me dar conta de um esgotamento vazado no chão de um futuro…

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Bônus de imagens do episódio

                              

Com a palavra precisa

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por Daniel Baz dos Santos

com a palavra precisa
costuro o céu em teu corpo
terminaram-se os dias
mas em outra canção

com a palavra precisa
alimento tua pele
teu nome é um contágio
e dói como se fosse livre

com a palavra precisa
mato de fome tuas mãos
o vento é um falso caminho
e respira por nós

com a palavra precisa
torno-me legenda de pássaros
bebo a água funda de tua voz
sobrevivo à bondade

com a palavra precisa
abro a tarde e te reconheço
depois é que feridas e portas
se completam na saída do corpo

O absurdo de nós

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por Nina Alencar Zur

Pensei em escrever coisas bonitas. Mas coisas bonitas não cabem nas coisas apaixonadas.

Quis escolher defeitos. Os defeitos das pessoas. As qualidades são meninas de saiotas bem comportadinhas, nunca me causaram espanto. Com os defeitos a gente tem que conviver como quem vive com dor. Tem que respeitar a porra da dor. Achava que era possível escolher defeitos. Sabia que dava um puta trabalho, mas achava possível. Até o dia em que me apaixonei.

era uma luz brilhante vermelha foda
                                                                  e
                                                                       um
                                                                          abismo

Comecei a escrever um livro sobre esse dia. O dia em que me esqueci de procurar defeitos. O dia em que me lembrei de procurar defeitos e não os encontrei. O dia em que descobri que o maior trabalho de todos era se apaixonar. A paixão tem uma cara suja, um pouco triste. Paixão tem cara feia. É ela o grande defeito.

Era um dia bem escroto. Só agora, rabiscando dentro do ônibus, através dessas letras trêmulas, me dou conta disso. Tinha chovido, tava nublado e tudo úmido. As roupas no meu varal tavam fedendo. A gente perde a noção das coisas quando acha que chegou alguém pra acabar com todos os problemas do mundo. É exatamente isso. A gente não se apaixona pela pessoa, mas pela ideia de que ela será exclusivamente responsável por tornar a existência possível. A gente finge não saber que a vida é impossível. Pelo menos até a primeira insônia.

Ontem foi seis de janeiro, dia de reis. Fez cinco anos do dia em que me apaixonei. Fiquei com preguiça de ouvir o barulho do chuveiro e pensei em acender velinhas e cantar parabéns para mim. Cinco anos de uma estrada da qual eu tô tentando sair há cinco anos. Resolvi meter o pé na estrada de verdade. Peguei o iPod, deixei um bilhete na geladeira e hasta luego.

levantei, calcei meu chinelo mais confortável e fui viajar.
deixei você.
uma hora eu volto.

Acho que tô fazendo a coisa certa. Já faz doze horas que entrei nesse ônibus. As coisas tão passando depressa, mais até do que as horas. Mas eu ainda sou a mesma pessoa que deixou aquele bilhete sob o ímã de Machu Picchu. Ainda sou a mesma pessoa que esteve em Machu Picchu, tentando inventar uma nova forma de viver a dois. Ainda sou isso tudo que se perdeu. E não me importam esses chinelos gastos. Vivo mesmo é de distâncias.

A pessoa por quem eu me apaixonei. A pessoa que resolveria todos os problemas do mundo. Ela ronca. Ronca como esse cara do meu lado, igualzinho. Mas agora, dentro do ônibus, escrevendo, tentando entender esses cinco anos, não acho que um ronco seja uma boa maneira de pensar em tudo. Não acho que um ronco seja um jeito legal de comemorar esse tempo. A gente pode comemorar o tempo?

Passei a noite acordada. Doze horas. Quase treze agora. Doze e quarenta e três. Se o meu relógio estiver funcionando. Se o tempo ainda continua o mesmo. Se eu ainda entendo o tempo. A noite tava relax, sem muito carro na estrada. Tive que mijar no banheiro do ônibus. Atravessei o corredor e senti tristeza pelas pessoas dormindo, tão feias. Quando a gente tá triste, acho que a gente acaba colocando tristeza nas coisas. Feiura nas coisas. Depois que eu voltei pro meu lugar, fiquei um tempo pensando naquelas caras. Todo mundo ali tão apertado. Tava meio assustada e o ônibus fez a parada de meia hora. A parada de meia hora que parece a mesma de todas as viagens. O mesmo lugar, os mesmos funcionários, os mesmos viajantes com cara de sono e prisão de ventre. O mesmo pão de queijo borrachudo. O mesmo desprazer. Talvez o tempo seja sempre o mesmo. Talvez sejam inúteis os cinco anos completos do dia em que me apaixonei e as dozequasetrezehoras que tô na estrada.

1+1=2
12quase13=2
5anos=2
mas nada disso significa alguma coisa
é apenas o absurdo
o absurdo de nós

É o Inácio a pessoa por quem eu me apaixonei (o absurdo de nós). O nome pouco importava, mas o sorriso só podia ser aquele do Inácio (o absurdo de nós). Antes de qualquer outra coisa, foi pelo sorriso do Inácio que me apaixonei (o absurdo de nós). Ou pelo jeito de sorrir, não sei muito bem explicar a diferença (o absurdo de nós). O que eu sentia era uma coisa fora do comum (o absurdo de nós). Acabei me acostumando com o sorriso dele, mas de vez em quando ainda levo uns sustos bons (o absurdo de nós).

Talvez o Inácio tenha lido o meu bilhete e sorrido. Talvez não. Talvez ele esteja puto. Quando o Inácio fica puto, ele para de falar comigo e vai digerindo o problema sozinho. Ele diz que é melhor desse jeito. Se ele tiver puto, pelo menos eu não tô lá pra ser ignorada. A gente subindo o Huayna Picchu sem conversar. A cara de cu do Inácio e a falta de ar. A altitude, o silêncio. Mas talvez ele tenha lido o meu bilhete e sorrido.

Era um dia nublado. Nada parecido com esse que eu vejo pela janela, de manhã amarela.

O absurdo de nós.

A suficiência de deus

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por Daniel Baz dos Santos

Não quero comer animais.
Saio pela rua e as sombras
ambicionam meu silêncio,
meu crepúsculo colorido,
minha névoa empoeirada.
Não quero comer animais.

Ando pela praia,
farelos de pão nos cabelos,
quero temê-los, aos homens
que buscam o sossego
armados de desculpas.

Não sou eterno, mas posso ser salvo
em ambas as pontas da espada.

Os peixes são tão humildes
que não podem se sacrificar.
Quero comê-los crus.
Abandonar em seu lago dormente
minha lua vazia.
Nada se promete a um peixe.
Exceto a fome, rugindo entre os dentes,
um golpe de panos na pasta dos olhos.

Não quero comer animais.
Entro no carro. Alguém me rouba.
Deus sofrerá em outra gruta.
Em qualquer escassa tinta,
minha fome se enredará aos pássaros.

A descoberta do Mundo das pulgas

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por Mochilowski

Uma tarde de passeio ou uma revisita ao Vale do Anhangabaú, região central de Sampa. Mais precisamente, fazia a vez de periodista no chamado Mundo das pulgas. Depois de prestigiar um show dominical de João Perreka e os Alambiques, A. e eu demos dois, talvez três passos e pouco na direção de um fervo. Literalmente, num pulo? Não que metaforizássemos o nome daquele mundo com destacada – ao menos pra mim – dimensão fabuladora. O retrato das pulgas era fantasia, mas a sua atmosfera de vida social era bem concreta. Os cigarros clandestinos, que mencionei em um diario anterior, continuam neste como uma quase mensagem no ar entre os figurados vivos mortais. Bem, não tive problema algum em entrar no clima de vendedores e de compradores. Até me senti bem como uma animada pulga entre outras supostamente nominadas. Não escancarei pra menina tranquila se ela estava gostando de ser uma persona. Achei melhor deixar minhas abstrações na cachola, sem promover uma batida sensação de pulgas atrás da orelha. Mas minutos antes fiquei curioso pra descobrir o nome da feira… Não, não foi difícil descobrir o nome da feira de domingo naquele cenário onde democratas nativos costumam celebrar datas e momentos históricos. Se me recordo bem, foi um vendedor de livros que me informou que a tal feira ocorre uma vez por mês naquele espaço. Digo, o sujeito não assegurou precisão da informação. Assim como A. e eu, o vendedor de livros usados a quem eu me dirigi com a primeira de minhas entrevistas informais estava ali, fazendo a vez de pulga, pela primeira vez. Tá, não sabe; também não sabemos. Pensei. Que tiozão é este que não sabe onde vende suas mercadorias? Vem pra feira e não sabe o nome da dita cuja. Fiquei tentado em reproduzir uma ênfase retórica como um duvidoso ator indignado, a poucos passos de um dos monumentos mais tradicionais da cidade: o Teatro Municipal. A uma breve distância e por mais de uma vez, dobrei o pescoço e mirei um horizonte contemplando o monumento onde Mario de Andrade, Oswald de Andrade & cia fizeram história em 1922.

De volta ao presente. Eram tantas os vendedores de livros que eu quase não me contive. Um perigo estas pulgas vendedoras de livros! Eu não podia ver livros, e já pensava em comprar. Já A., não podia ver roupas. Isso! Tinham roupas no local. Os vendedores queridos não estavam pra brincadeira. Tinha muita coisa à nossa disposição. Livros, roupas, sapatos, quadros, pulseiras. Peloamorde. Como tinham bijuterias naquele pedaço! Mas foram os livros que me chamaram mesmo a atenção. Em especial, um deles. Mirei bem numa capa. “Quanto é?” “Quarenta?” Segurei o título nas mãos. Li bem: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freire. “Hummm…”, fiz em voz alta. O vendedor ficou apreensivo com o meu “hmmm…” (me perdoe, o vendedor não ficou apreensivo com o meu “hmmm…”). Pensei na solitária nota de 50 em meu bolso. Fiz suspense. Disse ao sujeito que voltava depois.

Na verdade, eu não sabia se voltaria depois. A menina tranquila pareceu interessada em andar. Andamos e paramos um milhão de vezes pela feira. Enquanto A. folheava um cabideiro de vestidos, eu só conseguia processar frases atravessadas num monólogo interior: “Casa Grande & Senzala…”; “Quarenta pilas…”; “Compro…?”; “Compro ou não compro…?”.

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Bônus de imagens do episódio

                      

A última hora da noite

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por Luiz Augusto Rocha

O que fazer agora
que a hora da noite,
derradeira e angustiante,
comprime o tempo que falta?

Semana passada eu ainda corria
brincando nas trincheiras do quintal,
entre frutas, flores, insetos e tanto mais,
que não mais lutava contra o sono.

Ontem, eu fui atrás de muita coisa,
de livros, exercícios, amigos, risos
indisciplinados, largos, cientes…
E caí no início do quarteirão.

Em casa, a mobília agora não guarda nada,
já as caixas aguardam o carregamento.
Os animais estão dormindo tranquilos
com as janelas e portas abertas.

A manhã que se anuncia, mesmo tímida,
num misto de cansaço, ansiedade e alegria,
abre-se no cantar do galo e dos passarinhos
perguntando o que tem para amanhã.

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Texto publicado originalmente em Modesto cabotino.

As pessoas que foram às ruas

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por Daniel Baz dos Santos

(em repúdio aos que apoiaram o golpe)

As pessoas que foram às ruas não costumam andar pelas ruas. Há um defeito nas ruas de feder e de sujar e há muita gente pelas ruas que fedem como as ruas e são sujas e são feias como as ruas. As pessoas que foram às ruas não construíram as ruas. Por isso, não entendem o fluxo das grandes proporções, dos veículos, dos bombeiros, da desnutrição aparente, da pressa que também é sono, do sono que também é fé.

As pessoas que foram às ruas não conseguem conviver com o ininterrupto revezar de eventos das ruas, com as cores frágeis, como coágulos, que mancham os arranha-céus, as roupas e, em esquinas agudas, as falas desmoronadas dos pedintes. As pessoas que foram às ruas não protegem as ruas. Mal sabem do azedume tocado a hálito, a decepções precoces, a má genética, que há anos vêm enrijecendo as paredes mornas.

Mal sabem da violência de certos becos e da irresponsabilidade com que o céu afla, pendurado em algum edifício de alguma multinacional. Os que foram às ruas não entendem da chuva dentro das botas, não sabem do calor com que o crepúsculo entorna avenidas tristes, nem da neve com que a noite adorna o peito dos tuberculosos. As pessoas que foram às ruas não trabalham nas ruas. Pouco entendem do jejum de cada dia, da inconveniência do amor diante do ponto diário, do bater do ponto, do estar a ponto de estar na rua. Quem foi à rua, nunca esteve no olho da rua, nunca esteve de molho, nas filas de contratação, a carteira inchada de fotos 3X4, de Curriculum Vitae, o sangue sem força sequer para a miséria.

As pessoas que foram às ruas não usam das ruas. Não podem entender a melancolia com que os aposentados esperam os ônibus lotados, dentro das mãos a ressaca dos dedos, a morte, à prestação, em cada porção de fracassos requentados, a refeição ruim e pouca, a saúde ruim e pouca, a desistência das cores, o desossar da esperança.

As pessoas que foram às ruas não se alimentam nas ruas. Quando as crianças famintas provam o sal das vitrines e aceitam a língua como o látigo dos dentes, e exibem um talhe de terra onde antes carregavam palavras, elas não veem. As pessoas que foram às ruas não dormem nas ruas. Quando os mendigos alongam o escuro para aquecer os pés, elas não veem. Quando as sirenes turbam os cadáveres dos negros e quando os gritos inauguram outras horas, amoladas nos ângulos íngremes que sustentam as pontes, elas não ouvem.  E se as prostitutas trazem nas pálpebras o silêncio das pedras, e não há promessa que esvoace os vestidos ou que limpe a lágrima, nada disso chega às pessoas que foram às ruas. E se caem operários dos prédios, para se perderem nos canteiros alagados de dores, nos quintais enfumaçados por vozes débeis desatadas, elas não sentem. E se os taxistas trazem na mandíbula esguia um pequeno milagre metade verbo, metade sede, elas não ligam. Os que foram às ruas nada compreendem dos que usam a fome como contrapeso, equilibrando os músculos tocados de frestas como velhos frutos. Dos que estocam vazios para esconder a raiva. Dos inválidos sem assistência, do chuveiro queimado nos lábios, do esgoto à vista nos pelos, da higiene ruidosa e escura das unhas mal cortadas de todos os que sempre estiveram nas ruas.

As pessoas que foram às ruas têm medo das ruas. Nada os assusta mais do que a manada de olhares que desagua em suas joias, em suas carteiras, em seus cintos de couro, em seus relógios de ouro, na pouca blindagem da pele. Aterrorizam-se ao pensar que o cardume de mãos pode tingir para sempre seu perfume, que o coquetel de odores pode abolir de vez a correção de sua gramática, a marca do seu tênis e o clareamento dos seus molares.

Quando os ambulantes assoam o nariz, eles temem. Quando os motoristas bebem álcool, eles tremem. Quando as empregadas têm filhos, eles surtam. E todo ranho, toda cachaça, toda placenta escassa vai dar nas ruas. Todo aborto clandestino, o sabor das cáries, a caspa, as dívidas, as camisinhas usadas terminam nas ruas. Os furos nas meias pontilham a manhã. A neurose dos pobres. A frutose dos pobres. A cirrose dos pobres. A fimose dos pobres. Tudo o que faz das ruas um lugar inabitável. A necrose dos pobres. As pessoas que foram às ruas foram para não ter mais que voltar às ruas. Foram às ruas para nunca mais precisarem se importar com as ruas. Os que foram às ruas já desistiram das ruas. Fizeram delas uma passagem (talvez uma ponte?) de volta para sua predatória glória.