Obituário

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por Nina Alencar Zur

Um corpo no chão, uma história. Um, dois, três, quatro passos até o jornal, a coluna estala, o jornal finalmente na mão, o corpo largado na cadeira. Um cigarro aceso. Josué sua, o ventilador roda, não há vento que fique, mas é sempre o mesmo vento. A fumaça do cigarro, o suor na testa, o jornal. Um corpo no chão, uma história. As páginas do jornal, matérias inúteis, moda, verão, e essa gente que não sai do jornal. Fama, glória dos imbecis, as páginas, páginas, páginas. O vento não fica, uma página vai embora pela janela, o sol, vidro sujo, o cinzeiro. Uma, duas, três, quatro páginas, não há notícia que fique, mas é sempre a mesma notícia, não. Obituário. A morte, glória de todos os imbecis, não há gente que fique, mas é sempre a mesma gente. Um corpo no chão, uma história. A coluna estala.

Um. Maria Aparecida Ribeiro, 67 anos, o câncer, a dor. Um, dois, três, quatro anos, o suspiro, o descanso. Amém. A família convida para a missa de sétimo dia, que vão os alunos da universidade, o sexto andar do prédio, o mestrado em políticas públicas. As tardes de segunda, os artigos, o suor, o cigarro, não há cigarro que fique, mas é sempre o mesmo cigarro. O câncer no pulmão. O sexto andar do prédio, a tontura, a falta de ar, o Deus nos acuda, o hospital. As tardes de segunda cada vez menos tardes de segunda, as visitas, os olhares de pena, os alunos da universidade, o consolo. O riso sincero, o pranto escondido, o valha-me Deus, o abraço, a despedida. Amém. A família convida para a missa de sétimo dia. Um corpo no chão, uma história.

Dois. Afonso Reis de Lucena, 86 anos, viúvo, o mau humor, o reumatismo. Os filhos e netos lamentam a perda, não choram; o velório, os antigos colegas, a solidão. O café amargo, os dias inteiros juntando petições aos autos, a noite, o cansaço, a mulher. O divórcio, não há mulher que fique, mas é sempre a mesma mulher, a reconciliação. A noite, só à noite, a ausência, o trabalho, a solidão. A mulher reclamando, um, dois, três, quatro filhos chorando, o cansaço, o café amargo. A aposentadoria, já não há mais mulher, os filhos não fazem visitas, os antigos colegas não atendem ao telefone. O tempo não passa, não há tempo que fique, mas é sempre o mesmo tempo. Viúvo, o mau humor, solidão, velhice, reumatismo, o fim. Os filhos e netos lamentam a perda, mas não choram. Um corpo no chão, uma história.

Três. Teodora Martins, 24 anos, a estrada, a bebida, o traumatismo craniano. O futuro brilhante, o diploma de medicina, a residência, a viagem. O cachorro na casa dos pais, a mala feita, o celular carregado. Livros que ficam na estante, a praia não precisa de médicos, o sol, o mar, o balanço da rede. O último dia, um, dois, três quatro copos, o álcool, o delírio, a paixão. O carro, a chuva, o pé no acelerador, a curva, não há curva que fique, mas é sempre a mesma curva, a perda de controle. A luz, o barulho, a sirene. O futuro sumindo, a medicina sumiu, o telefone toca de madrugada, o cachorro late na casa dos pais. O desespero, o futuro era brilhante, o anel de noivado também, mas a curva era sempre a mesma e ficou. Flores na praia, flores na estrada, flores no cemitério, mas as flores não cheiram a nada. Um corpo no chão, uma história.

Quatro. Marco Aurélio Mendonça Filho, 38 anos, o som dos tiros, o pulmão perfurado, o sangue. Os pais pedem que a luz divina o acompanhe, onde quer que esteja. Nada faz sentido nos relatos de amor, nada faz sentido numa mulher apaixonada com uma arma, com uma arma apontada, como se a arma fosse o próprio coração, ah, o amor. Um, dois, três, quatro tiros, a camisa branca vira uma camisa vermelha. Vermelha como o batom da mulher traída, e aquele corpo no chão, aquela história. Os gemidos de dor, os gemidos de prazer, a cama de hotel, não há cama que fique, mas é sempre a mesma cama. A obsessão, o conhaque, a arma. O encontro no hotel de toda quinta-feira, por que você faz isso comigo, eu sou uma desgraçada, você me desgraçou. Não há desgraça que fique, mas a desgraça é sempre a mesma. O fim. Um corpo no chão, uma história.

A coluna estala. As páginas, o suor, o vento, vidro sujo, cinzeiro. Um, dois, três, quatro mortos impressos no jornal, quatro mortes inventadas, quatro mortes. Não há morte que fique, mas a morte é sempre a mesma. Josué deixa o jornal de lado, já perdeu tempo demais com aqueles nomes, aquelas idades, aquelas coisas que não têm nome e nem idade porque são apenas tinta, já morreram. Um corpo no chão, uma história. A coluna dói, o ventilador para de rodar, um, dois, três, quatro passos até o banheiro. O espelho, o suor, a torneira, a água no rosto. O pulso, o relógio, já é fim de tarde, mas a tarde não tem fim, é sempre a mesma. O pulso, o puls, o pul, o pu, o p. p. p. p……….. O coração não bate mais, mas a cabeça pensa, e roda, e pensa, e roda. Um corpo no chão, uma história. Um corpo no chão do banheiro. O corpo de Josué no chão do banheiro, o azulejo frio do banheiro, mas estava quente, o ventilador rodava, e agora é frio, o chão e o corpo também. Frios como a folha do jornal que não será impressa, o nome Josué fora da folha, o nome Josué só no chão do banheiro. Um corpo no chão, uma história.

One Response to “Obituário”

  1. Otto Ramos

    Puxa!! Que bacana! Tinha bastante tempo que não lia nada tão agudo e tão bem trabalhado nas palavras. Gostei muito!

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