O segredo de Falso maltrapilho

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atualizado 16 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

Cadê a minha vontade ou necessidade de chorar?

Não recordo se a perdi há um tempo em minha cidade natal. Não a sinto mais em meu corpo, eis uma imagem que se perdeu numa página qualquer.

A propósito, tento folhear uma obra aparentemente misteriosa e percebo que não existem mais páginas anteriores. Desconfio até que as páginas anteriores nunca existiram. Mas eu sei da existência das páginas anteriores. Só não as vejo mais.

Reparem. Um tempo atrás, eu posaria de cara legal; hoje, não sei se posso dizer o mesmo.

Melhor. Acho que desaprendi tal macete.

Acordado, penso em ocupar a cabeça. Ok, pego um objeto e miro firme nele. De uma piscadela, sem esforço, sai muitas abstrações. Uma chama de delírio surge. E se alguém plagiar a pegada de meus passos…? Sonâmbulo, não vou muito além de uma paranoia. Vão roubar a minha biografia, minha vida será furtada por um gênio de ocasião. Se deduzo bem: tem gente que consegue coisas prodigiosas e a gente fica observando e tal. Cogito então uma persona que consegue proezas quando destoa da multidão de seres socialmente regrados, e que leva jeito para ignorar o que normalmente cerca a retina.

Por exemplo, um dia testemunhei que um camarada meu, muito conhecido em Tarumã, fingia (e ainda deve fingir!) ser um maltrapilho, um notório cidadão de sarjeta.

Logo, realço um nome próprio: o Falso maltrapilho!

Falso maltrapilho. Esse leva jeito com o público, esse adora um auditório ou um aplauso fácil! O seu desempenho cênico, inclusive, pode ser comparado a de um repórter sem formação acadêmica. O sujeito tem grande audiência local!

Sujo dos pés à cabeça. Ali, bastante próximo; ali sempre numa esquina da cidade.

Este Falso Maltrapilho é muito mais sujeito do que podemos imaginar; um sujeito de sorriso sarcástico no rosto e… sujo! Sujo, sujo, sujo! Um notável mala, e quero crer que muitos em Tarumã até o invejam por sua falta de senso do ridículo.

Didático, Falso maltrapilho fala como a tascar um tempo presente na cara de inúmeros tarumaenses. Tenham a certeza: a vaidade é escrava deste Falso maltrapilho. Ele domina por completo a falta de vergonha na cara. E poucos sabem na caprichosa Tarumã, que este catador de papel tem dinheiro no banco. Anotem o que eu digo: tem grana, e muita!

Ouvi dizer que Falso maltrapilho comprou até um terreno no bairro Vila Brasil, um imóvel destacado, adquirido com a verba exclusiva da venda de papelões e de alumínios jogados em vias públicas.

Indagado por mim, outro dia, ele negaria veementemente esta nota informativa. O sujeito jurou – que não! – pela memória da mãe e pelo rabo seboso do diabo (dizem que diabo tem rabo seboso). Com ar de deboche, Falso Maltrapilho me respondeu com a fuça de louco e com um verso de rua:

– Olho vivo, o da reportagem, olho vivo malandragem!

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