O homem que entrou pra ficção – parte 2

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atualizado 16 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

A segunda dose?

Nem precisei forçar o gesto, o homem que entrou pra ficção se adiantou:

– Vendedor, mais uma aqui!?

Pausa teatral. O homem que entrou pra ficção quase engasga com a própria saliva, percebi no momento em que ele tascou um olhar enigmático pro lado do vendedor; ou melhor, meu parceiro quis saber da pessoa do lado de lá do balcão.

– Qual o seu nome mesmo?

A figura de lá faz breve suspense…

O homem que entrou pra ficção compartilha comigo rápida introspecção: sou uma imagem de “múmia da modernidade sem esparadrapo na superfície do rosto”.

Estranhamente confundida com o vendedor, a mulher do vendedor insiste com certa mudez diante de nosso aparente (ou não tão aparente assim) processo de mumificação. Um constrangimento! Ficamos com vergonha da então confusão de gêneros.

Percebo que a múmia, ops!, noto que o amigo de bebida não se importa muito com a própria falta de senso de realidade. Ele logo faz um sinal de diminutivo à meia altura com o polegar e o indicador da mão direita.

– Tonha, vê aí pra gente mais uma dose de Padre Anchieta!

O cada vez mais alegre homem que entrou pra ficção, de certo modo, passou a evocar um velho freguês da casa, como se o Bar do Cido pudesse ter ares taberneiros da São Petersburgo dos romances de Fiódor Dostoiévski. O parceiro então balbuciou algo inusitado:

– Percebo que falta aqui um cachorro sarnento aos nossos pés.

Disfarcei um olhar de vaguidão, seguido de um “hã?!” e de um “quê?!”

Seguro firme o meu já propagado riso de palhaço sem circo. Digo ao parceiro de pileque, e em tom de cochicho, que esta “imagem de cão sarnento” não “pega bem” no Bar do Cido. Fiz o favor de ser mais direto:

– Véi, por aqui nunca vi uma imagem tão ficcional!

– Não mesmo…? – o outro insiste com o olhar desconfiado.

Quer dizer, já ia me esquecendo desta história de taberna tarumaense. Recobro certo senso de realidade:

– Afinal de contas: que história é essa de homem que entrou pra ficção?

Dessa vez quem abusa do riso de palhaço é o nosso amigo; por um instante, fico sem jeito com a reação sarcástica deste sujeito.

Então projeto um retrato de cinema hermético, escancaro uma pergunta com ares de impaciência e curiosidade:

– Quem é você, o da risada?!

Um pouco fora do tom, a pergunta chamou a atenção de outros pilequeiros dentro do Bar do Cido.

– Tá maluco, companheiro?! – um deles se arriscou na minha direção.

Juro, eu podia jurar que eu não falava sozinho naquele momento, eu podia jurar.

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