O caso do suposto caloteiro

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atualizado 29 setembro 2018 Deixar comentário
No Bar do Mendes, por acaso (Renato S. M.)

por Renato S. M.

Fiquei pensando na figura do fulano que, fazendo companhia a uma mulher, sai subitamente correndo pra não pagar a conta da bebida ou, vá lá, pra deixar de ajudar a pagar. A cena me deixou besta e com a cara no chão, ali dentro do Bar do Mendes, naquele templo das paredes e chão sebosos. Quem não me notou em outro episódio, na condição de testemunha ocular dentro do bar do querido rabugento do Mendes, vejam bem. Noto-me rente a um balcão. Há poucos instantes, um banco vazio se chocou violentamente contra o meu. A batida me fez imediatamente abandonar a audiência de um futebol na TV. O boteco lotado, até então sem incidentes, parecia querer contrariar o curso dos fatos até ali. Vi um cara correndo, tudo bem que vi de relance. A mulher, visivelmente injuriada e agora em pé, levou a mão esquerda no banco onde estava sentada e fez aquele movimento de “seu fila da mãe!”. Corrijo-me: a mulher se expressou como se tivesse possessa, indignada com a atitude de um canalha. Se ela sabia com quem estava, isso eu já não sei. O que sei é que ela teria se levantado e levado a mão esquerda que resvalou no banco onde estava com o popozão e fez com que o seu banco, no dizer técnico-policial, colidisse com o meu. O acento da mulher colidiu contra o meu e eu, logicamente, me assustei ou fiquei surpreso. Se eu não mentalizei um “que porra é esta…?”.

Foi engraçado até. O cara saiu correndo pra não pagar a bebida da mulher ou a sua própria bebida. Martelei fundo: aquela imagem na cuca; enquanto eu bebia uma Itaipava quente. Só me faltava esta: estar bebendo uma cerva quente! Estava entre indignado e resignado com aquele fato. Quer dizer, não daria tempo pra que eu ficasse ali procurando assunto para pensar ou pretexto pra pretextar. Não demorei a ficar ali chorando as pitangas com a cerva quente, a mulher injuriada se dirigiu ao caixa onde estava Mendes, o patrão do estabelecimento. Corri os olhos na personagem.  No caminho do balcão para o caixa, vi a mulher contando um dinheiro. Parecia não ter tudo pra pagar. Enquanto fingia ver o jogo, espiava aquela. Mendes atendia um cliente. Só em seguida atendeu a mulher. A imagem de que a mulher não tinha grana, passou rápido e eu olhei pro alto, o clássico argentino da Copa Libertadores estava até interessante. Independiente x River Plate. Súbito, uma voz alta interrompe a atenção de quem ali tinha atenção: “TINHA QUE SER PUTA MESMO”. Não é que era o sujeito fujão, que voltava? Por um momento eu ri mudo e pensei: “A consciência apertou, digo, a consciência pesou e o malandro voltou pra pagar ou pra ajudar a pagar a conta. Lembremos: era noite, feriado municipal”. O homem voltou, mas não foi por espontânea vontade ou não me pareceu ser, tive certeza: exatos vinte segundos depois que o fujão ressurgiu, duas companhias vieram atrás. Duas companhias, digamos assim, fardadas.

Dois policiais vieram no encalço do fujão. Eu fiquei sem saber se ligaram pro 190 ou se alguém em específico avisou a polícia. Os policiais militares chegaram atrás do suposto caloteiro, que me deixou em dúvida: chegou antes dos policiais ou chegou forçado pelos homi? Só não dei uma gargalhada, porque eu chamaria a atenção além da conta no momento. Tá, só não ri porque a cena era tensa. Neste meio tempo, o suposto caloteiro ficou ali cercado pelos policiais, forçado a pagar o que devia. A mulher ficou na entrada do boteco, falando alguma coisa difícil de entender à distância. Reclamava de algo, disso não tive dúvida. O suposto caloteiro se afastou do caixa, junto da dupla de policiais fardados. No mesmo passo, a mulher saiu do boteco falando alto e sem se fazer de entendida. Aparentemente. O carro da PM ficaria com o sinalizador giratório ligado. Dentro do boteco, Mendes não arredava o pé do seu lugar cativo. Na real, Mendes se quer esboçava reação a partir de seu caixa sagrado. Como se o caso fosse banal. Frisei em Mendes, o irmão do Ricardote, do Bar do Ricardo, instalado a poucos metros dali. E de novo a minha mania de comparar os irmãos e os botecos. Voltei à tona com um entra e sai do Mendes Bar. O fluxo de fregueses deu uma aumentava depois do caso de polícia. Eu, confesso, até esqueci que minha cerveja estava quente, uma bosta cerveja quente!

Agora observava o carro de polícia. O suposto caloteiro pego em flagrante do lado dos PM’s. Eu não entendia. Ia dar B. O. ou não? Ou o caso terminaria apenas num sermão? Pensei em me levantar e ficar lá na calçada, para ouvir alguma confidência do acusado. Mas eu estava bebendo. Fiquei em dúvida se o caso não ia terminar em delegacia. Se eu tivesse a serviço de algum jornal local, certamente eu estaria lá do lado dos policiais dizendo que sou do jornal e tal. Mas eu não estava bem numa reportagem tradicional, eu estava numa posição distinta. Os transeuntes iam e vinham, por bem atravessavam meus pensamentos. A sirene do carro de polícia aluminava a calçada, eu prevendo o suposto caloteiro sendo algemado e julgado pela moralidade de plantão. Olhei do lado, onde antes estava o casal: dois bancos vazios. Perdi as testemunham, já que as testemunham estavam numa posição nobre agora. Me imaginei ali, como se eles pudessem estar ali e dizendo-lhes: “Que coisa, não?”. Imaginei mais, investi num diálogo particular com meus vizinhos de balcão ausentes: “Olha, me permita dizer, se fosse eu, pagaria toda a conta!”. Meus vizinhos ausentes talvez dissessem: “Eh, duas garrafas de cerveja e uma batida! Se não pode pagar meia bebedeira, o que esperar da vida?”. Cortei rápido o diálogo inverossímil ou de pouca aparência verdadeira pra me certificar do que bem importava dizer em pensamento: “Não aguento mais esta cerveja quente, já tenho a minha história! Vou-me embora. Já gastei a minha cota diária”. Paguei a conta e fui-me embora, incomodado com uma súbita nostalgia ou com uma lembrança de um tempo em que eu me fantasiava de repórter profissional de cidade pequena, com carteira assinada e salário baixo, coletando um depoimento do local de um B.O., ligado a alguma redação de jornaleco aliado da atual gestão municipal e subordinado a um público-leitor de páginas policiais e sem peso de consciência.

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