O caso de uma inesquecível prova de amor

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atualizado 16 janeiro 2018 Deixar comentário

por Renato Renato

Se o universo não conspirar a favor de uma prática, então não há esperneio que adiante, eu filosofava ali na esquina mais próxima ou tratemos de uma filosofia barata de tempos atrás. Quero dizer, se alguém pensa diferente diante de nossa mania incorrigível de espernear, só nos resta silenciar pelo respeito à diversidade de opiniões ou nos cabe reverenciar a paciência sagrada dos mortos, o deslize maroto dos cínicos, a isenção transparente dos indiferentes, o brio matemático dos frios e calculistas, a obsessão derradeira dos desesperançados de si.

Quanto a nós? O que podemos falar de um sujeito nem tão sujeito assim que um dia, sem pensar duas vezes, se jogou da altura de sete ou oito metros de uma ponte em Tarumã?

Minto. Segundo a “boca pequena local”, a altura foi ainda maior, quase incalculável.

O caso de uma inesquecível prova de amor foi publicado num jornaleco da cidade. O registro factual tem tempo, muito tempo mesmo. Quer dizer, não sei exatamente quando, mas quase tudo foi documentado, disso tenho certeza. E tudo indica que esta seja a versão mais real ou aproximada do caso que trago no bolso de uma calça jeans surrada de andarilho. Quem sabe as informações ainda possam ser confirmadas com um policial atualmente aposentado, caso alguém esteja duvidando de minhas palavras.

As poucas informações foram toscamente compiladas de um boletim de ocorrência, o fato foi pichado na solenidade de um papel. O famoso B.O. não revelava exatamente o motivo do ato autopromocional do citadino que se jogou da ponte, mas o documento trazia a fantástica constatação de que o sujeito nem tão sujeito assim passava bem, horas depois do ocorrido, num leito do pronto socorro de uma cidade vizinha, na companhia de uma jovem mulher.

Curiosamente, o povo tarumaense sabe mais que a imprensa tarumaense nem tão imprensa assim. Alguém do jornaleco citadino esqueceu de corrigir um erro de concordância verbal na reprodução do documento de polícia. Vi bem a versão impressa. Fiquei logo sabendo, por intermédio de terceiros, que o ato autopromocional do sujeito da notícia, foi motivado por uma briga com a namorada.

“Olha que bonitinho! O sujeito tentou sacrificar a própria vida por amor!”

Ora, ora, diria novamente o xarope mais próximo:

“Mas quem acredita em amor hoje em dia?”

Antigamente, nem tão antigamente assim, o amor fez-se uma abstração. Agora, um gesto de amor causa escândalo na plateia. O amor agora não passa de um constrangimento. Na época de Renato Russo e de sua Legião Urbana, o amor foi uma música que toda uma geração cantou e ouviu sem cansar; o amor foi consagrado por uma juventude pós-ditadura militar. Hoje, o amor se transformou num objeto de nostalgia, o amor até virou um hit de sucesso de uma famosa dupla sertaneja. Pelo que nos parece, o amor foi escanteado paras as plataformas de redes sociais.

Ou o povo é tradicionalmente muito esclarecido.

Ou a figura do falso suicida desta memória não passa de um falso apólogo do amor.

Ou vivemos um grande engano desde Platão.

Ou ou.

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