O outro lado da ostentação

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por Nadson Vinícius dos Santos

 

Se liga playboy,

Fica de olho no esquema,

Tem muita gente boa

morrendo na mão do sistema (Wesley Correa)

 

Quando saí do Brasil, o país se deliciava na ostentação. A parte onde mais se sentia esse fervor era na música popular ou cultura de massa como alguns costumam definir. Como a determinação teórica é bem complicada, e não pretendo fazer nada além de uma crônica, deixarei de lado a determinação teórica, mas o fato é que gêneros musicais como o arrocha, o pagodão, o sertanejo (universitário ou não), o forró, e claro, o Funk (a lista é longa) não deixaram de produzir seus discursos em torno da ostentação.

A difamada bebida

Um dos fatores deste fenômeno (a lista também é longa) que mais saltam à vista é o fato do país ter redistribuído a renda. Ou seja, aqueles produtos antes inacessíveis tornaram-se (parcelados ou não) alcançáveis. A distância que separava ricos e pobres, ao menos no que tange ao consumo, diminuiu a olhos vistos. A ascensão social de pessoas representativas de alguns setores sociais através de sua arte (aqui incluo todos os ritmos que citei) gerou um discurso de superação, e claro, de ostentação. E a distância entre a representação e a realidade não ficava tão grande.

Claro, não vamos comparar a vida um cantor sertanejo com a de um operário, mas quando um determinado cantor professava “os plaquê de cem dentro de um citroen”, o sujeito que ouvia poderia não ter um citroen, mas tinha um carro popular, ou seja, podia ostentar também. De ônibus ele não voltava para casa, poderia ficar na rua até mais tarde só com poucos inconvenientes. O discurso da ostentação atingia tudo: roupas, alimento, transporte, vida sexual… enfim, tudo. E nessa onda, alguns itens foram postos no cânone da ostentação, e aqui me acerco do objetivo desta crônica, que é falar das bebidas alcoólicas.

Neste sentido, o uísque foi a bebida que mais brilhou no hall das ostentações, de repente, todos entram na febre de consumir a tal bebida. Ela tornara-se acessível. O que tem a ver isso? Nada. É uma bebida cara se comparada à cachaça? É. Mas cada um que compre o que lhe desejar. Este texto não é uma bula papal, e além do mais, o cronista também aprecia o drink.

Contudo, (tinha de vir o contudo) atribuir fidalguia a esta bebida com base apenas em seu preço sempre me incomodou. Na verdade, eu sempre tive aversão ao discurso “é bom porque é caro”, pois a carestia de um artigo importado não é necessariamente uma qualidade do produto em si, mas uma característica atrelada às tarifas alfandegárias e aos acordos comerciais internacionais.

E para provar minha hipótese fui a um supermercado aqui em Lisboa – onde ostento no momento a minha presença de crítico das ostentações – ver o preço de nosso famoso e tão difamado 51, o dito cujo custava quase 9 euros. 27 reais. Se você coloca na conta o limão e o açucar, a conta sobe mais 5 euros, 15 reais. A caipirinha para ser feita em casa sai em torno de 14 euros, ou seja, 42 reais. Aí se pode argumentar, ah! Mas na Europa todo mundo ganha em euro, 14 euros é nada, se fizer o câmbio dá isso, aquilo ou aquilo outro… enfim! Diga o que quiser, mas eu acho 42 reais um valor significativo. Como não sou economista para discutir câmbio ou outras coisas do ramo, fico por aqui com minha crônica pensando sobre o outro lado da ostentação.

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