O sotaque

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A língua portuguesa na forma de cardápio em Cascais

por Nadson Vinícius dos Santos

A cidade de Cascais fica a alguns minutos de Lisboa, é um lugar de praia, perfeito para o veraneio. Sua infraestrutura é voltada para o turismo; ao chegar nela nos deparamos com lojas de souvenirs, bares, hotéis, marinas e restaurantes que se dedicam quase que integralmente ao ramo turístico, e foi em um desses restaurantes de Cascais que se passou comigo um caso engraçado, o qual desejo narrar nesta crônica. Era o final da tarde e depois de visitar vários sítios interessantes busquei um restaurante onde pudesse jantar, ao entrar perguntei: O que tem para comer? Abrashet, me responde o atendente. Contesto eu: o que é isso? Abrashet foi a resposta. Sim, o que tem neste prato, do que é feito, é comida portuguesa, dentre outras perguntas que o bombardeei, e sua resposta frustrou completamente a expectativa da fome que trazia: “não, o restaurante abre as sete”,  falou-me bem devagar. Aí notei que o mau entendido se dava por conta do sotaque.

Todo brasileiro, ou melhor, todos os falantes de língua portuguesa sabem que existem diferenças capitais no modo como esta língua é falada nos diferentes continentes. Além disso, sabe-se que o sotaque português apresenta características que logo o identificamos. Até que nos acostumemos, certos fonemas portugueses podem nos causar estranheza, graça e até mau entendidos como na anedota que narrei.

A diferença entre o sotaque brasileiro e o português além de outras características se dá pelo fato dos lusos comerem algumas vogais das palavras, bem como chiarem todos os “s” das frases, assim, carícia vira “crícia”, cais do sodré transforma-se em “kashodré” e assim por diante, no meu caso a confusão se estabeleceu quando o gajo além de ocultar o sujeito da frase “o restaurante” ainda   engoliu o “e” de abre, chiou o “s” e omitiu o último “e”, o da palavra sete, logo a frase me pareceu uma única palavra: “abrashet”.

Para mim, o sotaque significa uma pequena diferença em relação às representações culturais, e também um espaço de liberdade que deve ser respeitado. Longe de qualquer fundamentalismo, nós abrimos a boca como sujeitos culturais e nisto marcamos nosso espaço de resistência, e é algo tão sutil que qualquer aproximação transforma-se numa mímica, numa imitação reconhecida pelo outro. No Brasil, eu falo como nordestino; no nordeste, eu falo como baiano; em Lisboa, eu falo como brasileiro. Nesta frase demonstro como as identidades são complexas e fugidias a tipos rígidos de classificação, e o sotaque que traiu o apóstolo Pedro quando da prisão de Cristo, segue traindo qualquer outro que tente se esconder de uma marca indelével, então, que digo eu? Cada um que assuma sua cultura e seu sotaque sem conflito! Viva a comunicação!

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